Nos dias d'esta veridica historia governava el-rei D. Pedro, chamado o
_Justiceiro_, e tres annos depois o reino parecia outro. Poderosos e
humildes, ricos e pobres, todos eram tratados do mesmo modo, quer
punisse, quer premiasse. Os bons sabiam que o rei os amava como filhos,
os maus tremiam diante da sua face, porque o castigo de suas mãos seria
vingador como a ira de Deus, e rapido como a impaciencia dos opprimidos.
No seu tempo a lei era de um só rosto e a pena não coxeava atraz da
culpa. Entre o crime e a expiação não se interpunham annos, promessas,
ou favores. Devedor honrado, o principe ajustava logo a sua conta a cada
um, e pagava-a immediatamente. Só aos moradores de Algouço, coitados! é
que ainda não chegára a boa sombra do justiceiro, mas assim mesmo
sentiam sua fé tão viva n'elle, que nas maiores afflicções a voz de
todos era sempre: «Valha-nos aqui el-rei D. Pedro!» Por fim valeu, e o
caso devia ser escripto com lettras de ouro pela penna d'aquelle honrado
e singelo chronista Fernão Lopes, mais poeta do que toda uma arcadia, e
grande pintor de vultos e de cousas.
Ainda então se aninhava a povoação de Algouço em volta do castello,
construido para a defender, e da egreja, que estendia sobre as campas a
sombra misericordiosa dos braços da sua cruz. Por ambas as encostas até
á corôa da montanha, aonde se erguiam as torres do solar com os engenhos
armados nos eirados, e as ameias sempre vigiadas, subiam as casinhas da
aldeia, pendurando-se, umas cingidas de verdura, outras negras e
arruinadas de velhice, estas mudas e desertas a desabar, aquellas alvas
e remoçadas dissimulando a pobreza com os ares quasi festivos!! «Deus
nos livre de tão mau senhor!» era o voto dos burguezes de Miranda,
compadecidos da escravidão dos moradores de Algouço, e ainda não diziam
desgraçadamente toda a verdade. Ali o suor de sangue regava os banquetes
da sala de armas e as pompas quasi regias do rico-homem. O pranto da
viuva e as lagrimas dos orphãos molhavam suas mãos, sempre alçadas
contra a miseria dos desditosos para destruir o tecto, que lhes abrigava
o berço, e revolver ás vezes até o chão sagrado do cemiterio aonde
repousavam seus paes, avós, e irmãos.
O mordomo trazia de cór os sulcos de cada arado, e o pezo de cada rez. A
vontade do amo e a cubiça dos servos deixavam mendigos á noite os que
tinham amanhecido remediados!
D. Sueiro descendia dos senhores de Biscaya. N'aquella raça o sangue
nobre confundia-se com a chamma infernal do espirito das trevas desde o
casamento de Diogo Lopes com a Dama-pé-de-Cabra. Verdadeira, ou
fabulosa, a alliança dos altivos barões com os demonios tinha sido
fertil em crimes. N'uma epocha, em que a lança e a espada cortavam as
contendas, calando as leis, e calcando os direitos, os cavalleiros de
Algoço excediam os mais ferozes na braveza, e na crueldade ferina. Vêr
correr prantos, e derramar sangue, para elles era um deleite. Pizar aos
pés dos cavallos as searas maduras, ou atassalhar nos dentes das
matilhas o rebanho, unica riqueza do lavrador, parecia o verdadeiro
objecto das estrondosas caçadas, em que talavam campos e vinhas a
pretexto de montear lobos e javardos. D. Sueiro foi o ultimo d'esta
familia impia. Tres esposas, em seis annos, haviam passado do leito
nupcial para o tumulo, sem nenhuma lhe deixar penhor de tão mal agourada
união. Rosas pallidas, a melancolia d'aquelles muros, desbotando-as em
flor, fanava-as logo? O segredo não transpirou dos labios gelados das
victimas; mas sabia-se que os sorrisos do amor nunca lhes tinham
alegrado a vida. Desceram ao sepulcro, tristes e silenciosas como
existiam d'esde o dia em que haviam entrado aquellas sombrias portas. D.
Sueiro não soltára um suspiro! Se uma lagrima congelada n'aquelle
coração de marmore veio tremer na palpebra, essa lagrima fundia-se
queimada pelo orgulho. O povo accusava-o. A nodoa do homicida
estampava-se na fronte maldicta. O crime das tres esposas fôra a
esterilidade. O ferro, ou o veneno, rompera o laço conjugal. A sepultura
quebrára o vinculo apertado no altar! Era calumnia? Era verdade? Quem
sabe! Mas as noites de Sueiro Lopes podiam espantar os mais ousados.