Em logar do uso de palavras fazia isto melhor com o emprego de dois
tons--cinzento e oiro: uma nodoa que se entranha noutra nodoa. O sonho
turva a villa. A primavera toca n'este charco só lôdo e azul: tinge-o e
revolve-o. Mas o habito de tal forma se entranhou na vida, que cohabitam
com o espanto e continuam a ir á repartição. Horas na torre. Mais
silencio. A morte roda aqui por perto, alguem fala:--Então como passou?
passou bem?--O habito tem profundidades de legoa.
A principio olham-se desconfiados, com medo uns dos outros. Sem duvida
gostam de viver mais um seculo, mais dois seculos, mas não sabem ainda
que emprego hão-de dar á existencia. Não se lhes dava mesmo de morrer
com tanto que continuassem a jogar o gamão no infinito. O que lhes custa
mais a perder não é a vida, são os habitos. Veem-se e não se reconhecem.
Há almas embrionarias, velhos lojistas que olham para si proprios com
terrôr. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara
a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existencia falsa acabou
por os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar--há mentiras que
teem raizes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer é
continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma
moeda a outra moeda, um dia a outro dia inutil. Sempre... Já na botica
dois idiotas recomeçaram com escrupulo uma partida que deve durar cem
annos, e o bocal amarello, as moscas mortas estão alli com outro ar.
Fixaram-se. Estão alli embirrentas e sordidas para toda a eternidade.
Pouco e pouco o sonho dissolve, a nodoa d'oiro alastra. Vae mexer com o
subterraneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil
annos, sobresalta o instincto, bole com todas as almas sobrepostas até
ao fundo da vida. Transforma, volta a existencia do avesso, deita o muro
abaixo. Por ora é só uma idéa, mas sae-nos de cima o peso do mundo...
Mexe em tudo, revolve todas as raizes que se apoderaram da villa. O
sonho cae na regra, no charco de interesses, na hypocrisia que se não
atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na
paciencia de quem espera uma herança com vagares de quem tece uma teia.
Certas existencias são formidaveis, outras existencias são como alcovas
onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e
gesticula um sêr desconhecido. Certas existencias são feitas de odio
minusculo, de inveja que sorri--porque nem a inveja se atreve. Certas
existencias são crepusculares. Em certas existencias são os mortos que
ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulchro.
Quasi toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora
perguntam-se:--Sou eu? sou eu?
Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. A
minha vontade era anular-te--e finjo, e o sorriso acaba por ganhar cama,
a bocca por se habituar á mentira, a ponto de já não saber discernir o
meu sêr, do sêr artificial que criei peça a peça.--Pois sim... pois
sim...--Mas atraz disto há outra coisa--há fél; E quando tiro a mascara?
Mas eu já não posso tirar a mascara, mesmo quando me fecho a sete
chaves: a mentira entranhou-se-me na carne. Este phantasma chegou a ter
mais vida que a propria realidade. E aqui andam outros sêres. Eu não sei
quem sou e até o meu metal de voz estranho. Eu não sou quem falo. A meu
lado, atraz de mim, vem um cortejo de phantasmas, uma cauda disforme que
me conduz e empurra, e adiante de mim há uma projecção de vida até aos
confins dos seculos.
Acaba a hypocrisia. Acaba principalmente a hypocrisia para comnosco,
mais dificil de largar que a propria pelle. Eu minto mais a mim mesmo do
que minto aos outros, finges tanto com a tua alma como com a minha.
Primeiro é a hipocrisia que descasca. Acabou! acabou! E com espanto ouço
e desconheço a minha propria voz.
É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma
influencia oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira
na existencia, que é metade do nosso sêr. Incerteza, duvida, remorso...
Nunca se cerra de todo a porta do sepulchro, sentimos-lhe sempre o frio.
Agora não, a vida pertence-nos. A morte não existe, desapareceu a
morte...
Ali a um canto um sêr desata a rir, a rir, a rir como nunca ninguem se
riu.
