25 de dezembro

O peor é que se passa no silencio. É a outra coisa que acorda, é a outra

coisa desconhecida que começa a empurrar o tabique. Deitamos-lhe todos

as mãos para o segurar, mas, no escuro e no silencio, a pressão

redobra... Está outra coisa por traz do tabique, outra coisa que eu não

quiz vêr, e que o sacode com desespero. Bem sei, bem sei que existes!

Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim. Nunca te deixei discutir

comigo. Senti sempre que estava perdido se te deixasse abrir a bocca. Há

tragedias de que desviava o olhar, fingindo não as vêr. Agora hei-de

vel-as por força. Há misterios que não queria debater e agora se me

impõem. Há vozes que não queria escutar e que falam mais alto que a

minha voz. Há sêres que não queria conhecer e que discutem agora tu cá,

tu lá comigo. Tenho de os aceitar. Romperam pelos sepulchros

fóra--despedaçaram todas as tampas. E esta intrusão na vida modificou de

todo a vida.

Cada um vê doirado. Tem de pôr o problema alli na frente e de o

resolver. Tem de ir até ao mais profundo do inferno e até á vacuidade do

céo. Cada um tem de se olhar a si mesmo, nu e ridiculo, nu e esplendido.

Cada um vê por uma fresta a força desabalada, e põe-se a scismar como

Dante com a mão ferrada no queixo. Temos todos de resolver o problema.

Debalde amontoamos inutilidades ou palavras, ahi está na nossa frente o

mundo real, o mundo da verdade, o mundo sem subterfugios. Traz flôres

como uma primavera, traz enxurro. Arrastou-se pelas folhas apodrecidas e

pela lama. É doirado--é feroz. Tem todas as tintas e todas as côres, e

sobre isto phrenesi. É humilde, leva comsigo no mesmo impeto ternura,

dôr e desespero. Está dorido e vae tão fundo como a propria desgraça.

Impele-nos. É a vida e o sonho, é a tragedia--não existe. Não tem nome.

Chama-se a vida e a morte. É uma coisa absurda. Mete-me medo e

extasia-me.

As velhas já não dizem:--Jogo!--Houve uma coisa que se meteu de permeio.

Os passos aproximam-se e o esforço augmenta. Sinto-lhe o bafo

monstruoso, sinto-o mais perto de mim e encostado ao meu sêr.

As velhas ouviram passos apressados dentro das proprias almas, o sonho

veio á tona, e ficam absortas com as mãos agarradas aos queixos e as

boccas espremidas a remoer em secco...

O medo acabou, e o escrupulo, a hipocrisia da gente que vive á roda

d'uma ideia sem atrever a encaral-a.--É preciso matal-a!--São annos e

annos, são seculos de inveja paciente, que sobem á superficie: até as

figuras de pedra ressumam dôr e desespero. Agora metem-me medo. As

velhas somem-se, e ficam gritos, fica o espanto, ficam phantasmas.

O que se passa em cada casa, dentro de cada sêr, no fundo de cada poço?

Ouve-se as almas, como se fossem facas, afiarem no escuro. Estão

promptas. Bem sei, falam ainda enteramelado, não dizem o que sentem, mas

já caminham segundo o interesse, o odio e o sonho. As resmas de

papeladas são inuteis, a lei todos os dias se reduz a zero. A nodoa

alastra. E agora é que se vê bem o que cada um trazia dentro de si.

Nesta primavera há duas primaveras. Agora é que eu comprehendo que as

palavras que se pronunciavam eram rituaes, que os gestos, com seculos de

existencia, eram necessarios e significativos. As phrases rançosas das

velhas nos dias de enterro, as phrases banaes, eram as unicas capazes de

amortecer a dôr; este habito ridiculo de jogar o gamão um opio, como

esta historia que a Bacellar conta a si mesmo, com um ar idiota, um

principio de sonho. Tanto vale uma tragedia. É preciso fugir á

realidade. Comprehendo tudo. O que ellas odeiam no Gabiru é a sua

immensa capacidade de sonho; o que a villa escarnece é o que a villa

inveja. Bem se importa esta roda de velhas, em volta d'uma meza de jogo

e o candieiro ao centro, com a bisca lambida: durante algumas horas

esqueceram a mediocridade da vida--esqueceram tambem a morte. O chale

velho a que a D. Leocadia se achega todas as tardes mesmo no pino do

verão, pego n'elle e, quanto mais no fio, mais peso tem: está encharcado

de sonho...

Humus · 第 22 / 83 题