O peor é que se passa no silencio. É a outra coisa que acorda, é a outra
coisa desconhecida que começa a empurrar o tabique. Deitamos-lhe todos
as mãos para o segurar, mas, no escuro e no silencio, a pressão
redobra... Está outra coisa por traz do tabique, outra coisa que eu não
quiz vêr, e que o sacode com desespero. Bem sei, bem sei que existes!
Bem sei que estiveste sempre ao pé de mim. Nunca te deixei discutir
comigo. Senti sempre que estava perdido se te deixasse abrir a bocca. Há
tragedias de que desviava o olhar, fingindo não as vêr. Agora hei-de
vel-as por força. Há misterios que não queria debater e agora se me
impõem. Há vozes que não queria escutar e que falam mais alto que a
minha voz. Há sêres que não queria conhecer e que discutem agora tu cá,
tu lá comigo. Tenho de os aceitar. Romperam pelos sepulchros
fóra--despedaçaram todas as tampas. E esta intrusão na vida modificou de
todo a vida.
Cada um vê doirado. Tem de pôr o problema alli na frente e de o
resolver. Tem de ir até ao mais profundo do inferno e até á vacuidade do
céo. Cada um tem de se olhar a si mesmo, nu e ridiculo, nu e esplendido.
Cada um vê por uma fresta a força desabalada, e põe-se a scismar como
Dante com a mão ferrada no queixo. Temos todos de resolver o problema.
Debalde amontoamos inutilidades ou palavras, ahi está na nossa frente o
mundo real, o mundo da verdade, o mundo sem subterfugios. Traz flôres
como uma primavera, traz enxurro. Arrastou-se pelas folhas apodrecidas e
pela lama. É doirado--é feroz. Tem todas as tintas e todas as côres, e
sobre isto phrenesi. É humilde, leva comsigo no mesmo impeto ternura,
dôr e desespero. Está dorido e vae tão fundo como a propria desgraça.
Impele-nos. É a vida e o sonho, é a tragedia--não existe. Não tem nome.
Chama-se a vida e a morte. É uma coisa absurda. Mete-me medo e
extasia-me.
As velhas já não dizem:--Jogo!--Houve uma coisa que se meteu de permeio.
Os passos aproximam-se e o esforço augmenta. Sinto-lhe o bafo
monstruoso, sinto-o mais perto de mim e encostado ao meu sêr.
As velhas ouviram passos apressados dentro das proprias almas, o sonho
veio á tona, e ficam absortas com as mãos agarradas aos queixos e as
boccas espremidas a remoer em secco...
O medo acabou, e o escrupulo, a hipocrisia da gente que vive á roda
d'uma ideia sem atrever a encaral-a.--É preciso matal-a!--São annos e
annos, são seculos de inveja paciente, que sobem á superficie: até as
figuras de pedra ressumam dôr e desespero. Agora metem-me medo. As
velhas somem-se, e ficam gritos, fica o espanto, ficam phantasmas.
O que se passa em cada casa, dentro de cada sêr, no fundo de cada poço?
Ouve-se as almas, como se fossem facas, afiarem no escuro. Estão
promptas. Bem sei, falam ainda enteramelado, não dizem o que sentem, mas
já caminham segundo o interesse, o odio e o sonho. As resmas de
papeladas são inuteis, a lei todos os dias se reduz a zero. A nodoa
alastra. E agora é que se vê bem o que cada um trazia dentro de si.
Nesta primavera há duas primaveras. Agora é que eu comprehendo que as
palavras que se pronunciavam eram rituaes, que os gestos, com seculos de
existencia, eram necessarios e significativos. As phrases rançosas das
velhas nos dias de enterro, as phrases banaes, eram as unicas capazes de
amortecer a dôr; este habito ridiculo de jogar o gamão um opio, como
esta historia que a Bacellar conta a si mesmo, com um ar idiota, um
principio de sonho. Tanto vale uma tragedia. É preciso fugir á
realidade. Comprehendo tudo. O que ellas odeiam no Gabiru é a sua
immensa capacidade de sonho; o que a villa escarnece é o que a villa
inveja. Bem se importa esta roda de velhas, em volta d'uma meza de jogo
e o candieiro ao centro, com a bisca lambida: durante algumas horas
esqueceram a mediocridade da vida--esqueceram tambem a morte. O chale
velho a que a D. Leocadia se achega todas as tardes mesmo no pino do
verão, pego n'elle e, quanto mais no fio, mais peso tem: está encharcado
de sonho...