IV

Sete annos eram passados desde a tarde em que os moradores de Algoço

tinham lançado sobre o corpo de Garcia do Marnel os ultimos punhados de

terra. Sueiro Lopes, n'esse intervallo, tres vezes casado, e outras

tantas viuvo, cada vez se havia feito mais aspero e cruel.

Mal raiava a manhã as buzinas acordavam logo as solidões. Assim que a

noite se fechava, as frestas ponteagudas da torre de menagem,

illumminando-se, reverberavam o clarão das tochas do festim. Os gritos,

as risadas, as blasphemias da alegria ebria espantavam os que vinham

perto do castello. Os vicios do senhor avivaram-se com os annos. Os

deleites pareciam-lhe mais doces regados de lagrimas e de sangue. O

abutre já não empolgava só a vida e os bens dos villãos; abrazado em

ardor impuro cevava a sensualidade na honra das filhas da aldeia.

Rindo-se do temor de Deus, arrastava sem piedade pelo lodo de amores

infames a innocencia das mais formosas e a virtude das mais honestas. Um

sorriso, um olhar d'elle era como a fascinação do reptil. Por onde

passava, as flores mais frescas, e mais puras caiam desmaiadas.

Silvana contava deseseis annos. Mimosa e esbelta, o setim das faces

realçava a terna pallidez, que revestia de tanto enlevo a brandura

contemplativa dos olhos verdes e transparentes, aonde a alma retratava

os mais suaves affectos. O vivo carmim dos labios abotoando as rosas da

bocca, redobrava os encantos ao sorriso meigo, tornando irresistivel o

requebro e a graça virginal da phisionomia namorada. A voz, fresca e

melodiosa, insinuando-se no coração, era o seu maior attrativo.

Recolhida pela caridade da aldeia, e desvalida, para quem havia de

levantar a vista ou a quem podia confiar o segredo, que a fazia palpitar

de esperança, quando se mirava no cristal da fonte? Vel-a e cubiçal-a

foi tudo a mesma cousa para o rico-homem. Elle, que a um aceno imperioso

sujeitava as mais isentas, podia suppor acaso que Silvaninha lhe desse o

não fugindo a suas caricias? Mas ás primeiras palavras o rubor do pejo

incendiou em chammas o rosto da donzella e nas pupillas de esmeralda

fuzilou a ira. Soltando as mãos envergonhada e offendida, furtou-se ás

garras do açor. A raiva enlouqueceu o cavalleiro. Um juramento

saltou-lhe da bocca por entre sorrisos lividos.

--Não serás esposa sem primeiro seres amante! Pedirás de joelhos o que

hoje engeitas! Sei atalhar os rodeios á corsa. Sei aonde o golpe fere

seguro!

Deus do ceu compadecei-vos de Silvana! Ella mal o escutou. Tremula e

soffocada não suspendeu a carreira senão á porta da cabana aonde morava

a velha Aldonça, conselho e consolação de toda a aldeia. As linguas

maldizentes affirmavam, que a velha não era decrepita, nem mendiga, mas

fada, e que sabia ler nos astros e adivinhar nas aguas. Contavam

prodigios do seu poder! Alguns chegaram a asseverar até, que ella e a

serpente encantada tinham nascido irmans, e se juntavam em colloquio á

meia noute. Quando a donzella appareceu, Aldonça, sentada em um penedo

diante da porta, acabava de espiar a roca; viu-a e sorriu-se. Enrolou

depois a estriga, puxou o fio, e á medida que o fuso girava, e que a

linha se enrolava, meneava a cabeça, como se estivesse vendo, ou

ouvindo, a muito longe dos sentidos cousa de seu gosto.

--Deus vos salve, filha! exclamou por fim. Sei o que vos traz assim

assustada. O açor cubiçou a rolinha? Havia de ser! Estava escripto lá em

cima, e o que ha de acontecer muita força tem. Conta-me tudo. O que te

disse? O que lhe respondeste?

Quando Silvana terminou, redarguiu a velha:

--Louvado Deus! Vem perto a hora e o dia. O destino pode mais que o

homem. A aguia real já a estou vendo voar. Dentro em pouco temos grandes

novidades, filha! Apesar de agudas, as garras do açor não hão de

ferir-te. Vai d'aqui á fonte da moura e dize que sim a quem lá

encontráres. Não te demores. D'onde se não espera vem o remedio. Has de

ser feliz!

