6 de dezembro

Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos

enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras,

fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se.

Adhere. Há dias em que não distingo estes sêres da minha propria alma;

há dias em que atravez das mascaras vejo outras phisionomias, e, sob a

impassibilidade, dôr; há dias em que o céo e o inferno esperam e

desesperam. Presinto uma vida oculta, a questão é fazel-a vir á

supuração.

Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos seculos, e os

sêres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me tambem não

viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A arvore

cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por

força de me habituar á aquiescencia e á regra? Crio cama e todos os dias

sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.

--É necessario abalar os tumulos e desenterrar os mortos.

É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos

magneticos de sapo. É uma parte do meu sêr que abomino, é a unica parte

do meu sêr que me interessa. Ás vezes deita-me tinta nos nervos. Fala

quando menos o espero. Chamo-o, não comparece. Se quero ser pratico,

gesticula dentro do casaco arripiado:--A alma! a alma!--Singular

philosopho! É capaz de desejar a morte para vêr o que há lá dentro; é

capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado da vida constroe

outra vida. Sonha, e os seus sonhos são sempre irrealisaveis,

transformam-se-lhe nas mãos em barro informe. Toda a gente se ri--já

sonha outra vez... Para elle a vida consiste, encolhido e transido, em

embeber-se em sonho, em desfazer-se em sonho, em atascar-se em sonho.

Mezes inteiros ninguem lhe arranca palavra, dias inteiros ouço-o

monologar no fundo de mim proprio. Ignora todas as realidades praticas.

Na arvore vê a alma da arvore, na pedra a alma da pedra. Deforma tudo.

Põe a mão e molha. Destinge sonho...

--A alma--diz elle--ao contrario do que tu supões, a alma é exterior:

envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a materia. Em certos

homens a alma chega a ser visivel, a athmosphera que os rodeia toma côr.

Há sêres cuja alma é uma continua exhalação: arrastam-na como um cometa

ao oiro esparralhado da cauda--immensa, dorida, phrenetica. Há-os cuja

alma é d'uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. D'ahi

tambem simpathias e antipathias subitas quando duas almas se tocam,

mesmo antes da materia comunicar. O amor não é senão a impregnação

d'esses fluidos, formando uma só alma, como o odio é a repulsão d'essa

nevoa sensivel. Assim é que o homem faz parte da estrella e a estrella

de Deus. Nos vegetaes, nas arvores, a alma é interior, pequenina emoção,

pequenina alma ingenua e humilde, que se exteriorisa em ternura a cada

primavera: tocada pelo grande fluido esparso, onde andam as nossas

lagrimas, vem á tona em oiro e verde, em deslumbramento. Nos mineraes,

na pedra concentrada e recalcada, que dôr inconsciente, que esforço cego

e mudo por não poder abalar as paredes e comunicar com a alma do

universo! A pedra espera ainda dar flôr.

Para elle estas coisas ethereas são visiveis. Vê tão exactamente como eu

te vejo a ti a paixão, o odio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados

d'oiro, de piedade e de genio. Há noites em que não resisto: fecho-me

com elle a sete chaves. Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós

préga e nos deixa aturdidos. Ás vezes consigo afastal-o, mas succede que

fico sempre com pena: se o ouvisse talvez fosse mais feliz e mais

desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé

de mim. Deita-me a perder se me apanha desprevenido. Quasi sempre é elle

quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e

quando rio como toda a gente ri, só a elle o ouço no mundo. Diz-me

coisas que nunca ouvi, isola-me n'um valle apertado e scismatico, longe

de toda a terra, arrasta-me, ou desespera-me. Desaparece como um cão

vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as

florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exhausto, mudo e feliz.

Vem feliz! É elle que me préga:--Toda a agitação é inutil. Não tenhas

medo da desgraça!--E eu tenho medo da desgraça. Á força de habito

cheguei a mantel-o no seu logar, mas nunca o pude suprimir, e quanto

mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou

a vida toda.

Mora n'um velho pardieiro encostado á muralha, abafado d'um lado pela

muralha da villa, que á noite redobra de porporções. O granito

enegreceu, poliu-o a chuva, e a escadaria de pedra dá calafrios a quem

entra.

--Essa alma, essa alma disforme, que vae de mundo a mundo, e que em cada

sêr realiza uma primavera é que é tudo. O resto insignificancia. É ella

que nos devora e faz da morte a vida e da vida a morte...

D'um lado a muralha de dentes arreganhados para o céo, do outro o

sordido pardieiro, no alto a noite de luar como uma camelia gelada.

Dentro d'isto sonho.

Ponho-me a olhar para elle--ponho-me a olhar para mim. Passou a vida

n'aquella inutilidade, de que sae a revêr sonho, e com os côtos partidos

a esvoaçar na noite dorida. Primeiro afundou-se em experiencias do

laboratorio, á procura da pedra philosophal.--Ridiculo. Depois na

aplicação da electricidade aos vegetaes, que se consomem de febre, que

se desentranham em flôr, sem produzirem fructo.--Grotesco. Agora ninguem

o arranca a infindaveis monologos cahoticos:--A morte! a morte! a

morte!-- Incongruencia, obscuridade e dôr tambem; a dôr de quem vem da

irrealidade, encolhido e transido; a figura estranha de quem se debate

com o sonho e sae da lucta esfarrapado e doirado. Se o tiram do sonho

titubia e não sabe onde põe os pés. Tem as azas partidas. Comprehende

então a sua inutilidade e desespera-se até reentrar na nuvem que o

envolve. Puxa a si o misterio, e, entre as arvores e os fios eletricos

que correm todo o quintal e ligam todas as arvores, ouço a sua voz

magnetica, que impregna de sonho o luar todo branco:

--Isto é um fluido dôr, falta-me condensal-o. É uma nuvem que envolve

tudo, que vem do turbilhão da Via Lactea, arrasta tudo comsigo, e

ascende em espiral até Deus. Não, a sensibilidade não é individual, é

universal. Basta ferir a sensibilidade, que vae dos nossos nervos até á

Via Lactea, para transformar as noções do tempo, do espaço, da vida e da

morte--basta deitar dentro d'um tanque uma gota de vermelho para tingir

toda a agua. Deito-lhe sonho dentro...

Humus · 第 16 / 83 题