10 de dezembro

Na escuridade e no silencio o sonho deita braços desconformes.

Pega-se-me. Debalde lucto contra o fluido que avança para mim como uma

exhalação de phrenesi e de nervos. A teia invisivel rodeia lentamente a

inutilidade, a teia dissolve as almas, e fios impalpaveis apoderam-se da

villa quieta e absurda onde só elle se atreve e scisma... Isto é

possivel ou isto não passa d'um sonho grotesco, de mais outro sonho

grotesco?

De que é feita a tibornea, o liquido viscoso, côr de sabão, com

filamentos verdes, que o Gabiru com olhos de sapo revê no vidro, atravez

da luz--a maior descoberta do seculo, o sôro que acaba de vez com a

velhice e arreda a morte para confins ilimitados? Alguns saes, o sodium,

o enxofre, o magnesio, o bromio, o carbone--e sonho. Dezasete elementos,

entre os quaes a prata, o cobre, o oiro, o arsenico--e dôr. Materia,

espirito e concentração. O misterio é este e mais nenhum: é exprimir

como o que é espirito se transforma em materia, como a poeira se

condensa, como a alma se faz corpo. Gritos, mais desespero. Contar o

quê? As noites infinitas, as mãos que tentam arrancar farrapos ao manto

em que o misterio se envolve e procuram retel-o quando elle se dissipa?

Outra vez absorpção, outra vez o rebuscar em ti mesmo o inexplicavel, e

os nervos que tendem e quebram o cerebro que doe, o lento acordar das

vozes submersas, a discussão, o tumulto, e poder distinguir entre tantas

boccas que falam, a unica que tem direito a falar. É d'esta obscuridade,

d'esta discordancia, que emerge a ideia de suprimir a morte. Não te

rias. Já t'o disse: é um sêr aparte com côtos em vez d'azas, que se

agitam n'um desespero para voar. Não se contenta com esta vida nem dá

por ella, mas fica sempre a meio caminho, e tão dorido que não é

possivel tocar-lhe. Já t'o disse: é um sêr grotesco que põe em mim os

olhos turvos e teima, insiste, repete:

--Sobre a villa, repara, paira uma athmosphera cinzenta, composta de

todas as athmospheras: é a alma da villa.--E afirma cheio de

convicção:--Deito-lhe sonho dentro.

Queira ou não queira faz-me scismar... Na realidade morrer é absurdo.

Nunca me capacitei a serio que tivesse de morrer. Morrer é estupido. Não

comprehendo a morte, e, por mais que desvie o olhar, prendo-me sempre a

essa hora extrema, só essa hora me interessa... Um sêr grotesco, um

unguento verde, e aquella voz aos meus ouvidos. É caricato e pega-me

doirado.

E o peor é que este sonho é afinal o meu sonho e o teu sonho. Ninguem o

confessa senão a si proprio. O nosso sonho é não morrer. Quando a gente

se esquece a vida tem já passado. E quando a vida tem já passado é que

nos agarramos com mais saudades á vida. A resignação custa muitas horas

doridas em que ficamos alheados e suspensos. A morte... A morte é

inevitavel?--pergunto baixinho. E como a morte é inevitavel, como não

lhe posso fugir, para não perder tudo, criei a outra vida. E afinal quem

sabe se este sonho que a humanidade traz comsigo desde que pôz o pé no

mundo não é o maior de todos os sonhos e o unico problema fundamental?

A verdade é que teima. Não nos larga na vida e levamol-o escondido para

a cóva. A verdade é que foi esta sempre a nossa maior aspiração, que

há-de acabar talvez por se converter em realidade. Temos construido o

universo assim, podemos construil-o de outro modo. Falta só um passo...

A vida eterna admitimol-a, mas, no fundo, o que nós queremos é este sol,

esta pobreza, esta dôr, estas ilusões moídas e remoídas. Deixem-nos a

vida que acceitamos tudo. Aqui há, portanto, um erro primario. Protestas

do fundo do teu sêr: a morte é absurda. É preciso cortar um nó que não

existe. E passar do imperio do possivel para o imperio do impossivel é

talvez uma questão de vontade. A vida é um acto de fé de todos os

instantes. Acordo e grito:--Eu não vivi! eu não vivi!--E cada vez o meu

protesto ascende mais alto. Quero tornar a viver a mesma vida aborrecida

e inutil, quero recomeçar a desgraça.

