Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do céo, e na luz turva
vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma
sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas
chapeadas que rangem nos gonzos como portas de prisão, fachadas com os
vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de pó sobrepostas. Lojas
terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas,
todas as janelas estão perras, e o tempo vae substituindo uma figura por
outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim,
com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir
os gestos, as cortezias, as acções do confim dos seculos. Isto é nada--é
vulgar e quotidiano. É uma aparencia.
A villa é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.
Atraz desta villa há outra villa maior. A lentidão, o gesto usado, a
meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada sêr cahiu
uma camada de pó. A villa é isto--e a villa não é isto. Que me importa a
Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquíescencia, um sorriso, baba,
mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha.
As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sêr absorto, o
exagero minusculo, teem outra significação. A realidade é a manha, a
astucia que cada um põe em jogo. Não há velhas com cartas na mão; há
orgulho, soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela de quem caminha
na ponta dos pés. Há forças e experiencia, avareza e astucia. E mais
fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam
teem, além da significação banal, uma significação que cada um peza e
calcula,--e outra significação superior. Há palavras que requerem uma
pausa e silencio, e há palavras que é preciso afundar logo n'outras
palavras. Há pelo menos dois sêres n'este homem que toda a gente
conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer
esgares. Elle e o doido que só consegue comprimir á força de
pontualidade. Esta velha não é a velha com quem lidamos--é outra. Tem
tido um trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se
arrisca, há-de contar comsigo mesma para se contrariar. É uma discussão
que não acaba, com a bocca amarga, arrependimento--e por fim não realisa
uma catastrophe authentica, que a engrandeça. Curvada sobre o lar remexe
sempre as mesmas cinzas frias...
Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos
os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias teem uma
força enorme: são ellas que nos sustentam.
Reparo melhor na vida secreta e na vida subterranea. Comprehendo como é
dificil viver todos os dias e todas as horas, como atravez de tudo é
forçoso seguir um fio invisivel--e ser reles e sorrir. Gasta-me uma
força superior, e com todas as chagas e todos os vicios, com a vida
mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o penante usado, o fel e o
vinagre, tenho de arcar com uma coisa immensa de que me separa apenas um
tabique. Tudo o que faço é um arremedo. Está alli outra coisa quando
falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouço
mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os
dias, as aflicções e a usura que tornam as figuras ridiculas e coçadas.
Todos suportam os tratos que envelhecem e preparam para a cóva, os
pequenos interesses, a inveja, a ambição, a dôr phisica. Todos os dias a
Hermengarda amarga os brazões da Bibliotheca, a Bisborria todos os dias
scisma na sua respeitabilidade, e aturam o azedo que pouco e pouco se
deposita nas almas--e com isto uma coisa desconforme, que se levanta e
deita comnosco, não se tira do nosso lado, em quem ninguem fala e com
quem temos por força de cohabitar; deante de quem é forçoso ser vulgar e
dissimulado, fazendo que a não vemos e com ella á cabeceira da cama...
Atraz da insignificancia andam os céos, os mundos, os vagalhões
doirados. Anda o desespero. Anda o instincto feroz. Atraz disto andam as
enxurradas de soes e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando
estavam vivos. Atraz do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e
outras figuras tremendas. Atraz das palavras com que te iludes, de que
te sustentas, das palavras magicas, sinto uma coisa descabelada e
phrenetica, o espanto, a mixordia, a dôr, as forças monstruosas e cegas.
Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificancia desaparecessem da
vida, só ficava de pé o espanto.
Só a insignificancia nos permite viver. Sem ella já o doido que em nós
prega, tinha tomado conta do mundo. A insignificancia comprime uma força
desabalada.
Para não vêr, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo.
Para te não ouvires a ti mesmo, para não vêres o que te gasta a todos os
minutos e a todas as horas, usura immensa que não sentes e que te vae
levar para o escantilhão sofrego, que te vae mergulhar no silencio
profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos
os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inuteis.
Todos os dias acordamos com mais fél. E todos os dias com mesuras, sem
gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo,
fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto
peor que trazemos comnosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem
importancia nenhuma. Com isto enchemos a vida até chegar a morte. Esta
mesa de jogo é a nossa existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o
galope da outra vida ao lado. Não se passa nada! Não se passa nada! No
verão o calor sufoca, d'inverno a mesma nuvem impregna o granito, e
apega-se, amollece, dissolve pilares das janellas, casebres e a oliveira
da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um circulo de
montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragedia--e as montanhas não
desistem. De quando em quando, na solidão que á noite redobra, cahem do
alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso
desconforme.
Estamos aqui todos á espera da morte! estamos aqui todos á espera da
morte!