E, atravez da pedra d'estas physionomias, transparecem já outras
physionomias: as velhas, como uma roda de aranhas de penante na cabeça,
apertam o circulo em volta da magestosa Theodora. São annos de
paciencia, d'inveja e de fél--são annos de tragedia. Sobresaltam-se as
futilidades que estavam para durar seculos, mas ninguem arrisca ainda um
gesto que o comprometa. Teem-lhe obedecido de rastros. O tempo passa, e
com o tempo esta lucta entre o inferno e o sonho revestiu-se de cimento
e de grandeza.
Obedece e sorri a Eleutheria. Moe, tem moido a vida inteira. Moe-se a si
e aos outros.--E o tempo passa...--Obedece e sorri a Adelia, que
esperou, tem esperado a vida inteira. A miseria conserva: tem os cabelos
pretos. Seis, doze vintens desiquilibram-lhe o orçamento: perde-os todas
as noites com um sorriso d'angustia. Obedece e sorri a Porphiria, que é
a peor de todas; é feita de destroços e de restos. A aquiescencia tambem
está presente com a D. Restituta, de guardachuva na mão, acenando sempre
que sim á vida:--Pois sim... pois sim.--Faz-se um pouco surda para só
ouvir o que lhe convem. Nunca diz mal dos outros, nunca repete n'uma
casa o que ouviu cá fóra. Ás vezes, de noite, vira-se revira-se na cama,
mas nem sósinha se explica: suspira. É na aparencia um pouco trôpega, um
pouco adoentada e surda: tem uma saude de ferro e um filho escondido. E
ao passo que a D. Restituta, tendo dito a tudo que sim, tendo dito a
tudo e a todos que sim, já não pode dizer, com o mesmo esgare, senão que
sim:--Pois sim... pois sim...--a Adelia é rispida: um vestido, um chale,
um chapeu de plumas, e o desejo exasperado de toda a sua vida (tem
sessenta annos) de ter uma sala de visitas com dois castiçaes de prata e
um album. O album lá está, na sala que cheira a bafio, e há vinte e dois
annos que dois paninhos redondos de crochet esperam os castiçaes de
prata. Obedecem as figuras secundarias, atentas e imoveis sobre o jogo,
dependentes umas das outras, ligadas pelo mesmo interesse. A alma d'esta
velhas chegou assim a ser prodigiosa. Façam o favor de entrar... Algumas
flôres murchas n'um cantinho com môfo. Depois paciencia, avareza, depois
um vasto campo funerario, onde passa o vento da desolação como na
retirada da Russia. E dominando a paisagem dois ou tres marcos
geodesicos. Lá no fundo uma pégada de vida empoçada e que reflecte o
céo: alli se miram e remiram na sua mocidade. Notem: nenhuma disse uma
palavra mais alto. Tudo isto se fez pelo lado de dentro--tudo isto
cresceu pelo lado de dentro, de tal forma que se fosse material não
cabia no mundo, com colunatas, porticos, destroços e subterraneos, como
uma cathedral gotica. Aqui nesta cripta está o relento, branco e molle,
creado na escuridão e no silencio, branco e molle, branco e sem olhos.
