18 de dezembro

Em logar do uso de palavras fazia isto melhor com o emprego de dois

tons--cinzento e oiro: uma nodoa que se entranha noutra nodoa. O sonho

turva a villa. A primavera toca n'este charco só lôdo e azul: tinge-o e

revolve-o. Mas o habito de tal forma se entranhou na vida, que cohabitam

com o espanto e continuam a ir á repartição. Horas na torre. Mais

silencio. A morte roda aqui por perto, alguem fala:--Então como passou?

passou bem?--O habito tem profundidades de legoa.

A principio olham-se desconfiados, com medo uns dos outros. Sem duvida

gostam de viver mais um seculo, mais dois seculos, mas não sabem ainda

que emprego hão-de dar á existencia. Não se lhes dava mesmo de morrer

com tanto que continuassem a jogar o gamão no infinito. O que lhes custa

mais a perder não é a vida, são os habitos. Veem-se e não se reconhecem.

Há almas embrionarias, velhos lojistas que olham para si proprios com

terrôr. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara

a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existencia falsa acabou

por os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar--há mentiras que

teem raizes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer é

continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma

moeda a outra moeda, um dia a outro dia inutil. Sempre... Já na botica

dois idiotas recomeçaram com escrupulo uma partida que deve durar cem

annos, e o bocal amarello, as moscas mortas estão alli com outro ar.

Fixaram-se. Estão alli embirrentas e sordidas para toda a eternidade.

Pouco e pouco o sonho dissolve, a nodoa d'oiro alastra. Vae mexer com o

subterraneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil

annos, sobresalta o instincto, bole com todas as almas sobrepostas até

ao fundo da vida. Transforma, volta a existencia do avesso, deita o muro

abaixo. Por ora é só uma idéa, mas sae-nos de cima o peso do mundo...

Mexe em tudo, revolve todas as raizes que se apoderaram da villa. O

sonho cae na regra, no charco de interesses, na hypocrisia que se não

atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na

paciencia de quem espera uma herança com vagares de quem tece uma teia.

Certas existencias são formidaveis, outras existencias são como alcovas

onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e

gesticula um sêr desconhecido. Certas existencias são feitas de odio

minusculo, de inveja que sorri--porque nem a inveja se atreve. Certas

existencias são crepusculares. Em certas existencias são os mortos que

ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulchro.

Quasi toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora

perguntam-se:--Sou eu? sou eu?

Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. A

minha vontade era anular-te--e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama,

a bocca por se habituar á mentira, a ponto de já não saber discernir o

meu sêr, do sêr artificial que criei peça a peça.--Pois sim... pois

sim...--Mas atraz disto há outra coisa--há fél; E quando tiro a mascara?

Mas eu já não posso tirar a mascara, mesmo quando me fecho a sete

chaves: a mentira entranhou-se-me na carne. Este phantasma chegou a ter

mais vida que a propria realidade. E aqui andam outros sêres. Eu não sei

quem sou e até o meu metal de voz estranho. Eu não sou quem falo. A meu

lado, atraz de mim, vem um cortejo de phantasmas, uma cauda disforme que

me conduz e empurra, e adiante de mim há uma projecção de vida até aos

confins dos seculos.

Acaba a hypocrisia. Acaba principalmente a hypocrisia para comnosco,

mais dificil de largar que a propria pelle. Eu minto mais a mim mesmo do

que minto aos outros, finges tanto com a tua alma como com a minha.

Primeiro é a hipocrisia que descasca. Acabou! acabou! E com espanto ouço

e desconheço a minha propria voz.

É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma

influencia oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira

na existencia, que é metade do nosso sêr. Incerteza, duvida, remorso...

Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro, sentimos-lhe sempre o frio.

Agora não, a vida pertence-nos. A morte não existe, desapareceu a

morte...

Ali a um canto um sêr desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguem se

riu.