Ditas estas palavras, abysmou-se em tão profundo scismar, que parecia

morta. Não quiz saber mais a donzella. Voou á fonte com a fé viva dos

quinze annos e da esperança. Ao pé do primeiro álamo parou e tremeu. Não

vira a serpente, nem a corsa encantada, mas vira um mancebo robusto e

gentil, filho do mais abastado cavalleiro villão das cercanias. Porque

lhe esmorece a ella de subito a vermelhidão das faces affrontadas da

corrida? porque lhe bateu o coração no peito tão atropellado? Tello

Vasques, o melhor besteiro depois da morte de Garcia do Marnel, era o

noivo que as raparigas das cinco aldeias visinhas disputavam com mais

inveja. Debalde! A vista d'elle não se baixára para nenhuma, nem a sua

bocca se abrira para dizer uma palavra terna á mais galante. Silvaninha

fôra a sua primeira e unica paixão. Combateu-a e calou-a por muito

tempo, com receio dos pais, mas por fim, não se podendo conter,

decidiu-se, e veiu ao logar pedir-lhe a mão. Ninguem sabia o segredo do

mancebo senão Aldonça, porque d'essa nada se escondia. E a donzella?...

Tinha-o adivinhado nos olhos, que buscavam os seus, e no proprio

coração, que, alvoroçado, lhe dissera pela primeira vez o que era amor.

Quando parou, Silvana sentira mais, do que vira, que Tello estava alli.

Sem forças para se adiantar ou para retroceder, subiu-lhe ás faces o

rubor em ondas, e a vista não ousou despregar-se do chão. O tremor

convulso que a agitava fazia-lhe arfar o seio.

V

Tello Vasques não estava menos enleado. Corou tambem, e a vivesa natural

dos olhos pretos esmoreceu meio offuscada pela sombra das pestanas.

Encobrindo que a esperava, quiz saudar Silvana; mas a voz negou-se-lhe,

e uma especie de deslumbramento turvou-lhe a vista. A mão suspensa, a

cabeça inclinada, o gesto cheio de timidez retratavam a vontade presa do

enlevo sem força para dissimular, e ainda menos para combater. Assim

ficaram por minutos. Immoveis, calados, contemplando-se, e fallando só

com o coração. A felicidade era tão grande, que não achavam termos que a

pintassem. Quem encostasse a mão ao peito do robusto besteiro,

sentindo-o pulsar agitado, logo conhecia que o amor o fizera seu. Quem

escutasse o palpitar ancioso do seio de Silvaninha não precisava

perguntar-lhe se tambem amava!

Em redor d'elles tudo era paz e serenidade. Por cima o ceu puro

recortando-se por entre a cupula frondosa das arvores. Ao lado a agua,

sussurrando preguiçosa, saltava em arroios mansos, ou sumia-se nas

relvas que aveludavam o chão. Mais longe, a pequena levada afundava-se

com estrepito pelas fendas musgosas dos penhascos debruçados sobre o

valle. Em baixo, no fim da encosta, uma verdadeira alcatifa de hortos,

de pomares, e de campos viçosos, contrastando com o arvoredo sombrio,

que entristecia ao largo a paisagem. Depois, a perder de vista, a côr

arida e melancolica das charnecas desatando-se até aos cabeços da serra,

cujos cimos o sol dourava despedindo-se entre nuvens. Uma brisa louca,

mas amena, doudejáva na campina, ramalhando as folhas, brincando com os

arbustos, empolando e acamando as ervas dos prados. Os rouxinóes nas

moutas rompiam em trinados os deliciosos gorgeios. A cigarra casava a

voz estridula com o coaxar das rãs. As sombras, delgadas ainda,

começavam a fechar-se sobre o valle, emquanto os raios do dia amorteciam

a pouco e pouco no viso dos outeiros, escurecendo o fino azul do

firmamento e o verde fresco das arvores e plantas.