Varias sepulturas com estatuas jacentes e, mais adiante, sobre
sarcophagos, a Tradição e a Formula, que durante os annos que durou a
bisca, defenderam a magestosa Theodora d'um envenenamento. Aqui
agora--cuidado!--a escuridão é viva, a escuridão é sonho, é sonho
requentado, como um acrescento de todos os dias, sonho com que não podem
mais ao lado da vida quotidiana. Como sempre as velhas deitam-se cedo,
rezam o terço, e antes de dormir juntam um pormenor ao sonho inutil, uma
figura aos nichos, um portico aos porticos, um terraço aos terraços--até
que adormecem com um sorriso candido e um cheiro pela bocca que
tresanda... Aqui com o tempo acrescentou-se um alto relevo esquecido;
aqui as figuras são figuras de delirio; aqui a nave atinge alturas
desconexas sustentada n'um unico pilar; aqui abre-se uma ogiva com
vitrais, que esclarece a uma luz funerea um quadro indistincto, e que é
talvez a recordação d'um amôr já morto--porque ellas tambem amaram--aqui
o misterio envolve-se em sombras condensadas, onde agoniza um Christo
exanime que mete medo. Adiante n'um friso incompleto com uma cidade
phantastica, campeia o diabo; depois um remate enfumado, cachorros
sustentando uma arcatura, onde se admira a delicadeza e a abundancia de
ornamentação (é a paciencia); e, n'este canto, mais sonho, entre negrume
acumulado, treva viva num buraco de treva, que a si propria se enovela
num desespero, até que não cabe na cathedral, irrompe para o lado de
fóra e chega n'um jacto ao céo... Isto não é a cathedral de Burgos--é a
cathedral do fél e vinagre.
Todas aceitavam, a morte e a vida quotidiana. Resignavam-se. Mas o que
esta palavra representa de sonho desfeito em fumo, de coleras inuteis,
de inveja inutil, de bolôr e de despeito, tradul-o a paciente D.
Herminia por este grito feroz:
--Estou farta senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de
aturar os outros, e de me aturar principalmente a mim mesma!
Toda a gente dá a mesma ferocidade, odio e instincto. Espremidos deitam
as mesmas paixões. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias.
Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se. A paciencia era
pegajosa. A paciencia tinha uma côr especial, verde desbotado, que mal
feria a vista, e um filho, a cobiça, tal qual como a D. Restituta, que
encrespa o pello e se põe de pé com o guarda-chuva em riste.
Cada sêr me perturba como se contivesse em si o céo e o inferno. Bem sei
que a formula não é inutil: ao contrario a mascara é indispensavel e é
por ella que nos julgam. Mas, apezar de crearmos o mesmo bolôr e nos
sepultarmos ao mesmo tempo com certa comodidade sob alguns palmos de
terra, há qualquer coisa que remexe e que faz parte integrante da vida.
Até o escuro se eriça--até a grande sombra se deforma.--Muita gente na
vida só conta com a morte. A D. Desideria desata aos ais. E é com
secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edificio tão bem
construido sobre bases, que pareciam inabalaveis, do interesse, da
hipocrisia e das conveniencias... Impelidos por uma mola dão todos um
passo em frente, e há tres dias que os padres se descompõem na colegiada
sem se chegarem a entender:--Lá vae o inferno! lá vae o inferno!--E,
efectivamente, d'um instante para o outro, lá vae o inferno que tanto
custou a fazer, e outras sombras temerosas reduzidas a cisco. Lá vae o
scenário admiravel e monstruoso, todas as regras, todos os papeis
pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo menos metade da nossa
existencia. O que tinha uma importancia extrema passou a não ter
importancia nenhuma; o que parecia indispensavel á vida, e sem o que se
não dava um passo na vida, reduziu-se n'um minuto a zero. E outras
coisas insignificantes assumiram proporções enormes... Os padres clamam
n'um côro desesperado:--Acabou o inferno acabou tudo!--Descompõem-se na
sala da colegiada que deita para o passado--o claustro com um pé de
oliveira, e dois tumulos encravados na parede, scenographia para o
Hamlet,--sêr ou não sêr eis a questão... Cheiram a ourina e a ranço.--A
religião sem inferno está perdida.--Mas lá por o homem ter suprimido a
morte, não deixa de haver inferno--observa o estupido conego
Fazenda.--Isso está claro que não deixa, obrigado pela observação, mas é
um inferno tão distante que não mete medo a ninguem.--Protesto!--Lá vae
o inferno! acabou o inferno!
Lá vae tambem o céo, mas o céo não faz falta nenhuma.