E, atravez da pedra d'estas physionomias, transparecem já outras

physionomias: as velhas, como uma roda de aranhas de penante na cabeça,

apertam o circulo em volta da magestosa Theodora. São annos de

paciencia, d'inveja e de fél--são annos de tragedia. Sobresaltam-se as

futilidades que estavam para durar seculos, mas ninguem arrisca ainda um

gesto que o comprometa. Teem-lhe obedecido de rastros. O tempo passa, e

com o tempo esta lucta entre o inferno e o sonho revestiu-se de cimento

e de grandeza.

Obedece e sorri a Eleutheria. Moe, tem moido a vida inteira. Moe-se a si

e aos outros.--E o tempo passa...--Obedece e sorri a Adelia, que

esperou, tem esperado a vida inteira. A miseria conserva: tem os cabelos

pretos. Seis, doze vintens desiquilibram-lhe o orçamento: perde-os todas

as noites com um sorriso d'angustia. Obedece e sorri a Porphiria, que é

a peor de todas; é feita de destroços e de restos. A aquiescencia tambem

está presente com a D. Restituta, de guardachuva na mão, acenando sempre

que sim á vida:--Pois sim... pois sim.--Faz-se um pouco surda para só

ouvir o que lhe convem. Nunca diz mal dos outros, nunca repete n'uma

casa o que ouviu cá fóra. Ás vezes, de noite, vira-se revira-se na cama,

mas nem sósinha se explica: suspira. É na aparencia um pouco trôpega, um

pouco adoentada e surda: tem uma saude de ferro e um filho escondido. E

ao passo que a D. Restituta, tendo dito a tudo que sim, tendo dito a

tudo e a todos que sim, já não pode dizer, com o mesmo esgare, senão que

sim:--Pois sim... pois sim...--a Adelia é rispida: um vestido, um chale,

um chapeu de plumas, e o desejo exasperado de toda a sua vida (tem

sessenta annos) de ter uma sala de visitas com dois castiçaes de prata e

um album. O album lá está, na sala que cheira a bafio, e há vinte e dois

annos que dois paninhos redondos de crochet esperam os castiçaes de

prata. Obedecem as figuras secundarias, atentas e imoveis sobre o jogo,

dependentes umas das outras, ligadas pelo mesmo interesse. A alma d'esta

velhas chegou assim a ser prodigiosa. Façam o favor de entrar... Algumas

flôres murchas n'um cantinho com môfo. Depois paciencia, avareza, depois

um vasto campo funerario, onde passa o vento da desolação como na

retirada da Russia. E dominando a paisagem dois ou tres marcos

geodesicos. Lá no fundo uma pégada de vida empoçada e que reflecte o

céo: alli se miram e remiram na sua mocidade. Notem: nenhuma disse uma

palavra mais alto. Tudo isto se fez pelo lado de dentro--tudo isto

cresceu pelo lado de dentro, de tal forma que se fosse material não

cabia no mundo, com colunatas, porticos, destroços e subterraneos, como

uma cathedral gotica. Aqui nesta cripta está o relento, branco e molle,

creado na escuridão e no silencio, branco e molle, branco e sem olhos.

Varias sepulturas com estatuas jacentes e, mais adiante, sobre

sarcophagos, a Tradição e a Formula, que durante os annos que durou a

bisca, defenderam a magestosa Theodora d'um envenenamento. Aqui

agora--cuidado!--a escuridão é viva, a escuridão é sonho, é sonho

requentado, como um acrescento de todos os dias, sonho com que não podem

mais ao lado da vida quotidiana. Como sempre as velhas deitam-se cedo,

rezam o terço, e antes de dormir juntam um pormenor ao sonho inutil, uma

figura aos nichos, um portico aos porticos, um terraço aos terraços--até

que adormecem com um sorriso candido e um cheiro pela bocca que

tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um alto relevo esquecido;

