Na escuridade e no silencio o sonho deita braços desconformes.
Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avança para mim como uma
exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a
inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da
villa quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma... Isto é
possivel ou isto não passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho
grotesco?
De que é feita a tibornea, o liquido viscoso, côr de sabão, com
filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, atravez
da luz--a maior descoberta do seculo, o sôro que acaba de vez com a
velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium,
o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone--e sonho. Dezasete elementos,
entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico--e dôr. Materia,
espirito e concentração. O misterio é este e mais nenhum: é exprimir
como o que é espirito se transforma em materia, como a poeira se
condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o
quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto
em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa?
Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e
os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das
vozes submersas, a discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas
boccas que falam, a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade,
d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. Não te
rias. Já t'o disse: é um sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se
agitam n'um desespero para voar. Não se contenta com esta vida nem dá
por ella, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é
possivel tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe em mim os
olhos turvos e teima, insiste, repete:
--Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera cinzenta, composta de
todas as athmospheras: é a alma da villa.--E afirma cheio de
convicção:--Deito-lhe sonho dentro.
Queira ou não queira faz-me scismar... Na realidade morrer é absurdo.
Nunca me capacitei a serio que tivesse de morrer. Morrer é estupido. Não
comprehendo a morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a
essa hora extrema, só essa hora me interessa... Um sêr grotesco, um
unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos. É caricato e pega-me
doirado.
E o peor é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguem o
confessa senão a si proprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a gente
se esquece a vida tem já passado. E quando a vida tem já passado é que
nos agarramos com mais saudades á vida. A resignação custa muitas horas
doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte... A morte é
inevitavel?--pergunto baixinho. E como a morte é inevitavel, como não
lhe posso fugir, para não perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem
sabe se este sonho que a humanidade traz comsigo desde que pôz o pé no
mundo não é o maior de todos os sonhos e o unico problema fundamental?
A verdade é que teima. Não nos larga na vida e levamol-o escondido para
a cóva. A verdade é que foi esta sempre a nossa maior aspiração, que
há-de acabar talvez por se converter em realidade. Temos construido o
universo assim, podemos construil-o de outro modo. Falta só um passo...
A vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que nós queremos é este sol,
esta pobreza, esta dôr, estas ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a
vida que acceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro primario. Protestas
do fundo do teu sêr: a morte é absurda. É preciso cortar um nó que não
existe. E passar do imperio do possivel para o imperio do impossivel é
talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos os
instantes. Acordo e grito:--Eu não vivi! eu não vivi!--E cada vez o meu
protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida
e inutil, quero recomeçar a desgraça.
Ninguem pode com semelhante peso. Não há quem possa com elle. Na
solidão, a primeira coisa que procuro é a ninharia para esquecer a
morte. Um minuto sós a sós com o espanto, recamado de mundos, que
caminha desabaladamente no silencio, dura um seculo e outro seculo
ainda. Não posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma espada e olhar
para a voragem d'um e d'outro lado; não posso arcar todos os dias com
esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia. E agora até a
insignificancia me é impossivel. O silencio... O peor de tudo é o
silencio e o que se cria no silencio, o que eu sinto que remexe no
silencio...
Carrega em cima de nós tal peso que ninguem o suportava se désse por
elle. É o peso do espanto.
Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume que levanta os côtos
esfarrapados, como se fosse voar, quando o padre Thimotheo dá o seu
passeio habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia de metros
quadrados com arvores ethicas do jardim, as Souzas arrastam os vestidos,
ultima moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa de humidade a que
ella costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela voz de
desespero cada vez mais phrenetica, que não cessa de prégar, e que me
põe em frente de mim mesmo, que é o que mais temo no mundo.
--O que eu quero, é tornar a viver. A minha saudade é esta. O que eu
quero é recomeçar a vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas. Não
reparei que vivia e agora é tarde. Sinto-me grotesco. Recomeçal-a nas
tardes estonteadas da primavera e na alegria do instincto. Encontrei há
pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de pé, e um unico ramo ainda
verde desentranhou-se em flôr... Podesse eu recomeçar a
vida!--Cala-te!--Terei de confessar a mim proprio que nunca amei, que
nunca fui arrastado até ao amago pelo desespero ou pela paixão e que de
tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida a
mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a
cóva com a bocca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a
fél--antes a dôr!...--Mas sonhaste, estupido!--Sonho. E o que me resta
nas mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos
de velho, senão grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com
alguma tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver com o instincto,
como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as féras, sem pensar, sem
sonhar, sem palavras nem leis, até cahir a um canto, morto e feliz, de
barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...--Quantas conversas temos tido
juntos! quantas discussões inuteis! quantos desesperos de que não há
sahir, batendo com a cabeça na mesma parede! Ás vezes
subjugo-o:--Cala-te! cala-te!--Ás vezes fala elle mais alto e domina-me.