Já não há esforços que contenham o mundo subterraneo que se pôz a
caminho. Aos mortos cheira-lhes a vida, a saque, a infamia. A poeira
remexe. Por mais que queiram conter a vida dentro de certos limites,
ella extravasa, e vem á supuração; por mais que a queiram comprimir
estala por todas as costuras. É inutil. Alem da vida aparente, há outra
vida de odio, de sonho, de interesses occultos. É a vida, é o que eu
scismo de noite e me sustenta de dia. É o desejo de exterminio, é o
sonho que arredo e que me pega fuligem: são os restos de sonho de toda a
gente. Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um
interior escondido. Saem dos antros entontecidos e respiram, olham o céo
e respiram. Saem dos buracos e põem-se a rir, ou falam só, o que é a
primeira vez que succede na villa. Emergem da noite e vão deixando cahir
os farrapos. Respiram com sofreguidão, os gadanhos afiam-se-lhes, e o
mesmo desejo os domina: a vida! a vida! a vida!
Só esta velha parou de remexer nas cinzas frias. Petrificou-se mais,
petrificou-se mais ainda, e a figura curva exprime, na imobilidade
tragica, sonho e desespero, dôr e desespero, noite e desespero...
É um erro supôr que o homem ocupa um espaço limitado no universo: cada
homem vae até ao interior da terra e até ao amago do céo. A parte de
cima foi cortada, mas o que resta da alma é um poço sem fundo. Uma
obscuridade. Por vezes fala a lei e o habito. Intrometem-se coisas
abjectas a que não sei o nome. Agora é a vez de impulso--agora é a vez
do interesse. A mania tambem tem os seus direitos. De mais baixo
ascendem ordens que se não chegam a formular. Desço mais fundo no poço e
encontro restos sordidos e candura. Por baixo sonho--por baixo
fragmentos e gritos... As velhas, por exemplo, não são más, mas teem
atraz de si seculos de ruina e de destroços. Há-as que acordam sempre
com a bocca amarga. Já tiveram vinte annos, e cada uma d'ellas suporta
uma cauda de desespero, de ilusões desfeitas, de ilusões intactas, de
desejos irrealisados, que lhes peza como chumbo. Cada velha arrasta
comsigo uma porção de cadaveres... De mais fundo vem outro impulso...
Começo a ouvir vozes que supunha de todo extinctas. Acordam e de tal
forma se impõem, que a D. Procopia desata a falar sem tom nem som. Nessa
vaga, n'esse lôdo adormecido, jaziam sêres ignorados que veem á
superficie: sente-se no silencio as mãos agarrando-se ás paredes. Um a
um todos deitam raizes tremendas. E a nodoa immensa alastra, a nodoa
desordenada, que satura d'oiro a insignificancia e o genio, a nuvem que
envolve a D. Inocencia, encrespa os cabellos á D. Leocadia, fez esquecer
a dispepsia ao D. Prior, arreganha os dentes a D. Restituta. Pega-se.
Torna uns mais ridiculos, concentra outros. Vae remexer no que estava
sepultado há dois mil annos, no bolôr e no bafio, nas paredes compactas
da Sé, nos santos immoveis nos seus nichos, na inutilidade e no habito.
E doira, doira, doira, doira o Telles e o Reles, doira a hipocrisia e o
medo, o egoismo e o interesse. E ao mesmo tempo que os transforma,
põe-nos frente a frente a uma coisa estranha que não admite
subterfugios--á realidade.
Desaparecendo a convenção e as palavras, que vae sahir d'aqui de
temeroso e de ridiculo? Transformado o mundo, com que olhos vamos vêr o
mundo? Tudo isto eram phrases e só existem instinctos? A honra era uma
phrase, o dever uma phrase e a vida um scenário? Cada sêr é capaz de
todas as perguntas e de todas as respostas. Escorre todas as tintas e
possue todas as côres, e só por habito adquirido há seculos é que
conseguimos olharmo-nos cara a cara, quanto mais alma a alma.