aqui as figuras são figuras de delirio; aqui a nave atinge alturas

desconexas sustentada n'um unico pilar; aqui abre-se uma ogiva com

vitrais, que esclarece a uma luz funerea um quadro indistincto, e que é

talvez a recordação d'um amôr já morto--porque ellas tambem amaram--aqui

o misterio envolve-se em sombras condensadas, onde agoniza um Christo

exanime que mete medo. Adiante n'um friso incompleto com uma cidade

phantastica, campeia o diabo; depois um remate enfumado, cachorros

sustentando uma arcatura, onde se admira a delicadeza e a abundancia de

ornamentação (é a paciencia); e, n'este canto, mais sonho, entre negrume

acumulado, treva viva num buraco de treva, que a si propria se enovela

num desespero, até que não cabe na cathedral, irrompe para o lado de

fóra e chega n'um jacto ao céo... Isto não é a cathedral de Burgos--é a

cathedral do fél e vinagre.

Todas aceitavam, a morte e a vida quotidiana. Resignavam-se. Mas o que

esta palavra representa de sonho desfeito em fumo, de coleras inuteis,

de inveja inutil, de bolôr e de despeito, tradul-o a paciente D.

Herminia por este grito feroz:

--Estou farta senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de

aturar os outros, e de me aturar principalmente a mim mesma!

Toda a gente dá a mesma ferocidade, odio e instincto. Espremidos deitam

as mesmas paixões. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias.

Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se. A paciencia era

pegajosa. A paciencia tinha uma côr especial, verde desbotado, que mal

feria a vista, e um filho, a cobiça, tal qual como a D. Restituta, que

encrespa o pello e se põe de pé com o guarda-chuva em riste.

Cada sêr me perturba como se contivesse em si o céo e o inferno. Bem sei

que a formula não é inutil: ao contrario a mascara é indispensavel e é

por ella que nos julgam. Mas, apezar de crearmos o mesmo bolôr e nos

sepultarmos ao mesmo tempo com certa comodidade sob alguns palmos de

terra, há qualquer coisa que remexe e que faz parte integrante da vida.

Até o escuro se eriça--até a grande sombra se deforma.--Muita gente na

vida só conta com a morte. A D. Desideria desata aos ais. E é com

secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edificio tão bem

construido sobre bases, que pareciam inabalaveis, do interesse, da

hipocrisia e das conveniencias... Impelidos por uma mola dão todos um

passo em frente, e há tres dias que os padres se descompõem na colegiada

sem se chegarem a entender:--Lá vae o inferno! lá vae o inferno!--E,

efectivamente, d'um instante para o outro, lá vae o inferno que tanto

custou a fazer, e outras sombras temerosas reduzidas a cisco. Lá vae o

scenário admiravel e monstruoso, todas as regras, todos os papeis

pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo menos metade da nossa

existencia. O que tinha uma importancia extrema passou a não ter

importancia nenhuma; o que parecia indispensavel á vida, e sem o que se

não dava um passo na vida, reduziu-se n'um minuto a zero. E outras

coisas insignificantes assumiram proporções enormes... Os padres clamam

n'um côro desesperado:--Acabou o inferno acabou tudo!--Descompõem-se na

sala da colegiada que deita para o passado--o claustro com um pé de

oliveira, e dois tumulos encravados na parede, scenographia para o

Hamlet,--sêr ou não sêr eis a questão... Cheiram a ourina e a ranço.--A

religião sem inferno está perdida.--Mas lá por o homem ter suprimido a

morte, não deixa de haver inferno--observa o estupido conego

Fazenda.--Isso está claro que não deixa, obrigado pela observação, mas é

um inferno tão distante que não mete medo a ninguem.--Protesto!--Lá vae

o inferno! acabou o inferno!

Lá vae tambem o céo, mas o céo não faz falta nenhuma.