Ninguem pode com semelhante peso. Não há quem possa com elle. Na

solidão, a primeira coisa que procuro é a ninharia para esquecer a

morte. Um minuto sós a sós com o espanto, recamado de mundos, que

caminha desabaladamente no silencio, dura um seculo e outro seculo

ainda. Não posso, nem tu nem eu, viver sobre o fio d'uma espada e olhar

para a voragem d'um e d'outro lado; não posso arcar todos os dias com

esta usura que me gasta sem mergulhar na insignificancia. E agora até a

insignificancia me é impossivel. O silencio... O peor de tudo é o

silencio e o que se cria no silencio, o que eu sinto que remexe no

silencio...

Carrega em cima de nós tal peso que ninguem o suportava se désse por

elle. É o peso do espanto.

Juntem a isto a villa comesinha, e o negrume que levanta os côtos

esfarrapados, como se fosse voar, quando o padre Thimotheo dá o seu

passeio habitual no pateo da Misericordia, e, na meia duzia de metros

quadrados com arvores ethicas do jardim, as Souzas arrastam os vestidos,

ultima moda do Grandella. Juntem a isto a grande nodoa de humidade a que

ella costumava queixar-se. Juntem a isto a Morte e aquela voz de

desespero cada vez mais phrenetica, que não cessa de prégar, e que me

põe em frente de mim mesmo, que é o que mais temo no mundo.

--O que eu quero, é tornar a viver. A minha saudade é esta. O que eu

quero é recomeçar a vida gota a gota, até nas mais pequenas coisas. Não

reparei que vivia e agora é tarde. Sinto-me grotesco. Recomeçal-a nas

tardes estonteadas da primavera e na alegria do instincto. Encontrei há

pouco uma arvore carcomida: deixaram-na de pé, e um unico ramo ainda

verde desentranhou-se em flôr... Podesse eu recomeçar a

vida!--Cala-te!--Terei de confessar a mim proprio que nunca amei, que

nunca fui arrastado até ao amago pelo desespero ou pela paixão e que de

tal forma se me entranharam as palavras e as regras, que passei a vida a

mascar palavras e regras? Terei de confessar a mim mesmo que vou para a

cóva com a bocca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a

fél--antes a dôr!...--Mas sonhaste, estupido!--Sonho. E o que me resta

nas mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos

de velho, senão grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com

alguma tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver com o instincto,

como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as féras, sem pensar, sem

sonhar, sem palavras nem leis, até cahir a um canto, morto e feliz, de

barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...--Quantas conversas temos tido

juntos! quantas discussões inuteis! quantos desesperos de que não há

sahir, batendo com a cabeça na mesma parede! Ás vezes

subjugo-o:--Cala-te! cala-te!--Ás vezes fala elle mais alto e domina-me.

Rio-me de ti e impões-te-me. És ridiculo e só tu te atreves; só tu és

feliz porque te atreves a dizer inconveniencias sem fé nem lei. Só tu

não tens methodo, só tu te fechas a sete chaves á tua vontade, livre,

feliz e despresado. No fundo invejo-te.

Aquilo incha, trasborda, como um rio que alaga tudo. Pega-se-me e

molha-me. Aturde-me. É só elle que fala no mundo, cada vez mais obsecado

e mais alto, com interjeições e gestos desordenados pelo

meio:--Estupido!--Hei-de falar! quero falar! hei-de por força falar!--E

há aqui dôr e ridiculo. Há um esgrouviado a dizer vulgaridades, e uma

coisa que vem da raiz da vida n'um fremito e que me mete medo. Um bafo,

e logo mil vozes que aproveitam o momento e desatam a prégar sem tom nem

som.--Toda a gente se ri de ti...--Deixal-o.--Toda a gente se ri! toda a

gente se ri!--Quero por força tornar a viver! hei-de por força tornar a

viver! Sinto que a minha vida não termina aqui. Este sonho hei-de

leval-o a cabo.

