16 de novembro

Debaixo d'estes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura

reduzir a vida a uma insignificancia. Todo o trabalho insano é este:

reduzir a vida a uma insignificancia, edificar um muro feito de pequenas

coisas deante da vida. Tapal-a, escondel-a, esquecel-a. O sino toca a

finados, já ninguem ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma

cerimonia, em que a gente se veste de luto e deixa cartões de visita. Se

eu podesse restringia a vida a um tom neutro, a um só cheiro, o môfo, e

a villa a côr de mataborrão. Seres e coisas criam o mesmo bolôr, como

uma vegetação cryptogamica, nascida ao acaso n'um sitio humido. Teem o

seu rei, as suas paixões e um cheirinho suspeito. Desaparecem, resurgem

sem razão aparente d'um dia para o outro n'um palmo do universo que se

lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos saes, exhalam os mesmos

gazes, e supuram uma escorrencia phosphorecente, que corresponde talvez

a sentimentos, a vicios ou a discussões sobre a imortalidade da alma.

Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos

habitos. Construimos ao lado da vida outra vida que acabou por nos

dominar. Vamos até á cóva com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos.

Pesam toneladas, teem a espessura de montanhas. São as palavras que nos

conteem, são as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por

crear uma atmosfera que a arranque á vida e á morte. O sonho e a dôr

revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está

assolapada.

Remoem hoje, amanhã, sempre as mesmas palavras vulgares, para não

pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no céo, mas

quantos passaram no mundo sem ter olhado o céo na sua profunda, na sua

temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com elle. Nenhum de nós

repara no que está por traz de cada sylaba: afundamos as almas em

restos, em palavras, em cinza. Construimos scenarios e convencionamos

que a vida se passasse segundo certas regras. Isto é a consciencia--isto

é o infinito... Está tudo catalogado. Na realidade jogamos a bisca entre

a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existencia é

monotona, o tempo chega para tudo, o tempo dura seculos. Formam-se assim

lentamente crostas: dentro de cada sêr, como dentro das casas de granito

salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silencio, teias de

escuridão e de silencio. Na botica somnolenta ao pae succede o filho

sobre o taboleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber

que o habito é que me fez suportar a vida. Ás vezes acordo com este

grito:--A morte! a morte!--e debalde arredo o estupido aguilhão. Choro

sobre mim mesmo como sobre um sepulchro vazio. Oh como a vida peza, como

este unico minuto com a morte pela eternidade peza! Como a vida

esplendida é aborrecida e inutil! Não se passa nada! não se passa nada e

eu sinto aqui ao lado outra vida que me mete medo e que não quero vêr.

Essa vida talvez seja a minha verdadeira vida. Mas o peor é que eu

percebo que, se se apodera de mim, não posso mais viver. Agarro-me com

desespero ao habito e ás palavras. Tu não existes! tu não existes! O que

existe é isto com que lido todos os dias, as palavras que digo todos os

dias, os sêres com quem falo todos os dias.--E tu rodeias-me, tu

reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. Não te posso

vêr!...

Se há momentos em que o caixão que um galego leva ás costas me chama á

realidade, ao espanto, desvio logo o olhar e reentro á pressa na vida

comesinha. Finjo que sorrio e esqueço. Mas sempre não posso! Anno atraz

d'anno não posso! Não há mais nada! não há mais do que estas figuras

paradas, e as horas verdes que de espaço a espaço caem como gôtas d'agua

no fundo d'um subterraneo. Outro anno ainda! outro passo ainda para a

morte! Sinto uma dôr sem gritos por traz da immobilidade. Cada hora é

menos uma hora na minha vida. E o tempo foje, o tempo côr de mataborrão

que ao granito salitroso junta camada denegrida, e ás almas sepultadas

outra pazada de cinza... Há momentos em que as figuras teem tanta vida

como os santos imoveis nos seus nichos--mas há momentos em que cada um

redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada

por outra claridade. Há momentos em que cada um grita:--Eu não vivi! eu

não vivi!--Há momentos em que deparamos com outra figura maior que nos

mete medo. A vida é só isto? Por mais que queira não posso desfazer-me

de pequenas acções, de pequenos ridiculos, não posso desfazer-me de

imbecilidades nem d'este sêr esfarrapado que vae de pólo a pólo. Tenho

de aturar ao mesmo tempo esta idéa e este gesto ridiculo. Tenho de ser

grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando estou só o meu riso é

idiota. E estou só e a noite. Por traz daquella parede fica o céo

infinito. Para não morrer d'espanto, para poder com isto, para não ficar

só e o doido, é que inventei a insignificancia, as palavras, a honra e o

dever, a consciencia e o inferno.

E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.

É então um mundo de formulas a que eu obedeço e tu obedeces? Sem elle

não poderiamos existir. Se vissemos o que está por traz não podiamos

existir. O nosso mundo não é real: vivemos n'um mundo como eu o

comprehendo e o explico. Não temos outro. Estamos aqui como peixes n'um

aquario. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até á cóva

sem dar por ella. E não só esta vida monstruosa e grotesca é a unica que

podemos viver, como é a unica que defendemos com desespero.--Pois sim...

pois sim...--Estamos aqui a representar. Estamos aqui todos ao lado da

morte e do espanto a jogar a bisca de tres. Estamos aqui a matar o

tempo. Este passo, que é unico e um só, damol-o como se fosse uma

insignificancia. Mais fundo: não existem senão sons repercutidos.

Decerto não passamos de echos. Submeto-me, subjugas-me. Já não reparo,

já vejo turvo.--Jogo!--E de repente todo o meu sêr é sacudido pelo

espanto que tacteia á minha roda. Raras vezes entramos em contacto, mas

sinto-o aqui ao meu lado--sem nos chegarmos a entender. Nem quero! nem

quero! Se me alheio um momento dou um grito de dôr. Escaldo-me.

Na verdade o que eu não posso é vêr, o que eu não quero é vêr! A villa

regula-se por habitos e regras seculares--mas há outra coisa enorme para

lá do scenario de que me rodeio. Para não ter medo criei eu isto, para a

não vêr criou o Santo o inferno. Há outra coisa esfarrapada e

dorida.--Jogo!--Cada vez me sinto mais reles, cada vez as palavras me

parecem mais gastas. Há outro sêr que vae de pólo a pólo... Esta figura

grotesca não é a minha figura. O salitre roeu os santos nos seus

nichos--roeu-os tambem o sonho... Curvado sobre a mesa repito os mesmos

gestos inuteis para não desatar aos gritos.--Jogo!--Isto para fingir que

é indiferente o que nos rodeia, que estamos habituados ao que nos

rodeia, que sorrimos ao que nos rodeia! Está alli a morte--está aqui a

vida--está aqui o espanto--e só a ninharia consegue deitar raizes

profundas.

Humus · 第 13 / 83 题