Já não há esforços que contenham o mundo subterraneo que se pôz a

caminho. Aos mortos cheira-lhes a vida, a saque, a infamia. A poeira

remexe. Por mais que queiram conter a vida dentro de certos limites,

ella extravasa, e vem á supuração; por mais que a queiram comprimir

estala por todas as costuras. É inutil. Alem da vida aparente, há outra

vida de odio, de sonho, de interesses occultos. É a vida, é o que eu

scismo de noite e me sustenta de dia. É o desejo de exterminio, é o

sonho que arredo e que me pega fuligem: são os restos de sonho de toda a

gente. Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um

interior escondido. Saem dos antros entontecidos e respiram, olham o céo

e respiram. Saem dos buracos e põem-se a rir, ou falam só, o que é a

primeira vez que succede na villa. Emergem da noite e vão deixando cahir

os farrapos. Respiram com sofreguidão, os gadanhos afiam-se-lhes, e o

mesmo desejo os domina: a vida! a vida! a vida!

Só esta velha parou de remexer nas cinzas frias. Petrificou-se mais,

petrificou-se mais ainda, e a figura curva exprime, na imobilidade

tragica, sonho e desespero, dôr e desespero, noite e desespero...

É um erro supôr que o homem ocupa um espaço limitado no universo: cada

homem vae até ao interior da terra e até ao amago do céo. A parte de

cima foi cortada, mas o que resta da alma é um poço sem fundo. Uma

obscuridade. Por vezes fala a lei e o habito. Intrometem-se coisas

abjectas a que não sei o nome. Agora é a vez de impulso--agora é a vez

do interesse. A mania tambem tem os seus direitos. De mais baixo

ascendem ordens que se não chegam a formular. Desço mais fundo no poço e

encontro restos sordidos e candura. Por baixo sonho--por baixo

fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo, não são más, mas teem

atraz de si seculos de ruina e de destroços. Há-as que acordam sempre

com a bocca amarga. Já tiveram vinte annos, e cada uma d'ellas suporta

uma cauda de desespero, de ilusões desfeitas, de ilusões intactas, de

desejos irrealisados, que lhes peza como chumbo. Cada velha arrasta

comsigo uma porção de cadaveres... De mais fundo vem outro impulso...

Começo a ouvir vozes que supunha de todo extinctas. Acordam e de tal

forma se impõem, que a D. Procopia desata a falar sem tom nem som. Nessa

vaga, n'esse lôdo adormecido, jaziam sêres ignorados que veem á

superficie: sente-se no silencio as mãos agarrando-se ás paredes. Um a

um todos deitam raizes tremendas. E a nodoa immensa alastra, a nodoa

desordenada, que satura d'oiro a insignificancia e o genio, a nuvem que

envolve a D. Inocencia, encrespa os cabellos á D. Leocadia, fez esquecer

a dispepsia ao D. Prior, arreganha os dentes a D. Restituta. Pega-se.

Torna uns mais ridiculos, concentra outros. Vae remexer no que estava

sepultado há dois mil annos, no bolôr e no bafio, nas paredes compactas

da Sé, nos santos immoveis nos seus nichos, na inutilidade e no habito.

E doira, doira, doira, doira o Telles e o Reles, doira a hipocrisia e o

medo, o egoismo e o interesse. E ao mesmo tempo que os transforma,

põe-nos frente a frente a uma coisa estranha que não admite

subterfugios--á realidade.

Desaparecendo a convenção e as palavras, que vae sahir d'aqui de

temeroso e de ridiculo? Transformado o mundo, com que olhos vamos vêr o

mundo? Tudo isto eram phrases e só existem instinctos? A honra era uma

phrase, o dever uma phrase e a vida um scenário? Cada sêr é capaz de

todas as perguntas e de todas as respostas. Escorre todas as tintas e

possue todas as côres, e só por habito adquirido há seculos é que

conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma.

