Era domingo. Tudo repousava na aldeia. Sobre a tarde um cavalleiro,
correndo a redea larga, subia a ladeira torcida por entre os penhascos
que findava á porta do castello. Atraz, mas longe, uma vistosa quadrilha
de monteiros, de guarda-coz verde e cintos de couro, passou rindo e
folgando, em quanto os moços de monte sustinham das tréllas as matilhas
impacientes, cujos saltos e latidos formavam condigno acompanhamento aos
alaridos dos caçadores. No meio do prestito jovial uma azemola conduzia
atravessado em duas varas o corpo de um javardo, victima enorme e
cerdosa sacrificada depois de aturada fadiga e renhido combate, segundo
attestavam os golpes, com que suas navalhadas presas tinham descosido os
mais valentes e fugosos cães.
Soavam as buzinas a brava alegria das florestas, e o tropel ruidoso,
trotando, recordava as proesas dos sabujos mais atrevidos, e resava,
entre chufas e galhofas, a oração funebre do pingue eremita, que todos
haviam corrido sem parar desde a madrugada até ao pôr do sol.
D. Sueiro, que se apartára d'elles ao pé da fonte da moura, era o unico
serio e silencioso. Contra o seu costume, a trompa de prata pendia muda,
e nem o ardor da carreira, nem as iras do javali, varado pelo seu
venabulo, lhe arrancavam os sons festivos, que era sempre o primeiro a
levantar. Que magoa, ou que remorso entristecia o senhor de Algoço? Nas
trevas, nas horas atormentadas das noites sem somno, apparecera-lhe a
visão terrivel, com que na raça de Biscaia a sombra de Diogo Lopes
avisava a cabeça da familia de estar proximo o dia dos ultimos e tardios
arrependimentos? Ao pé da fonte apeiou-se, e, com a cabeça entre as
mãos, alongou a vista até aos montes fronteiros. O olhar vago e perdido
dizia que o espirito não se achava ali. De repente rangeram e estalaram
os ramos junto d'elle, e do meio dos loureiros saiu uma figura. Ao ruido
o rico-homem levou a mão ao punho da espada, inculcando sobresalto sem
receio. O mêdo nunca entrára n'aquelle peito inaccessivel á piedade.
--Quem és? O que buscas? bradou irado, medindo com os olhos torvos o
robusto e esbelto mancebo, que de arco frouxo na mão, e frechas passadas
no cinto, se lhe descobria subitamente.
Este não se alterou. Vendo perto de si o homem, que tantas lagrimas
accusavam, assomou-lhe ás faces morenas um leve rubor e as pupillas
negras faiscaram duas chispas. Sueiro Lopes apertou com mais força os
copos da espada.
--Sou o filho de Ayres Vasques, o de Miranda, e a vós buscava!
A firmesa do tom e a concisão da resposta desagradaram ao cavalleiro.
Brilharam os olhos mais sombrios, e um sorriso mau encrespou-lhe os
beiços.
--O que vem pedir o filho de Ayres Vasques ao senhor de Algoço, fóra do
seu castello, n'este logar deserto?
A ironia salpicava de escarneo as palavras pronunciadas com desprezo.
--Venho dizer-vos, redarguiu o besteiro, aspero e frio, que vive em
vossas terras a donzella que ha de ser minha mulher.
--Ah! Só isso?! E é bonita e moça a tua noiva? Por força a conheço
então. Como se chama?
Fallando assim, o tom e os modos de Sueiro estillavam tal veneno, que as
furias do ciume se levantaram no peito do mancebo. Conteve-se, porem, e
retorquiu:
--A mais formosa da aldeia. É a Silvana do Marnel.
--A Silvaninha? A perola de Algoço? Dal-a a um javardo de Miranda?! Pões
alto o pensamento, villão. Muito alto! Manjares de senhor não se dão a
servos.
Foi Deus, ou o anjo custodio, que suspendeu o braço a Tello. A mão
procurou a seta mais aguda no cinto, e os olhos chammejantes apontaram
no peito do rico-homem o logar do tiro. O cavalleiro percebeu, mas
disfarçou. Continuando a pungir o mancebo com mofas, proseguiu:
--Sabes, Tello, que pelos olhos verdes de Silvaninha dera eu o melhor
cavallo e o melhor arnez, e que um beijo d'aquella bocca pagaria o
resgate de um barão? Cuida o villão que eu havia de enterrar na sua
posilga a roza dos nossos sitios?
--Senhor! bradou o besteiro, tremulo de colera e de ciume.
--Fora! exclamou Sueiro Lopes, mettendo o pé no estribo e sacudindo o
látego no ar. Arreda! ajuntou vendo-o adiantar direito e pallido, com
mil ameaças nos olhos e no gesto. Arreda, ou por meu bisavô te juro, que
tantas noutes dormirás na cisterna do meu castello, que de lá te
arranquem cego e doudo!
--Veremos! articulou o besteiro retesando o arco. Só Deus sabe aonde vós
dormireis hoje!
O cavalleiro ja tínha cravado esporas no corsel, e começára a levantar o
galope, quando lhe chegaram aos ouvidos estas palavras. Escutando-as,
parou o cavallo de repente, e voltando rijo sobre Tello, sem baixar a
vista sobre elle, disse-lhe rindo affrontosamente:
--Villão! Não has de ir queixoso, olha bem! No dia em que Silvana tecer
de fios de ortigas, nascidas na sepultura do avô, duas camisas para mim,
dou licença que se chame tua mulher. É uma joia por um ceitil! uma das
camisas será o meu brinde de noivado, a outra desejo-a para me enterrar
com ella no dia seguinte. Até lá que não vos torne a ver a ambos!
A esperança acabou de fallecer no peito ao mancebo. Fez-se branco,
fugiu-lhe a luz da vista, e sentiu-se tão prostrado, como se o sangue se
lhe esvaisse todo. Quiz fallar e correr, mas os pés arraigavam-se ao
chão. A mão inerte não se erguia. A dor immensa tinha-lhe quasi
suspendido a vida. Quando volveu a si para olhar em roda, avistou ao
longe na planicie o vulto do cavalleiro maldito, e pareceu-lhe ouvir
estalar ainda as risadas do seu escarneo. Tello elevou então ao ceu a
vista toldada de lagrimas e caiu em um scismar profundo. Desceu a noute
sem elle dar por si; soprou o vento da serra nas arvores sem elle o
sentir; e as primeiras gotas da chuva, nuncias da tempestade,
orvalharam-lhe a cabeça nua, sem o despertarem da amargura. Ao rebombo
dos trovões é que acordou, e que principiou a afastar-se com passos
vagarosos do sitio, aonde o amor cercado de illusões lhe sorrira alegre,
e aonde deixava calcadas e desfeitas as melhores esperanças da
existencia.