Tinha fama de grande monteiro o castellão. Mál o dia despontava, saltava
logo no cavallo, e a galope, por sarças e estevaes, por montes e
campinas, no meio dos caçadores, entre risos, juras e brados, corria até
á noite. Uma tarde, na primavera, levantou-se-lhe um veado quasi nas
terras de um colono, e a despeito das supplicas do velho, cães e
corseis, salvando valados, e calcando pavêas, arrazaram em minutos o
trabalho de mezes. Sobre as vozerias, latidos, e relinchos soavam, sem
cessar, os gritos de cavalleiro: Avante! Sus! Aboca! Tocavam buzinas,
estalavam lategos, o tropel, ennovelado desappareceu atraz da pista.
Garcia de Marnel, o dono do campo, fôra o melhor besteiro dos sitios. O
mais rijo arco dobrava-se, como vime, em suas mãos, e a seta da sua
aljava atravessara sempre o alvo. De avôs a netos esta robusta e
laboriosa raça lançára raizes profundas no solo, remido pelo seu braço.
Os mais fundos affectos prendiam-a á terra rôta e lavrada com o suor do
trabalho. Na choupana do pequeno casal tinham-lhe nascido viçosas as
primeiras esperanças, tinham-lhe alvorecido os castos amores da esposa e
dos filhos. No altar da egreja haviam sido abençoadas as promessas de
mutua ternura; e agora debaixo da cupula frondosa dos álamos, á sua
porta, o avô, no inverno dos annos, sentia-se renascer nas graças
infantis da neta, mimosa e unica vergontea, que sobrevivia dos ramos
decepados pela morte no velho tronco da familia. Garcia amava tudo isto
com o ardor calado, mas intenso das almas viris, retemperadas pelo
infortunio.
A pobreza honrada nunca lhe curvara a cabeça, nem o peso da enxada lhe
desfallecera o braço. A dor, ferindo-o tres vezes no mais vivo do
coração, a dor mesmo não lhe prostrára o animo. A esposa, por tantos
annos alegria e conforto de suas fadigas, tinha-o deixado a meio caminho
da vida para ir esperal-o na mansão de paz. Dois filhos, amparo da sua
velhice, orgulho da sua alma, ceifados em flôr seguiram a mãe, em quanto
o ancião desgraçado, só e de joelhos não via a seu lado no desterro da
vida, êrmo de consolações, senão a infancia fragil e graciosa de
Silvaninha, duas vezes filha, por que duas vezes era o sangue do seu
sangue. Inclinado sobre tres tumulos, e trazendo sempre diante de si as
sombras da morte, converteu-se-lhe a ternura, com que amava a neta, em
um extremo louco e quasi delirante. Só esta saudade, só este amor o
prendia ainda ao mundo, mas com tal encanto, que muitas vezes pedira a
Deus que lhe dilatasse os dias para não se unir aos que o chamavam do
ceu, senão depois de a ver mulher e feliz.
Quando Sueiro Lopes lhe pisou aos pés dos cavallos os fructos de um
anno, o sangue do velho, remoçado pela ira, pulou nas veias; as faces
cavadas coráram de subito, e os olhos despediram dois relampagos. Saindo
ao encontro do cavalleiro, a voz e o corpo tremiam, mas não de mêdo.
Aquelle campo era o dote da neta, e só por causa d'ella é que supportava
o peso aborrecido de setenta annos de fadigas. «Senhor! Senhor! dizia
elle correndo e clamando, tendes o atalho da esquerda! Ruim caçada
contra um velho e uma donzella!» O rico homem não respondeu. As matilhas
e os cavallos, precipitando-se, partiam á róda d'elle, envoltos em
nuvens de pó, e o afflicto lavrador, de pé e coberto, tinha lançado mão
das redeas do corsel.
Um brado rouco denunciou a raiva do senhor. Depois o látego, silvando,
cingiu o corpo do velho, em quanto o ginete fogoso empinando-se-lhe
ameaçou o peito com ás patas «Fóra! rugiu o cavalleiro. Eis a paga do
conselho!» Garcia desviou-se quasi cego de dôr, e Sueiro, cravando as
esporas nos ilhaes, voou á redea larga por cima das hortas e ceáras,
bradando: «Sus! Abóca!»
O açoute infamante não cortou o corpo, cortou a alma ao desgraçado.
Recuando para a porta, como o tigre, e medindo a distancia com as
pupilas inflammadas, poz os olhos com ancia no arco e na aljava. Um
rujido surdo expirava ao mesmo tempo á flôr dos labios. A vida do homem
orgulhoso e máu estava á mercê d'aquelle arco. Tomou-o e encurvando-o
ajustou a seta. O que no intimo peito diziam o desespero e a colera era
medonho. O rosto não o encobria. Ao apontar o tiro a vista ardente
elevou-se ao ceu. Pedia perdão, ou auxilio?
De repente baixou-a magoada sobre a casinha humilde. Uma voz fresca e
melodiosa cantava dentro. Duas lagrimas rebentaram então dos olhos
seccos do velho; os braços descairam. Quiz vencer-se e resistir, não
pôde. O arco fugiu-lhe das mãos, e a bocca murmurou:
«Fôra matal-a tambem a ella!» Enxugando depois as palpebras entregou a
Deus o castigo do oppressor.
Mas a desgraça entrára no seu campo com Sueiro Lopes.
O mordomo do castello veiu depois, e consumou a ruina. Desde que fôra
aviltado, Garcia não parecia o mesmo homem. A ferida occulta minava-o.
Falecia-lhe a alma e com ella os brios para o trabalho. Os visinhos,
acudindo ao choro da neta, vieram encontral-o morto debaixo de uma
oliveira plantada pelo mais novo dos filhos. A terra, dote da pobre
orphã, confiscada caiu nas mãos de um sobrinho do mordomo, e Silvaninha,
sem parentes, e protectores, teria morrido de frio e de fome se lhe não
valesse a caridade dos amigos do besteiro. Um deu-lhe a casa e o
sustento; outro vestiu-a; e muitos, captivos de sua gentilesa,
soccorreram-a, cada qual com o que podia. No entanto crescia a donzella
em edade e formosura; mas á medida que os annos corriam, o rosto pallido
e os olhos verdes entristeciam-se. Muitas vezes deslisavam-se-lhe pelas
faces as lagrimas e não as entendia. É que o pão da esmola, mesmo dado
com amor, sempre tráva na bocca do infeliz! Ao declinar do dia, olhando
para o tecto da casinha, de que fôra desherdada, apertava-se-lhe o
coração por medo tal, que tinha pena de viver, e que sentia saudades da
sepultura, aonde seu avô descansava, aonde todos os seus dormiam!