Há dialogos na obscuridade em que se empregam palavras que nunca se

usaram, e figuras que já não são as mesmas figuras. Todos nós somos

disformes.--Deixem-me! deixem-me!--Agora quando falam já não é para

dizer coisas convencionaes.--Estou á espera, tenho estado aqui á espera

toda a minha vida.--Á espera de quê?--Á espera deste hora suprema, á tua

espera...--Mas fala...--Não posso, só com gritos é que posso falar...--A

outra coisa temerosa sacode-os...--Tu ouves?--Não te quero ouvir. Se

consegues ficar comigo sós a sós, sinto que estou perdido. Tudo que me

deu tanto trabalho a construir, alue-se n'um unico minuto. Teimo em me

defender--teima em se fazer escutar...--Tu ouves? tu ouves?...--Mas tu

não existes... Ou tu não existes ou só tu existes no

mundo...--Estremecem até á base da vida, e, n'este cataclismo, ainda se

lhes pégam coisas vulgares e coisas inuteis--o que se faz e o que se não

faz, o que se usa e o que se não usa, as conveniencias e os habitos

rançosos. Há dialogos formidaveis na obscuridade. Há almas extacticas,

há-as reduzidas ao espanto.--Ouves?--tu ouves?--Não tenho a que me

apegue, mal ouso pôr os pés. Até agora sabia quem era, ou fingia

sabel-o, agora pergunto se sou a D. Leocadia, a D. Procopia e a D.

Penaricia? Só posso viver ligado a certas palavras, a certos factos, a

certas bases que julgava indestructiveis, e um nada destruiu tudo isto,

transformou de todo a vida. O sonho tem outra côr, e a nodoa de oiro

alastra, corroe, mistura-se a nodoas mais escuras e mais fundas,

penetra, dissolve, produz logo manchas corrosivas como ulceras.--Phrases

ainda elles as teem, mas o peor é que cada um sente com espanto que já

não subverte a verdade. Pergunto a mim mesmo se a deixo morrer, ou se a

deixo viver mais duzentos, mais trezentos, mais quatrocentos annos?

Agora que a sua vida só depende de mim, pergunto a mim mesmo se a deixo

viver--contra os meus interesses? Eram tremendas as questões de dinheiro

que a morte resolvia. Quem as resolve agora? Debatem-se em cada

consciencia problemas que só teem uma solução--a morte. Excusas de

desviar o olhar: só teem uma solução--a morte. E de mais fundo ascendem

outras vozes e falam cada vez com maior desespero.--Não desvies o olhar.

Tu ouves?...

Assim como esta clamam as vozes interiores, mais alto, sempre mais alto,

imperiosas, as vozes da multidão que constitue a tua alma. Isto coincide

com o grotesco dos homens de calva e ventre gorduroso, meios nus em

plena praça, sem se atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos

convencionaes; isto coincide com uma primavera antecipada, em que as

arvores, sentindo talvez que vão ser a nossos olhos apenas coisas

utilitarias, se apressam a dar flôr, em que os céos nocturnos e sem

macula parecem ter gelado em azul com fundos d'oiro revolvido...

Alguns põem-se a caminho e marcham com olhos inquietos. Passa essa

sombra tragica, a mulher do Anacleto. Estes dois que foram sempre

pessoas consideradas, com assento na existencia, e que usam a cabeça

como quem usa um resplendôr, o Elias de Mello e o Melias de Mello,

sentem um baque que os amolga. Porquê? Elles teem tudo em dia, as

contas, os livros, os escrupulos. A praça considera-os, Deus

considera-os.--A nossa mãe morre...--E não tiram o lenço dos

olhos.--Veneram-na. Mas o respeito pelos paes só resiste emquanto os

paes respeitam o interesse dos filhos. Há decerto uma lei moral, mas há

sempre por traz uma bocca a prégar. Uivos, gritos, exasperos. É a

transformação do grotesco em ferocidade, é a camada de hipocrisia que

custa a romper. Imaginem isto: imaginem o lojista em debate com a vida

subterranea, o lojista deparando pela primeira vez com uma alma

esplendida, e a D. Adelia, de chinó postiço, fechada n'uma gaiola com a

verdade, e aos saltos uma á outra.