Quando a ternura mutua os deixou respirar, a donzella, volvendo em si

primeiro, e desabotoando o meigo sorriso, ergueu o dedo em ar de

travessa ameaça e disse:

--Vós aqui, Tello! A esta hora, em sitio por onde poucos passam! Que

quereis que digam da pobre Silvana, que não tem senão o seu nome?...

A voz era queixosa, e não irada. O timbre harmonioso avivou no peito do

mancebo o ardor da paixão. Depois os olhos sorriam animados de malicia

tão innocente, que Tello leu n'elles mais do que esperança, leu amor. De

repente ficou outro. Pegando-lhe na mão, e beijando-a, a voz

soltou-se-lhe, e a vista, cobrando valor na vista d'ella, tornou-se tão

eloquente, tão avida de ternura, que ella baixou outra vez as palpebras.

--Silvana! exclamou arrebatado. Quiz Deus que nos amassemos, e que um

não podesse viver sem o outro. Meus paes consentem. Dás-me o sim?

O jubilo transformou a phisionomia da donzella. Depois o carmin das

faces sumiu-se, e as lindas pupillas, um momento radiosas, molhando-se

de lagrimas, lançaram sobre o rosto as sombras da mais resignada

tristesa. Sem retirar, ou entregar a mão, que o mancebo prendia nas

suas, a neta de Garcia do Marnel, esquecido o conselho de Aldonça,

respondeu singelamente:

--Tello, não vos darei já o sim; não quero arrepender-me. O filho de

Ayres Vasques, do mais abastado morador da terra de Miranda, não deve

escolher a sua noiva entre as donzellas mais pobres e desvalidas de

Algoço. Amo! Porque hei de negal-o? Mas pelo muito amor é que receio

acceitar. O que ha de trazer em dote a orphã sustentada pela caridade

dos visinhos senão lagrimas e saudades d'aquelle chão, aonde dorme sem

vingança, porque ninguem lh'a deu, ou pode dar, o velho que duas vezes

foi seu pai, e que por ella morreu de dôr? Não, Tello! Não pode ser!

Fallando assim, tremula e consternada, mal reprimia o pranto. O mancebo

admirava-a silencioso. As lagrimas deslisando-se, os olhos que a dôr

fazia irresistiveis, e a voz procurando encobrir com dissimulada firmesa

a magoa intima, por tal modo lhe realçavam a formosura, que o besteiro

não sabia se era anjo, ou fada, a que estava adorando ali captivo de mil

attractivos. Attraindo-a, depois, com impeto, e unindo-a ao peito, elle,

o homem forte, o filho de uma raça leal e rude, como o seculo em que

vivia, sentiu rebentar o pranto, e não se envergonhou de o deixar

correr.

--A tua vontade, Silvana, será a minha! disse por fim. Mas por amor te

quero, e não é justo que por amor te perca. O que vale dizer a bocca

não, se os olhos, mau pesar teu, estão dizendo sim? Dizes que o dote que

me trazes é de lagrimas e pobresas? Nunca fui mais rico. Estas lagrimas

piedosas da filha promettem venturas ao marido. E a puresa d'esse

coração é o teu maior thesouro. Hontem não podia viver sem ti, hoje

morria se te perdesse. Silvana!... Não n'o escondas! O senhor tentou-te

de amores, e jurou vingar-se dos despresos? Socega! Deus será comnosco.

O meu arco não erra. A seta vae sempre aonde a mando!

Não cedeu ainda a donzella, mas Tello não se enganára: o coração

desmentia a bocca. Afinal deu o sim, cobriu o rosto, e accêsa em pejo

desappareceu como se toda a aldeia a estivesse vendo. Ficou ajustado,

que no seguinte dia iria Tello ao solar pedir licença a Sueiro Lopes. Os

noivos sem ella não podiam receber-se na igreja de Algoço, e Silvana

desejava tanto que seus amores fossem abençoados, aonde o tinham sido os

de seu pai e seu avô, que o besteiro não ousou contrarial-a. Altos

juizos de Deus! Mal previa o orgulhoso descendente dos senhores de

Biscaia que por causa dos olhos verdes de uma donzella pagaria todas as

culpas da sua geração, todos os crimes da sua vida.

Contos e Lendas · 第 24 / 38 题