As paixões dormem, o riso postiço creou cama, as mãos habituaram-se a
fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e
neutralisa, e só um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o
tempo ilimitado para roer. Há aqui odios que minam e contraminam, mas
como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia é
infinita e mete espigões pela terra dentro: adquiriu a côr da pedra e
todos os dias cresce uma polegada. A ambição não avança um pé sem ter o
outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se
lhe ouvem os passos. Na aparencia é a insignificancia a lei da vida; é a
insignificancia que governa a villa. É a paciencia, que espera hoje,
amanhã, com o mesmo sorriso humilde:--Tem paciencia--e os seus dedos
ageis tecem uma teia de ferro. Não há obstaculo que a esmoreça.--Tem
paciencia--e rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com
os mesmos olhos sem expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciencia...
paciencia... Já a mentira é d'outra casta, faz-se de mil côres e toda a
gente a acha agradavel.--Pois sim... pois sim... Não se passa nada, não
se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos
com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os
habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambição e o fel e
torna as figuras grotescas.
Reparem, vê-se daqui a villa toda... Lá está a Adelia, o Pires e a Pires
como figuras de cera. Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima
Angelica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que
desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo á mesma
meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para ella,
mal se ergue, recomeçar a tarefa. Um dia--uma semana--um seculo--e só o
pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade implacavel--p'ra a
morte! p'ra a morte! p'ra a morte!
Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito salitroso assenta outra
camada denegrida, e as horas caem sobre a villa como gôtas d'agua d'uma
clepsydra. De tanto vêr as pedras já não reparo nas pedras. A morte roda
na ponta dos pés e ninguem ouve seus passos. Todos os dias os leva,
todos os dias toca a finados. O nada á espera e a D. Procopia a abrir a
boca com somno, como se não tivesse deante de si a eternidade para
dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto não tivesse importancia
nenhuma, tudo isto se passa como se tudo isto não fôsse um drama e todos
os dramas, um minuto e todos os minutos...
Não há annos, há seculos que dura esta bisca de tres--e os gestos são
cada vez mais lentos. Desde que o mundo é mundo que as velhas se curvam
sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal é a bisca--o jogo é o da
morte... O candieiro ilumina e a sombra roe as phisionomias, a magestosa
Theodora, a Adelia, a Eleutheria das Eleutherias, o padre. Salienta-se
do escuro uma boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres exaltam-na,
a Egreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraça para lhe dar tres
vintens. Só destingo, despegadas dos craneos, as orelhas do respeitavel
Elias de Melo e do impoluto Melias de Melo, lividos como dois fantasmas.
Ambos regulam a consciencia como quem dá corda a um relogio. Dividas são
dividas. Tudo isto parece que fluctua debaixo d'agua, que esverdeia
debaixo d'agua. A luz do candieiro ilumina as mãos da D. Leocadia, que
põe acima de tudo o seu dever, e que leva para casa uma orfã a quem
sustenta e que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem a sala
toda, o mundo todo...
Não sei bem se estou morto ou se estou vivo... Decorre um anno e outro
anno ainda. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o
salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero augmenta não se
traduz em palavras. A D. Procopia odeia a D. Bibliotheca, mas nem ella
sabe o que está por traz d'aquelle odio, contido pelo inferno. Toda a
gente se habitua á vida. Matar matava-a eu, mas varias palavras me
deteem. Detem-me tambem um nada... Chegamos todos ao ponto em que a vida
se esclarece á luz do inferno. Mas ninguem arrisca um passo definitivo.
As velhas com o tempo adquiriram a mesma expressão, com o tempo chegaram
a temer um desenlace. Debruçadas sobre a meza as figuras não bolem. Não
bolem outras figuras que se envolvem no escuro, e o que me interessa não
são as palavras do padre--Jogo;--nem o que a Adelia diz baixinho á
Eleutheria, para que a velha temerosa ouça:--A nossa Theodora está cada
vez mais moça!...--o que me interessa são as figuras invisiveis: é a dôr
d'essas figuras imoveis, e sobre ellas outra figura maior, curva e
atenta, que ha seculos espera o desenlace.
A villa petrifica-se, a villa abjecta cria o mesmo bolor. Mora aqui a
insignificancia e até á insignificancia o tempo imprime caracter. Moram
na viella ingreme e cascosa, que revê humidade em pleno verão, velhas a
quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um
doido sobre uma corôa de lata que lhes enche o mundo todo. Mora d'um
lado o espanto, do outró o absurdo. E todos á uma afastam e repelem de
si a vida. Mora aqui a Telles que passa a vida a limpar os moveis, só e
fechada com os moveis reluzentes, talvez resto d'um sonho a que se apega
com desespero, e velhas só mesuras, só baba, só rancor. Ter uma mania e
pensar n'ella com obstinação! Creal-a. Ter uma mania e vêl-a crescer
como um filho!... Mora aqui a D. Restituta, sempre a acenar que sim á
vida, e a Ursula, cuja missão no mundo é fazer rir os outros.
