II

Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado o

_Justiceiro_, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e

humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer

punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos,

os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria

vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos.

No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da

culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas,

ou favores. Devedor honrado, o principe ajustava logo a sua conta a cada

um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é

que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo

sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de

todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o

caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado

e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e

grande pintor de vultos e de cousas.

Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello,

construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a

sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até

á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos

armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da

aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e

arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas

e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus

nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda,

compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam

desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes

da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem. O pranto da

viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas

contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava

o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde

repousavam seus paes, avós, e irmãos.

O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A

vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que

tinham amanhecido remediados!

D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue

nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o

casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou

fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido

fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as

contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de

Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr

correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos

pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das

matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro

objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a

pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta

familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito

nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada

união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em

flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das

victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham

alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como

existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D.

Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle

coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se

queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida

estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a

esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura

quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem

sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.

Contos e Lendas · 第 22 / 38 题