Rio-me de ti e impões-te-me. És ridiculo e só tu te atreves; só tu és
feliz porque te atreves a dizer inconveniencias sem fé nem lei. Só tu
não tens methodo, só tu te fechas a sete chaves á tua vontade, livre,
feliz e despresado. No fundo invejo-te.
Aquilo incha, trasborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e
molha-me. Aturde-me. É só elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado
e mais alto, com interjeições e gestos desordenados pelo
meio:--Estupido!--Hei-de falar! quero falar! hei-de por força falar!--E
há aqui dôr e ridiculo. Há um esgrouviado a dizer vulgaridades, e uma
coisa que vem da raiz da vida n'um fremito e que me mete medo. Um bafo,
e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a prégar sem tom nem
som.--Toda a gente se ri de ti...--Deixal-o.--Toda a gente se ri! toda a
gente se ri!--Quero por força tornar a viver! hei-de por força tornar a
viver! Sinto que a minha vida não termina aqui. Este sonho hei-de
leval-o a cabo.
Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:
--Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno não é uma palavra
vã. É um desespero sem consciencia nem gritos. A vida não é senão uma
tregua--um ah--e logo um mergulho n'esse inferno de dôr. Na dôr estreme.
Eis o que é a morte: a dôr estreme, a dôr emudecida. O terror
instinctivo da morte é uma advertencia. Não quero morrer e vou
resuscital-os!... Viver sempre! amar sempre! sonhar sempre!--que
esplendido sonho! A vida é quasi nada. Tudo que custou tanto desespero,
tudo sumido n'um buraco para sempre. Ouves? Para todo o sempre. De que
serviram os gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tôpo do
calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo a que me apego é
impalpavel: é a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma
expressão de ternura, e que nunca mais tornarás a encontrar; é aquella
manhã de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e
que se não repete, é o minuto que nos escorre das mãos como um fio
d'agua, mas doira-o o sol, e é esse mesmo minuto translucido que quero
tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa mesma
ninharia que é a vida a que deito as mãos com desespero. A vida é
nada--é esta côr, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É
tudo. É os meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, até da
fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as
horas inuteis, o possivel e o impossivel. A floresta não faz parte do
meu sêr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida
da floresta; o céo não faz parte do meu sêr, e eu sou o céo profundo, o
céo tragico e o céo esplendido. Dá-me a vida--dou-te tudo em troca...
Agarro-me como um naufrago, agarro-me com uma saudade, que vem não só de
mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para
todo o sempre!--E, com um suspiro mais fundo, repete:--Suprimi a morte,
vou resuscital-os!
Trago comigo um pó capaz de doirar a propria eternidade. Não sei d'onde
me vem, nem porque nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco deante
do negrume--elle reanima-me. Insiste deante das forças desabaladas e da
imagem da morte. Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria e
cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe horror.
Se com o nosso esforço colectivo forjamos o mundo, porque deixamos a
morte de pé? Criei o universo. Destaquei da massa confusa o
tempo--destaquei o sonho.
Fui eu que dei valôres e perspectiva ao quadro. Fui eu que lhe entornei
ilusão. Na verdade só existem côres como só existem gritos. Porque não
hei-de acabal-o? É talvez uma questão de vontade. Se até para dar o
primeiro passo precisamos de crêr, porque não havemos de dar o ultimo
passo? Ilusão, mentira? Mas eu é que faço a verdade e a mentira.
Dou-lhes o meu bafo. Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade pode
não existir. Com uma mentira posso forjar outro mundo. Arredemos de vêz
este suor frio.
A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos. Ainda vivo, já estou em
seu poder: faço parte da legião. Noite immensa sem gritos. Peor que
sofrer é não sofrer--para sempre. É nunca mais sentir. É ter as orbitas
vazias voltadas para o céo e n'ellas não se reflectir a luz das
estrellas. Mais um passo e é o silencio absoluto. Mais um passo e
tapas-me para sempre a bocca.