Debalde lhe aconselho calma, o Gabiru insiste:

--Entrevejo na morte um sofrimento atroz. O inferno não é uma palavra

vã. É um desespero sem consciencia nem gritos. A vida não é senão uma

tregua--um ah--e logo um mergulho n'esse inferno de dôr. Na dôr estreme.

Eis o que é a morte: a dôr estreme, a dôr emudecida. O terror

instinctivo da morte é uma advertencia. Não quero morrer e vou

resuscital-os!... Viver sempre! amar sempre! sonhar sempre!--que

esplendido sonho! A vida é quasi nada. Tudo que custou tanto desespero,

tudo sumido n'um buraco para sempre. Ouves? Para todo o sempre. De que

serviram os gritos, as lagrimas, subir, trepar, chegar ao tôpo do

calvario? Para todo o sempre! Bem sei: aquillo a que me apego é

impalpavel: é a mulher que passou, assomando-lhe ao focinho uma

expressão de ternura, e que nunca mais tornarás a encontrar; é aquella

manhã de chuva em que nos molhamos juntos (e ainda me sinto molhado) e

que se não repete, é o minuto que nos escorre das mãos como um fio

d'agua, mas doira-o o sol, e é esse mesmo minuto translucido que quero

tornar a viver, sem a sombra da morte a meu lado. É a essa mesma

ninharia que é a vida a que deito as mãos com desespero. A vida é

nada--é esta côr, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É

tudo. É os meus mortos e os meus vivos. Levo pena de tudo, até da

fealdade. Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as

horas inuteis, o possivel e o impossivel. A floresta não faz parte do

meu sêr, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida

da floresta; o céo não faz parte do meu sêr, e eu sou o céo profundo, o

céo tragico e o céo esplendido. Dá-me a vida--dou-te tudo em troca...

Agarro-me como um naufrago, agarro-me com uma saudade, que vem não só de

mim, mas de muito mais longe, da base mesmo da vida. Para sempre! para

todo o sempre!--E, com um suspiro mais fundo, repete:--Suprimi a morte,

vou resuscital-os!

Trago comigo um pó capaz de doirar a propria eternidade. Não sei d'onde

me vem, nem porque nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco deante

do negrume--elle reanima-me. Insiste deante das forças desabaladas e da

imagem da morte. Quero a vida! quero-a! quero-a vulgar, tumultuaria e

cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe horror.

Se com o nosso esforço colectivo forjamos o mundo, porque deixamos a

morte de pé? Criei o universo. Destaquei da massa confusa o

tempo--destaquei o sonho.

Fui eu que dei valôres e perspectiva ao quadro. Fui eu que lhe entornei

ilusão. Na verdade só existem côres como só existem gritos. Porque não

hei-de acabal-o? É talvez uma questão de vontade. Se até para dar o

primeiro passo precisamos de crêr, porque não havemos de dar o ultimo

passo? Ilusão, mentira? Mas eu é que faço a verdade e a mentira.

Dou-lhes o meu bafo. Deus cria-me a mim, eu crio Deus. Uma verdade pode

não existir. Com uma mentira posso forjar outro mundo. Arredemos de vêz

este suor frio.

A noite vem, a noite avança. Sinto os mortos. Ainda vivo, já estou em

seu poder: faço parte da legião. Noite immensa sem gritos. Peor que

sofrer é não sofrer--para sempre. É nunca mais sentir. É ter as orbitas

vazias voltadas para o céo e n'ellas não se reflectir a luz das

estrellas. Mais um passo e é o silencio absoluto. Mais um passo e

tapas-me para sempre a bocca.

Não me importa ser feliz--não me importa ser desgraçado. O que me

importa é o que há depois, é o que está por baixo da terra e o que está

por cima da terra.

