Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste...
Uma villa encardida--ruas desertas--pateos de lages soerguidas pelo
unico esforço da erva--o castelo--restos intactos de muralha que não
teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes não conduz
a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios
das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre--a porta da Sé com os
santos nos seus nichos--a praça com arvores rachiticas e um coreto de
zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se
na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas
tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias,
regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, n'um
jardim abandonado--inverno e folhas seccas--entre buxos do tamanho
d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feições.
Puira-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um
esforço enorme para se arrancarem á pedra. Na realidade isto é como
Pompeia um vasto sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos...
Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dôr que a ninharia e o
habito não deixam vir á superficie. Afigura-se-me que estes sêres estão
encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não
possam falar.
Silencio. Ponho o ouvido á escuta e ouço sempre o trabalho persistente
do caruncho que roe há seculos na madeira e nas almas.