Cabem aqui sêres que fazem da vida um habito e que conseguem olhar o céo
com indiferença e a vida sem sobresalto, e esta mixordia de ridiculo e
de figuras somiticas. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo,
que de quando em quando sae do torpôr e clama:--O inferno! o
inferno!--Moram as Telles, e as Telles odeiam as Souzas. Moram as
Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a
fazer cortezias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só teem um fim
na existencia: estrear todos os semestres um vestido no jardim. Moram os
que moem, remoem e esmoem, os que se fecham á pressa e por dentro com
uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um anno, até chegar
a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.
Mora aqui o egoismo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os
dentes por casa, o que enche a existencia de rancores e, atraz d'anno de
chicana, consome outro anno de chicana. Cabem aqui dentro as velhas
scismaticas, atraz de interesses, de paixões ou de simples ninharias,
dissolvendo-se no ether, e logo substituidas por outras velhas, com as
mesmas ou outras plumas nos penantes, com os mesmos ou outros ridiculos,
fedorentas e maniacas; os homens a quem se foram apegando pela vida fóra
dedadas de mentira, promptos para a cova--e o Gabiru e o seu sonho. Cabe
aqui o ceu e as lambisgoias com as suas mesuras, a morte e a bisca de
tres. E cabe aqui tambem uma velha creada, que se não tira deante dos
meus olhos. Obsidia-me. Carrega. Obedece. Serve as outras velhas todas.
A Joanna é uma velha estupida.
Serviu primeiro na villa, serviu depois na cidade. Serviu um
anthropologista exotico, que fundira cem contos a juntar caveiras, e de
quem a Joanna dizia ao amollecer-lhe os edêmas dos pés:--Este senhor é
um 2.^o Camões!--Serviu a D. Herminia e a D. Hermengarda. Serviu com uma
saia rôta, as mãos sujas de lavar a louça, uma camisa, os usos e seis
mil reis de soldada. Lavou, esfregou, cheira mal. Serviu o tropel, a
miseria, o riso, que caminha para a morte com um vestido d'aparato e um
chapeu de plumas na cabeça. Para contar fio a fio a sua historia bastava
dizer como as mãos se lhe fôram deformando e creando ranhuras,
nodosidades, codeas, como as mãos se foram parecendo com a casca d'uma
arvore. O frio gretou-lh'as, a humidade entranhou-se, a lenha que rachou
endureceu-lh'as. Sempre a comparei á macieira do quintal: é inocente e
util e não ocupa logar. A vida gasta-a, corroem-na as lagrimas, e ella
está aqui tal qual como quando entrou para casa da D. Hermengarda. Faz
rir e faz chorar. Os meninos borraram-na--adorou os meninos. Os doentes
que ninguem quer aturar, atura-os a Joanna. Já ninguem extranha--nem
ella--que a Joanna aguente, e a manhã a encontre de pé, a rachar a
lenha, a acender o lume, a aquecer a agua. Há sêres creados de proposito
para os serviços grosseiros. Por dentro a Joanna é só ternura, por fóra
a Joanna é denegrida. A mesma fealdade reveste as pedras. Reveste tambem
as arvores.
É uma velha alta e secca, com o peito raso. O habito de carregar á
cabeça endireitou-a como um espeque, o habito das caminhadas
espalmou-lhe os pés: a recoveira assenta sobre bases solidas. Parece um
homem com as orelhas despegadas do craneo e olhos inocentes de bicho. É
d'estas creaturas que dão aos outros em troca da soldada o melhor do seu
sêr, que se apegam aos filhos alheios e choram sobre todas as desgraças.
E ainda por cima dedicam-se, e quando as mandam embora, porque não teem
serventia, põem-se a chorar nas escadas.--É preciso
escodeal-a--asseverou a D. Hermengarda quando lhe foi em pequena para
casa. Escodeia-a. Noite velha e já ella bate de cima com a tranca no
soalho, a chamal-a.--E não te servindo a porta da rua é a serventia dos
cães.--Mas ella apega-se. Nunca teve outra ama como aquella senhora.
Venera-a. Annos depois diz das pancadas:--Merecia-as.--Já não é preciso
chamal-a: a Joanna ergue-se n'um sobresalto, alta noite, noite negra, e
dorme com um olho fechado e outro aberto. Velha, tonta, abre de quando
em quando os olhos, põe o ouvido á escuta num movimento instinctivo, á
espera de uma imaginaria ordem: ouve sempre a voz da D. Hermengarda a
chamal-a.
Mal se comprehende que depois d'uma vida inteira, esta mulher conserve
intacta a inocencia d'uma creança e o pasmo dos olhos á flôr do rosto.
Trambulhões, fome, o frio da pobreza--o peor--e, apezar de amolgada, com
uma saia de estamenha, no pescoço pelles, as mãos gretadas de lavar a
louça, uma coisa que se não exprime com palavras, um balbuciar, um
riso... Misturou á vida ternura. Misturou a isto a sua propria vida.
Aqueceu isto a bafo.
Tem as mãos como cepos.