Não me importa ser feliz--não me importa ser desgraçado. O que me
importa é o que há depois, é o que está por baixo da terra e o que está
por cima da terra.
Já não lucto. E elle insiste e cada vez préga mais alto:
--Eu não vivi. Que importa, vaes morrer! Para sempre, para todo o
sempre, o mesmo buraco d'onde não sae rumôr. Escuta isto: d'onde não sae
rumôr. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicação te é licita,
nenhuma transacção é possivel. A morte não espera nem atende. É
estupida. Primeiro é estupida, depois é incomprehensivel. É tremenda
porque contem em si mistificação ou belleza. Absurdo ou uma belleza com
que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginação não
atinge. Se é o misterio, e se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se é o
nada repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrellas, e
outros vagalhões de estrellas... Para ella tanto vale um segundo como um
seculo, carrega um sêr inutil ou um sêr delicado com a mesma indiferença
para o tumulo. Tens passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste
na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde a
arredamos: a vida não é senão uma constante absorpção na morte. Então
para que nasci? Para vêr isto e nunca mais vêr isto? Para adivinhar um
sonho maior e nunca mais sonhar? Para presentir o misterio e não
desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia
e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do
sepulchro. Estou nas tuas mãos... Adeus sól que não te torno a vêr, e
agua que te não torno a vêr. Arvores, adeus arvores que minha mãe
dispôz; adeus pedra gasta pelos seus passos e que meus passos ajudaram a
gastar. Para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te.
Interrompes os meus calculos. És o maior dos absurdos. Vêr para não vêr,
ouvir para não ouvir, viver para morrer!...
E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como á
cobra a pelle, a vida comesinha. Se é a vida superior é tambem o meu
lume. É o ruido monotono da chuva nas vidraças. Além da alma há outra
alma que se apega ás pequenas coisas, á columna d'oiro perfumada que me
entra de manhã pela janella--outra alma humilde e pequenina, que se
acomoda com um fio d'agua, um cantinho de lume... É a alma da materia.
Não, o fim logico da vida não é morrer, é viver sempre, é ascender
sempre. Até onde? Até Deus. Vou resuscital-os! Vou resuscital-os! E em
elles se pondo a caminho vaes vêr doirado. A vida toma novo impulso.
Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vaes vêr a côr que toma
o mundo, as tintas que o mundo escorre, e as flôres que as arvores
criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...
A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco
na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atraz
de outra, a reflorir. Há sepulchros até ao fundo do globo. De mais longe
vem um impeto--são outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra
que se despega da obscuridade, com todas as lagrimas que se choraram no
mundo condensadas, vae desabar sobre nós. As suas palavras criam. O peor
foi tocar-lhe! Neste debate entra agora o mundo todo. Entram as arvores
e as pedras. Não há duvida para mim: quando sahir disto tenho renascido:
o mundo não é o mesmo mundo, o céo o mesmo céo, a vida a mesma vida. O
que existe é outra coisa doirada e immensa, esfarrapada e immensa.
Põe-se a caminho outro panorama, como se todo o infinito de repente se
aproximasse de nós, com os seus mundos, o seu misterio indecifrado.
Põe-se a caminho a immensa floresta apodrecida, outras arvores como
nunca vi arvores, e outros sêres desmedidos e phreneticos. Põe-se a
caminho uma vida que há muito sentia aqui ao lado, sem me atrevêr a
olhal-a. Tudo mudou de repente. Repara que o céo augmentou em
profundidade. O que existe são gritos, o que existe é o espanto. O peor
foi tocar-lhe...
Um remexer de treva, que até agora podémos recalcar, soltou-se da
escuridão e pôz-se a caminho. Já não há esforços que a contenham... Um
borrão tragico avança--outro borrão informe prepara-se. Os mortos
empurram os vivos--desde profundidades desconhecidas...
Passa no mundo a estranha ventania: é a morte que custa a separar da
vida. O rasto que fica atraz, a perspectiva que fica adiante foi
cortada. A morte está aqui d'um lado, está do outro a vida. Tinha raizes
enormes: arrancaram-lhas de vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilhão
colerico abala o mundo, oiro e negro, esplendido e feroz. Desenraiza
tudo. As almas acordam n'um sobresalto, e não há homem que se não ponha
á escuta. Passa no mundo a doida ventania das nossas aspirações
secretas, das nossas duvidas, dos nossos desesperos. É uma voz--são
muitas vozes. É um grito--são muitos gritos.--É o grito contido há
milhares d'annos, o grito dos mortos libertos.