Há dialogos na obscuridade em que se empregam palavras que nunca se
usaram, e figuras que já não são as mesmas figuras. Todos nós somos
disformes.--Deixem-me! deixem-me!--Agora quando falam já não é para
dizer coisas convencionaes.--Estou á espera, tenho estado aqui á espera
toda a minha vida.--Á espera de quê?--Á espera deste hora suprema, á tua
espera...--Mas fala...--Não posso, só com gritos é que posso falar...--A
outra coisa temerosa sacode-os...--Tu ouves?--Não te quero ouvir. Se
consegues ficar comigo sós a sós, sinto que estou perdido. Tudo que me
deu tanto trabalho a construir, alue-se n'um unico minuto. Teimo em me
defender--teima em se fazer escutar...--Tu ouves? tu ouves?...--Mas tu
não existes... Ou tu não existes ou só tu existes no
mundo...--Estremecem até á base da vida, e, n'este cataclismo, ainda se
lhes pégam coisas vulgares e coisas inuteis--o que se faz e o que se não
faz, o que se usa e o que se não usa, as conveniencias e os habitos
rançosos. Há dialogos formidaveis na obscuridade. Há almas extacticas,
há-as reduzidas ao espanto.--Ouves?--tu ouves?--Não tenho a que me
apegue, mal ouso pôr os pés. Até agora sabia quem era, ou fingia
sabel-o, agora pergunto se sou a D. Leocadia, a D. Procopia e a D.
Penaricia? Só posso viver ligado a certas palavras, a certos factos, a
certas bases que julgava indestructiveis, e um nada destruiu tudo isto,
transformou de todo a vida. O sonho tem outra côr, e a nodoa de oiro
alastra, corroe, mistura-se a nodoas mais escuras e mais fundas,
penetra, dissolve, produz logo manchas corrosivas como ulceras.--Phrases
ainda elles as teem, mas o peor é que cada um sente com espanto que já
não subverte a verdade. Pergunto a mim mesmo se a deixo morrer, ou se a
deixo viver mais duzentos, mais trezentos, mais quatrocentos annos?
Agora que a sua vida só depende de mim, pergunto a mim mesmo se a deixo
viver--contra os meus interesses? Eram tremendas as questões de dinheiro
que a morte resolvia. Quem as resolve agora? Debatem-se em cada
consciencia problemas que só teem uma solução--a morte. Excusas de
desviar o olhar: só teem uma solução--a morte. E de mais fundo ascendem
outras vozes e falam cada vez com maior desespero.--Não desvies o olhar.
Tu ouves?...
Assim como esta clamam as vozes interiores, mais alto, sempre mais alto,
imperiosas, as vozes da multidão que constitue a tua alma. Isto coincide
com o grotesco dos homens de calva e ventre gorduroso, meios nus em
plena praça, sem se atreverem a vestir-se ou a largar de vez os trapos
convencionaes; isto coincide com uma primavera antecipada, em que as
arvores, sentindo talvez que vão ser a nossos olhos apenas coisas
utilitarias, se apressam a dar flôr, em que os céos nocturnos e sem
macula parecem ter gelado em azul com fundos d'oiro revolvido...
Alguns põem-se a caminho e marcham com olhos inquietos. Passa essa
sombra tragica, a mulher do Anacleto. Estes dois que foram sempre
pessoas consideradas, com assento na existencia, e que usam a cabeça
como quem usa um resplendôr, o Elias de Mello e o Melias de Mello,
sentem um baque que os amolga. Porquê? Elles teem tudo em dia, as
contas, os livros, os escrupulos. A praça considera-os, Deus
considera-os.--A nossa mãe morre...--E não tiram o lenço dos
olhos.--Veneram-na. Mas o respeito pelos paes só resiste emquanto os
paes respeitam o interesse dos filhos. Há decerto uma lei moral, mas há
sempre por traz uma bocca a prégar. Uivos, gritos, exasperos. É a
transformação do grotesco em ferocidade, é a camada de hipocrisia que
custa a romper. Imaginem isto: imaginem o lojista em debate com a vida
subterranea, o lojista deparando pela primeira vez com uma alma
esplendida, e a D. Adelia, de chinó postiço, fechada n'uma gaiola com a
verdade, e aos saltos uma á outra.
