«Se ella morresse...» Esta ideia ao menor obstaculo, esta ideia a que eu
fujo e a que tu foges, e que ambos arredamos, mas que se obstina até a
proposito dos que mais amamos--esta ideia transforma-se logo em
acção:--Vou matal-a.
Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a esta creatura de olhos tristes
fitos em mim. Para sempre! Até as coisas mais bellas se transformam em
absurdo e me pesam como chumbo. Peza-me a tua amizade, peza-me o teu
amôr--para sempre.
A pobreza e a humildade não se toleram para sempre.
A ninharia a poder d'annos e de persistencia impõe-me respeito. A
ninharia um seculo, outro seculo, transforma-se em grandeza.
Quanto menos sinto a morte necessaria para mim, mais a julgo necessaria
para o outros. É um muro que é forçoso deitar abaixo. Para respirar é
preciso deital-o abaixo.
Muitas vozes, a d'este, a d'aquelle, a de tantos mortos, a imporem-me a
sua lei... Agora só eu falo e com a minha propria voz.
Agora só eu mando. A vida vou julgal-a com os meus proprios olhos. Vou
tomar folego, vou tomar peso á vida. Sei-a de côr e salteado. Sei o que
valem os preconceitos, as ilusões e as palavras--sei o que vale o
dinheiro. Não torno a ser iludido.
A vida é um combate, que só se vence pela bajulação, pela manha ou pela
audacia--todos os meios são bons. Os escrupulos não servem para nada, a
convenção tolhe-nos os braços. Meia duzia de regras afiadas bastam.
Honestidade a precisa para que confiem em nós--piedade a bastante para
que não nos assaltem os cofres. Fóra d'isto logro.
Se tenho forças uso-as.
A vida n'estas bases é talvez monstruosa, mas não posso modifical-as.
Aproveito-as. Tiro da vida o que ella me pode dar. Com ilusões podia-se
ser pobre--sem ilusões só se pode ser rico.