A CAMISA DO NOIVADO

I

Assi que bem podem dizer deste rei D. Pedro, que nom sairom em seu

tempo certos os ditoos de Solon, filosopho, e d'outros, alguns dos

quaes disserom, que as Leis e justiça erom como teias de aranha nas

quaes os mosquitos pequenos, caindo, são reteudos e morrem em ella,

e as moscas grandes e que som mais rijas, jazendo em ellas rompem-as

e vão-se.

Fernão Lopes. Chron. de El-rey D. Pedro. Cap. IX.

Houve tempo em que o monte hoje esquecido de Algoço, na provincia de

Traz-os-Montes, erguia a cabeça soberba acima dos outros logares. As

muralhas de cantaria grossa e as torres quadrangulares do antigo

castello, debruçadas sobre um precipicio despenhado, concordavam com a

melancolia do sitio e com as sombrias tradições, de que as memorias do

povo o entristeciam. Dos altos eirados, como do cimo de um ninho de

aguias, a vista, relanceando, abraçava toda a campina, mosqueada aqui de

arvoredos e soutos, rasa de urzes e charnecas além, e empolada mais

adiante em collinas, que ligadas, e mais ou menos suaves, se seguiam até

beijarem o cinto de cabeços alpestres, ultima barreira dos horisontes.

Ao sopé da montanha, aonde se abria o valle mais fundo, estrepitava uma

torrente. Era o Angueira bramindo entalado na bronca penedia do leito.

Mais ao longe, na coroa dos cerros, os pinheiros meneavam as copas

verde-tristes, e os ciprestes solitarios balouçavam ao vento as pontas

esguias. Por ultimo, ao largo, já quasi aonde não enxergavam os olhos,

recortavam-se de um lado os topes cinzentos da serra de Seabra na

fronteira castelhana, e do outro as cristas dentadas das alturas de

Nogueira, toucadas de gelos eternos.

De tarde, quando começava a escurecer, o nevoeiro, trepando das margens

do rio em cóllos deseguaes, enroscava-se como fumo nas quebradas, e

envolvia n'uma cortina de vapores os mais elevados cumes. Este veu

caprichoso, cujas dobras sacudia a briza, ora se despregava, deixando

entrever confusamente os vultos, ora condensado cerrava tudo em volta do

solar.

Affirmavam os velhos, que as horas de crepusculo e de nebrina eram

tambem as horas dos feitiços. Uma princeza encantada junto da fonte de

S. João guardava os thesouros enterrados de certo magico. Linda como as

estrellas, a maldade do encantador condemnara-a a arrastar-se todo o

anno em figura de serpente. Só na vespera do festejado santo, á meia

noite, quando as follias riam mais alegres na aldeia, é que o fado mau

se quebrava até ao alvorecer. Mal repicava a sineta do campanario, a

moura, banhando-se tres vezes na ribeira, e depondo sobre uma penha as

escamas luzentes, volvia ao antigo ser, resplandecendo n'ella a

formosura rara de uma belleza admiravel.

Assim a tinham visto alguns mais felizes assentada debaixo dos velhos e

copados ulmeiros á beira do tanque, meiga, contemplativa, e vestida de

branco, desnastrando as tranças com um pente de ouro, e cantando aos

espiritos do ar com tão maviosa voz, que se cortava o coração de a

ouvir.

Accrescentavam ainda, que da aldeia alguem a vira já inclinada sobre o

espelho da fonte, caindo-lhe as lagrimas em fio na agua. Uma corsa da

côr da açucena, esbelta, e veloz como a seta, acompanhava-a. Se áquella

hora qualquer lograsse fallar á moura antes de tornar á fórma de

serpente, alcançaria da bella captiva, que era fada, as primeiras tres

cousas que lhe pedisse; mas os acasos ditosos são raros, e em cem annos

pelo menos não havia lembrança de nenhum. A corsa velava, ao menor ruido

batia os pés, e desatava a carreira, e n'um instante desapparecia tudo,

como sonho, sem outro signal mais, do que certo fervor ligeiro nas

aguas, e uma leve nebrina por entre as arvores.

Contos e Lendas · 第 21 / 38 题