20 de novembro

Fecho os olhos. A chuva desaba interminavelmente do céo, e na luz turva

vejo sempre a villa, com as mesmas figuras de museu sentadas na mesma

sala... Insignificancia, insignificancia, insignificancia. Portas

chapeadas que rangem nos gonzos como portas de prisão, fachadas com os

vidros partidos, e uma, duas, tres camadas de pó sobrepostas. Lojas

terreas d'onde vem um bafo humido que trespassa... Como todas as almas,

todas as janelas estão perras, e o tempo vae substituindo uma figura por

outra figura, uma pedra por outra pedra. Ponho-as em fila deante de mim,

com os seus penantes usados, grotescas e maniacas. Considero. Vejo vir

os gestos, as cortezias, as acções do confim dos seculos. Isto é nada--é

vulgar e quotidiano. É uma aparencia.

A villa é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.

Atraz desta villa há outra villa maior. A lentidão, o gesto usado, a

meia tinta mesmo em plena luz, toldam-me a visão. Sobre cada sêr cahiu

uma camada de pó. A villa é isto--e a villa não é isto. Que me importa a

Adelia, um dia d'inveja, um dia de aquíescencia, um sorriso, baba,

mesura atraz de mesura? Outra velha mexe por traz desta velha mesquinha.

As lettras assignadas, as lettras protestadas d'este sêr absorto, o

exagero minusculo, teem outra significação. A realidade é a manha, a

astucia que cada um põe em jogo. Não há velhas com cartas na mão; há

orgulho, soberba, inveja paciente. Há intuitos, cautela de quem caminha

na ponta dos pés. Há forças e experiencia, avareza e astucia. E mais

fundo outro, outro sobterraneo... Todas as palavras que se empregam

teem, além da significação banal, uma significação que cada um peza e

calcula,--e outra significação superior. Há palavras que requerem uma

pausa e silencio, e há palavras que é preciso afundar logo n'outras

palavras. Há pelo menos dois sêres n'este homem que toda a gente

conhece, pautado, regrado, methodico. Elle e o doido morto por fazer

esgares. Elle e o doido que só consegue comprimir á força de

pontualidade. Esta velha não é a velha com quem lidamos--é outra. Tem

tido um trabalhão para fazer mal, nunca conseguiu fazel-o. Se se

arrisca, há-de contar comsigo mesma para se contrariar. É uma discussão

que não acaba, com a bocca amarga, arrependimento--e por fim não realisa

uma catastrophe authentica, que a engrandeça. Curvada sobre o lar remexe

sempre as mesmas cinzas frias...

Todos se defendem. Por isso existe uma certa grandeza em repetir todos

os dias a mesma coisa. O homem só vive de detalhes e as manias teem uma

força enorme: são ellas que nos sustentam.

Reparo melhor na vida secreta e na vida subterranea. Comprehendo como é

dificil viver todos os dias e todas as horas, como atravez de tudo é

forçoso seguir um fio invisivel--e ser reles e sorrir. Gasta-me uma

força superior, e com todas as chagas e todos os vicios, com a vida

mesquinha e a vida quotidiana, o nada, o penante usado, o fel e o

vinagre, tenho de arcar com uma coisa immensa de que me separa apenas um

tabique. Tudo o que faço é um arremedo. Está alli outra coisa quando

falo, quando me calo, quando me rio. E falo mais alto porque a ouço

mexer... Todos suportam o drama de todos os dias, o cinzento de todos os

dias, as aflicções e a usura que tornam as figuras ridiculas e coçadas.

Todos suportam os tratos que envelhecem e preparam para a cóva, os

pequenos interesses, a inveja, a ambição, a dôr phisica. Todos os dias a

Hermengarda amarga os brazões da Bibliotheca, a Bisborria todos os dias

scisma na sua respeitabilidade, e aturam o azedo que pouco e pouco se

deposita nas almas--e com isto uma coisa desconforme, que se levanta e

deita comnosco, não se tira do nosso lado, em quem ninguem fala e com

quem temos por força de cohabitar; deante de quem é forçoso ser vulgar e

dissimulado, fazendo que a não vemos e com ella á cabeceira da cama...

Atraz da insignificancia andam os céos, os mundos, os vagalhões

doirados. Anda o desespero. Anda o instincto feroz. Atraz disto andam as

enxurradas de soes e de pedras, e os mortos mais vivos do que quando

estavam vivos. Atraz do tabique e das palavras anda a Vida e a Morte e

outras figuras tremendas. Atraz das palavras com que te iludes, de que

te sustentas, das palavras magicas, sinto uma coisa descabelada e

phrenetica, o espanto, a mixordia, a dôr, as forças monstruosas e cegas.

Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificancia desaparecessem da

vida, só ficava de pé o espanto.

Só a insignificancia nos permite viver. Sem ella já o doido que em nós

prega, tinha tomado conta do mundo. A insignificancia comprime uma força

desabalada.

Para não vêr, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo.

Para te não ouvires a ti mesmo, para não vêres o que te gasta a todos os

minutos e a todas as horas, usura immensa que não sentes e que te vae

levar para o escantilhão sofrego, que te vae mergulhar no silencio

profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos

os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inuteis.

Todos os dias acordamos com mais fél. E todos os dias com mesuras, sem

gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo,

fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto

peor que trazemos comnosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem

importancia nenhuma. Com isto enchemos a vida até chegar a morte. Esta

mesa de jogo é a nossa existencia vulgar, a vida de todos os dias, com o

galope da outra vida ao lado. Não se passa nada! Não se passa nada! No

verão o calor sufoca, d'inverno a mesma nuvem impregna o granito, e

apega-se, amollece, dissolve pilares das janellas, casebres e a oliveira

da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um circulo de

montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragedia--e as montanhas não

desistem. De quando em quando, na solidão que á noite redobra, cahem do

alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso

desconforme.

Estamos aqui todos á espera da morte! estamos aqui todos á espera da

morte!

Humus · 第 14 / 83 题