Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos
enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras,
fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se.
Adhere. Há dias em que não distingo estes sêres da minha propria alma;
há dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a
impassibilidade, dôr; há dias em que o céo e o inferno esperam e
desesperam. Presinto uma vida oculta, a questão é fazel-a vir á
supuração.
Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos seculos, e os
sêres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem não
viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A arvore
cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por
força de me habituar á aquiescencia e á regra? Crio cama e todos os dias
sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.
--É necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos.
É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos
magneticos de sapo. É uma parte do meu sêr que abomino, é a unica parte
do meu sêr que me interessa. Ás vezes deita-me tinta nos nervos. Fala
quando menos o espero. Chamo-o, não comparece. Se quero ser pratico,
gesticula dentro do casaco arripiado:--A alma! a alma!--Singular
philosopho! É capaz de desejar a morte para vêr o que há lá dentro; é
capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado da vida constroe
outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealisaveis,
transformam-se-lhe nas mãos em barro informe. Toda a gente se ri--já
sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em
embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho.
Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o
monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas.
Na arvore vê a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo.
Põe a mão e molha. Destinge sonho...
--A alma--diz elle--ao contrario do que tu supões, a alma é exterior:
envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos
homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma côr.
Há sêres cuja alma é uma continua exhalação: arrastam-na como um cometa
ao oiro esparralhado da cauda--immensa, dorida, phrenetica. Há-os cuja
alma é d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi
tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam,
mesmo antes da materia comunicar. O amor não é senão a impregnação
d'esses fluidos, formando uma só alma, como o odio é a repulsão d'essa
nevoa sensivel. Assim é que o homem faz parte da estrella e a estrella
de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma é interior, pequenina emoção,
pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada
primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas
lagrimas, vem á tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes,
na pedra concentrada e recalcada, que dôr inconsciente, que esforço cego
e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do
universo! A pedra espera ainda dar flôr.
Para elle estas coisas ethereas são visiveis. Vê tão exactamente como eu
te vejo a ti a paixão, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados
d'oiro, de piedade e de genio. Há noites em que não resisto: fecho-me
com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós
préga e nos deixa aturdidos. Ás vezes consigo afastal-o, mas succede que
fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais
desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé
de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre é elle
quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e
quando rio como toda a gente ri, só a elle o ouço no mundo. Diz-me
coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe
de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um cão
vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as
florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz.
Vem feliz! É elle que me préga:--Toda a agitação é inutil. Não tenhas
medo da desgraça!--E eu tenho medo da desgraça. Á força de habito
cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto
mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou
a vida toda.
Mora n'um velho pardieiro encostado á muralha, abafado d'um lado pela
muralha da villa, que á noite redobra de porporções. O granito
enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra dá calafrios a quem
entra.
--Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada
sêr realiza uma primavera é que é tudo. O resto insignificancia. É ella
que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte...
D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o céo, do outro o
sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada.
Dentro d'isto sonho.
Ponho-me a olhar para elle--ponho-me a olhar para mim. Passou a vida
n'aquella inutilidade, de que sae a revêr sonho, e com os côtos partidos
a esvoaçar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do
laboratorio, á procura da pedra philosophal.--Ridiculo. Depois na
aplicação da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que
se desentranham em flôr, sem produzirem fructo.--Grotesco. Agora ninguem
o arranca a infindaveis monologos cahoticos:--A morte! a morte! a
morte!-- Incongruencia, obscuridade e dôr tambem; a dôr de quem vem da
irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate
com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho
titubia e não sabe onde põe os pés. Tem as azas partidas. Comprehende
então a sua inutilidade e desespera-se até reentrar na nuvem que o
envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos
que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouço a sua voz
magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco:
--Isto é um fluido dôr, falta-me condensal-o. É uma nuvem que envolve
tudo, que vem do turbilhão da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e
ascende em espiral até Deus. Não, a sensibilidade não é individual, é
universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos até á
Via Lactea, para transformar as noções do tempo, do espaço, da vida e da
morte--basta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir
toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...