Já não lucto. E elle insiste e cada vez préga mais alto:

--Eu não vivi. Que importa, vaes morrer! Para sempre, para todo o

sempre, o mesmo buraco d'onde não sae rumôr. Escuta isto: d'onde não sae

rumôr. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicação te é licita,

nenhuma transacção é possivel. A morte não espera nem atende. É

estupida. Primeiro é estupida, depois é incomprehensivel. É tremenda

porque contem em si mistificação ou belleza. Absurdo ou uma belleza com

que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginação não

atinge. Se é o misterio, e se desvenda d'um golpe, apavora-me. Se é o

nada repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrellas, e

outros vagalhões de estrellas... Para ella tanto vale um segundo como um

seculo, carrega um sêr inutil ou um sêr delicado com a mesma indiferença

para o tumulo. Tens passado a vida a esperal-a. Que outra coisa fizeste

na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde a

arredamos: a vida não é senão uma constante absorpção na morte. Então

para que nasci? Para vêr isto e nunca mais vêr isto? Para adivinhar um

sonho maior e nunca mais sonhar? Para presentir o misterio e não

desvendar o misterio? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia

e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do

sepulchro. Estou nas tuas mãos... Adeus sól que não te torno a vêr, e

agua que te não torno a vêr. Arvores, adeus arvores que minha mãe

dispôz; adeus pedra gasta pelos seus passos e que meus passos ajudaram a

gastar. Para sempre! para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te.

Interrompes os meus calculos. És o maior dos absurdos. Vêr para não vêr,

ouvir para não ouvir, viver para morrer!...

E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como á

cobra a pelle, a vida comesinha. Se é a vida superior é tambem o meu

lume. É o ruido monotono da chuva nas vidraças. Além da alma há outra

alma que se apega ás pequenas coisas, á columna d'oiro perfumada que me

entra de manhã pela janella--outra alma humilde e pequenina, que se

acomoda com um fio d'agua, um cantinho de lume... É a alma da materia.

Não, o fim logico da vida não é morrer, é viver sempre, é ascender

sempre. Até onde? Até Deus. Vou resuscital-os! Vou resuscital-os! E em

elles se pondo a caminho vaes vêr doirado. A vida toma novo impulso.

Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vaes vêr a côr que toma

o mundo, as tintas que o mundo escorre, e as flôres que as arvores

criam... Vou resuscital-os! Vou resuscital-os!...

A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco

na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atraz

de outra, a reflorir. Há sepulchros até ao fundo do globo. De mais longe

vem um impeto--são outros mortos ainda. Uma sombra desmedida, uma sombra

que se despega da obscuridade, com todas as lagrimas que se choraram no

mundo condensadas, vae desabar sobre nós. As suas palavras criam. O peor

foi tocar-lhe! Neste debate entra agora o mundo todo. Entram as arvores

e as pedras. Não há duvida para mim: quando sahir disto tenho renascido:

o mundo não é o mesmo mundo, o céo o mesmo céo, a vida a mesma vida. O

que existe é outra coisa doirada e immensa, esfarrapada e immensa.

Põe-se a caminho outro panorama, como se todo o infinito de repente se

aproximasse de nós, com os seus mundos, o seu misterio indecifrado.

Põe-se a caminho a immensa floresta apodrecida, outras arvores como

nunca vi arvores, e outros sêres desmedidos e phreneticos. Põe-se a

caminho uma vida que há muito sentia aqui ao lado, sem me atrevêr a

olhal-a. Tudo mudou de repente. Repara que o céo augmentou em

profundidade. O que existe são gritos, o que existe é o espanto. O peor

foi tocar-lhe...

Um remexer de treva, que até agora podémos recalcar, soltou-se da

escuridão e pôz-se a caminho. Já não há esforços que a contenham... Um

borrão tragico avança--outro borrão informe prepara-se. Os mortos

empurram os vivos--desde profundidades desconhecidas...

Passa no mundo a estranha ventania: é a morte que custa a separar da

vida. O rasto que fica atraz, a perspectiva que fica adiante foi

cortada. A morte está aqui d'um lado, está do outro a vida. Tinha raizes

enormes: arrancaram-lhas de vez. Agora atrevo-me a tudo. O turbilhão

colerico abala o mundo, oiro e negro, esplendido e feroz. Desenraiza

tudo. As almas acordam n'um sobresalto, e não há homem que se não ponha

á escuta. Passa no mundo a doida ventania das nossas aspirações

secretas, das nossas duvidas, dos nossos desesperos. É uma voz--são

muitas vozes. É um grito--são muitos gritos.--É o grito contido há

milhares d'annos, o grito dos mortos libertos.

Humus · 第 18 / 83 题