7 de dezembro

A villa é tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho

desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é d'elle: a

propria casa de granito revê sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrahe

sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru

não ouve, não vê, não sente. O sonho isolou-o da propria mulher transida

de frio, no casarão que deu á costa como uma nau do passado, com o

cavername roido pelo mar das trevas.

É um sêr quasi ethereo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se

sumiu n'um sôpro cada vez mais ephemera, com dois olhos verdes de

espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado, perdido, como uma

coisa inerte...

Morreu transida de frio. Uma mulher palida--o que vale um passaro.

Ternura e dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal pousa os pés no

chão, chora baixinho, e vae talvez acordal-o, queixar-se... Não se

atreve, e esboça um sorriso logo molhado de lagrimas. Morre de frio.

Agosto--morre de frio. Até para lhe sorrir se esconde, e põe-se então a

olhar o muro (vou-te dizer o sitio) a falar com o muro, a queixar-se á

grande nodoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de espanto, um

vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de ternura

tel-a-hia salvo--ninguem o arranca áquelle sonho informe. Morta...

Ninguem. Depois que a perdeu tresvariou. Estende fios no chão entre as

arvores, e as arvores, sob o fluido electrico, todo o inverno se

desentranham em flôr. Pegou-lhes sonho tambem. É um desbarato, uma

profusão que as devora. Absurdo. O quintalorio ao pé da muralha, que há

seculos revê humidade, não é maior que um lenço; a primavera só chega

aqui tarde e de mau modo, com pena das arvores de saguão. Arrepende-se

logo. Já veem que o absurdo é maior ainda... Dezembro e primavera. O céo

gelado, um brilho de estrellas em engastes novos, e, entre a carie das

paredes, as macieiras baixinhas e humildes como exhalações de ternura.

Mortas. Mortas, seccas de sonho. Mortas as arvores desfeitas em flôr.

--Este efluvio é que é tudo: a torrente de ideias e a torrente de

paixões. A minha athmosphera, a alma, penetra a tua athmosphera, e

dissolve-a, domina-a, conquista-a. Recua, tacteia, hesita. Mas escusas

de falar para que eu te entenda. A materia muitas vezes não me deixa

comprehender, mas é raro que eu não saiba logo quem tu és, e, mesmo que

seja a primeira vez que te fale, as vezes que te tenho encontrado no

mundo.--E logo:--A vida perdi-a a sonhar. Depois de morta é que dei com

ella. Mas que importa! Acabei com a morte, vou resuscital-a. Viveremos

sempre, amar-nos-hemos sempre...

A noite é d'aparato. A lua de coral sobe por traz da montanha em osso, e

depois na chanfradura das ameias. Mais flôres--todos os galhos dão flôr.

Sente-se, quasi se ouve, a dôr das arvores, dos sêres vegetativos, ao

terem de apressar, de modificar a sua vida lenta, dispersos em ternura.

--Perdi-a, perdi a vida! Esqueci-a como esqueci tudo. Perdi-a e mais

dois dias e tinha suprimido a morte!

Sob o fluido electrico o quintal tresnoita. Cae neve e abrem os

primeiros botões. A arvore transforma-se n'um sêr dorido e

esplendido--transforma-se em sonho--em sonho desfeito em flôr, em flores

espezinhadas uma atraz das outras por camadas sucessivas. Os ramos

espremidos escorrem dôr. Até as pedras deitam tinta. O quintal escorre

sonho como a alma do Gabiru. Atrevem-se e acordam as coisas apodrecidas,

e velhas pedras iludidas põem-se a cantar n'esse pio triste dos sapos,

que sae da fealdade como uma inutil queixa de desventura. A noite

concava e branca--gelada--cobre indiferentemente tudo isto. Que não

cobre a noite? Quatro paredes negras, no fundo remexe o sonho. Perco

tambem a noção da realidade.

--Tanta flôr!

--Para a sua cóva.--E pondo em mim os olhos atonitos:--O que é preciso é

ir buscal-os ao fundo da mixordia, arrancal-os á obscuridade, juntar

outra vez as boccas dispersas. Não morrer é nada: vou resuscital-os...

Imagina o negrume d'um poço--imagina dentro o espanto, e não sei que luz

viva, não sei que dôr recalcada, não sei que de humilde, que quer viver

apesar de dorido. Vivo, e a pata enorme que espezinha e esmigalha.

Escuridão e oiro--silencio e oiro--espanto e oiro.

--Vê tu a arvore... Uma camada de flôr--um grito; outra camada de

flôr--outro grito. Vê tu a arvore como se transforma n'um phantasma

d'arvore, e depois em emoção!...

Suprimir a morte! É uma coisa grotesca. O sonho transborda, o luar

transborda--branco e dôr--branco e sonho. Depois o silencio, depois a

sua voz magnetica--depois a sombra immensa que ameaça desabar sobre nós,

no quintal do tamanho d'um lenço. Desato aos gritos quando todas as

roseiras, fartas de dar rosas, seccam, quando da cathedral e do silencio

caem uma, duas, tres badaladas, que me apertam uma, duas, tres vezes o

coração. E o Gabiru com olhos de phrenesi insiste:

--Não morrer é nada, suprimi a morte. O que é preciso é arrancar os

outros ao silencio. É uma coisa simples, é uma questão de synthese.

--A morte,--afirmo-lh'o--é o repouso eterno.

--Repouso eterno, estupido! É exactamente o que está vivo, a morte. É o

que está mais vivo.

Humus · 第 17 / 83 题