Foi grotesco, começou por ser grotesco. Mas escuta-te: é um mundo que lá
tens dentro, é uma multidão que se prepara para o assalto. Estava
adormecida, acordou. Mete medo. E prégam, açulam-se, avançam direitos
aos seus apetites, ao saque, á guerra, á luxuria. Continham-na arames
enferrujados, o medo da morte, o habito de crêr em Deus (sabendo bem que
Deus já não existia) phantasmas, cacos d'armadura que derruiram d'um dia
para o outro. Descobrir que não há Deus que alegria! Põe a gente á
vontade. Respira-se d'outra maneira. Descobrir que a morte não é
inevitavel endurece. O mundo muda d'aspecto. Agora é que eu contemplo a
vida--e me perco na vida. Começo a ter medo de mim mesmo e não me posso
olhar sem terror. Que é isto, este sonho, esta dôr, esta insignificancia
entre forças desabaladas? Onde hei-de pôr os pés? Eu sou a arvore e o
céo, faço parte do espanto, vivo e morro ligado a isto. Sou temeroso e
ridiculo. Não me desligo do turbilhão azul, sem nome, que me leva
arrastado, estonteado, iludido, e ao mesmo tempo discuto, nego e afirmo.
Sou ridiculo e construi o mundo. Sonho e acabo reduzido a pó. Sou capaz
de tudo e um nada me abate. Sou sordido e futil e não tenho limites--vou
de mundo a mundo e de espirito a espirito. Dei alma ás coisas inertes,
significação ao universo, vida ao que não existe, luz ás estrellas--e no
fim acabo grotesco. Sou nada entre o pelago e sem mim tudo se afunda no
pelago. O que olhava com indiferença mete-me agora medo. Não posso com o
mundo transformado, com outros sêres, e onde não me desligo d'uma força
cada vez maior e mais desabalada.
Preciso de olhar para mim, sou forçado a olhar para dentro de mim mesmo,
a encarar comigo mesmo, e ou desato a rir ou fujo transido de pavôr. Não
me posso comprehender no universo, não entendo esta luz insignificante
no negrume gelado, nem esta discussão interminavel no silencio absoluto,
nem este ridiculo, nem esta figura mesquinha que representa o mundo. Com
que destino rio ou choro entre o enxurro de oiro e os impulsos tremendos
que veem não sei d'onde e caminham desabaladamente para um fim que não
distingo? Tenho medo de mim mesmo! tenho medo de mim mesmo! Nunca o
acaso pariu nada tão monstruoso e tão grotesco como isto a que se chama
a vida. Tenho medo de mim mesmo! Cada vez me sinto mais abjecto e mais
transido--cada vez me sinto maior e mais capaz de tudo. Não me posso
olhar nos olhos, com medo de vêr o que nunca vi, em todo o seu horror e
em toda a sua nudez. Grito.
Gritos--gritos--gritos ainda sufocados. Ouço-os na noite imperturbavel,
na harmonia esplendida, na arvore e na pedra. Mais gritos no turbilhão
dos mundos, e atraz desse turbilhão outro maior--e mais gritos ainda. A
ternura sou eu que a presto ao absurdo e á dôr. O que fica na realidade
são gritos. A harmonia parece immensa porque as coisas não teem bocca
para prégar--ou não as sabemos ouvir. Tudo isto se reduz a dôr muda, a
dôr intoleravel n'um escantilhão de desespero--de desespero sem
significação--de desespero cada vez maior. E sempre outras boccas prégam
mais alto na noite que não tem limites, outras boccas que nem sequer
existem. Levanta-se a poeira tragica, a poeira que anda espalhada há
milhares de annos, a poeira dos mortos e a poeira dos vivos. Mais poeira
ainda, que vem dos confins, toda a poeira dispersa, que já foi ternura e
desgraça, poeira desaparecida que foi sonho, poeira inutil que foi dôr.
Os maiores dramas passam-se porém no silencio.