23 de dezembro

«Se ella morresse...» Esta ideia ao menor obstaculo, esta ideia a que eu

fujo e a que tu foges, e que ambos arredamos, mas que se obstina até a

proposito dos que mais amamos--esta ideia transforma-se logo em

acção:--Vou matal-a.

Desapareceu a morte e eis-me aqui preso a esta creatura de olhos tristes

fitos em mim. Para sempre! Até as coisas mais bellas se transformam em

absurdo e me pesam como chumbo. Peza-me a tua amizade, peza-me o teu

amôr--para sempre.

A pobreza e a humildade não se toleram para sempre.

A ninharia a poder d'annos e de persistencia impõe-me respeito. A

ninharia um seculo, outro seculo, transforma-se em grandeza.

Quanto menos sinto a morte necessaria para mim, mais a julgo necessaria

para o outros. É um muro que é forçoso deitar abaixo. Para respirar é

preciso deital-o abaixo.

Muitas vozes, a d'este, a d'aquelle, a de tantos mortos, a imporem-me a

sua lei... Agora só eu falo e com a minha propria voz.

Agora só eu mando. A vida vou julgal-a com os meus proprios olhos. Vou

tomar folego, vou tomar peso á vida. Sei-a de côr e salteado. Sei o que

valem os preconceitos, as ilusões e as palavras--sei o que vale o

dinheiro. Não torno a ser iludido.

A vida é um combate, que só se vence pela bajulação, pela manha ou pela

audacia--todos os meios são bons. Os escrupulos não servem para nada, a

convenção tolhe-nos os braços. Meia duzia de regras afiadas bastam.

Honestidade a precisa para que confiem em nós--piedade a bastante para

que não nos assaltem os cofres. Fóra d'isto logro.

Se tenho forças uso-as.

A vida n'estas bases é talvez monstruosa, mas não posso modifical-as.

Aproveito-as. Tiro da vida o que ella me pode dar. Com ilusões podia-se

ser pobre--sem ilusões só se pode ser rico.

Humus · 第 21 / 83 题