Foi grotesco, começou por ser grotesco. Mas escuta-te: é um mundo que lá

tens dentro, é uma multidão que se prepara para o assalto. Estava

adormecida, acordou. Mete medo. E prégam, açulam-se, avançam direitos

aos seus apetites, ao saque, á guerra, á luxuria. Continham-na arames

enferrujados, o medo da morte, o habito de crêr em Deus (sabendo bem que

Deus já não existia) phantasmas, cacos d'armadura que derruiram d'um dia

para o outro. Descobrir que não há Deus que alegria! Põe a gente á

vontade. Respira-se d'outra maneira. Descobrir que a morte não é

inevitavel endurece. O mundo muda d'aspecto. Agora é que eu contemplo a

vida--e me perco na vida. Começo a ter medo de mim mesmo e não me posso

olhar sem terror. Que é isto, este sonho, esta dôr, esta insignificancia

entre forças desabaladas? Onde hei-de pôr os pés? Eu sou a arvore e o

céo, faço parte do espanto, vivo e morro ligado a isto. Sou temeroso e

ridiculo. Não me desligo do turbilhão azul, sem nome, que me leva

arrastado, estonteado, iludido, e ao mesmo tempo discuto, nego e afirmo.

Sou ridiculo e construi o mundo. Sonho e acabo reduzido a pó. Sou capaz

de tudo e um nada me abate. Sou sordido e futil e não tenho limites--vou

de mundo a mundo e de espirito a espirito. Dei alma ás coisas inertes,

significação ao universo, vida ao que não existe, luz ás estrellas--e no

fim acabo grotesco. Sou nada entre o pelago e sem mim tudo se afunda no

pelago. O que olhava com indiferença mete-me agora medo. Não posso com o

mundo transformado, com outros sêres, e onde não me desligo d'uma força

cada vez maior e mais desabalada.

Preciso de olhar para mim, sou forçado a olhar para dentro de mim mesmo,

a encarar comigo mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido de pavôr. Não

me posso comprehender no universo, não entendo esta luz insignificante

no negrume gelado, nem esta discussão interminavel no silencio absoluto,

nem este ridiculo, nem esta figura mesquinha que representa o mundo. Com

que destino rio ou choro entre o enxurro de oiro e os impulsos tremendos

que veem não sei d'onde e caminham desabaladamente para um fim que não

distingo? Tenho medo de mim mesmo! tenho medo de mim mesmo! Nunca o

acaso pariu nada tão monstruoso e tão grotesco como isto a que se chama

a vida. Tenho medo de mim mesmo! Cada vez me sinto mais abjecto e mais

transido--cada vez me sinto maior e mais capaz de tudo. Não me posso

olhar nos olhos, com medo de vêr o que nunca vi, em todo o seu horror e

em toda a sua nudez. Grito.

Gritos--gritos--gritos ainda sufocados. Ouço-os na noite imperturbavel,

na harmonia esplendida, na arvore e na pedra. Mais gritos no turbilhão

dos mundos, e atraz desse turbilhão outro maior--e mais gritos ainda. A

ternura sou eu que a presto ao absurdo e á dôr. O que fica na realidade

são gritos. A harmonia parece immensa porque as coisas não teem bocca

para prégar--ou não as sabemos ouvir. Tudo isto se reduz a dôr muda, a

dôr intoleravel n'um escantilhão de desespero--de desespero sem

significação--de desespero cada vez maior. E sempre outras boccas prégam

mais alto na noite que não tem limites, outras boccas que nem sequer

existem. Levanta-se a poeira tragica, a poeira que anda espalhada há

milhares de annos, a poeira dos mortos e a poeira dos vivos. Mais poeira

ainda, que vem dos confins, toda a poeira dispersa, que já foi ternura e

desgraça, poeira desaparecida que foi sonho, poeira inutil que foi dôr.

Os maiores dramas passam-se porém no silencio.

Humus · 第 20 / 83 题