III

--Com que então solto anda o demonio por estes palacios confusos, e

afllictos nos vemos com as suas diabruras, Brizida de Souza!?.. Muito me

contam! Mau é isso!... E vossê que diz, Romão Pires? Parece ainda mais

pasmado do que esta boa velha!... Vamos lá, sr. Antonio Rodrigues,

diga-me: aonde é o quartel general de Belzebut? Ha de saber de certo. É

de casa!

--Eu, sr. fr. João!... Sei só que não se póde parar aqui da meia noite

em diante!..

--Ah! sabe isso!?... Ja não é pouco! Pois eu lhe digo: cuidei que sabia

mais. Acho-o tão roliço e anafado, que vejo que engorda com os sustos.

--O sr. Fr. João gosta de brincar, mas em passando uma noite aqui!...

--Ai, meu Jesus da minha alma! Anjo bento de Nossa Senhora

Apparecida!... É da gente botar a fugir, ou de perder o juizo! exclamou

a sr.ª Brizida, pondo as mãos.

--Então o sr. Antonio Rodrigues crê que esta noite haverá ensaio geral

de Satanaz e da sua côrte, para festejarem a minha chegada?... Muito

bem! Cá estamos. _Cor contrictum et humiliatum deus nom despiciet!_

Pelejaremos com as armas espirituaes, que são as melhores, e com as

temporaes, que tambem servem em certas occasiões! Mas como vamos de

ceia?.. No barco o mau tempo fez-nos jejuar, e sinto-me capaz de tragar

um carneiro assado! E o vinho, aquelle bom vinho de 1655, ainda haverá

por cá uma gota d'elle? Ha de haver. O sr. Antonio Rodrigues, o melhor

copo de Tancos e seus arredores, aposto que não está desprovido de

munições de guerra?

Antonio sorriu e coçou a nuca.

--A ceia está ao lume, e não se demora tres credos. Quanto ao vinho....

esteja vossa reverendissima descansado.

--Sempre estive. Diga-me, Brizida, achei muito pallida a sr.ª D. Maria.

Ella tem passado peior?...

--Não, sr.! Peior não. Mas, com o susto d'estas noites sem somno, a

minha rica menina tem perdido as côres. Ella é tão delicadinha, tão

fraca!.. Ó sr. fr. João, a menina não podia ler um nadinha menos, mais o

sr. D. Pedro, e respirar mais algum ar em Lisboa?

--Não pode, não senhor!... acudiu o frade em voz de trovão. Meus

sobrinhos não se educam para espantalhos de sala!... E vossê é muito

atrevida em se metter a dar conselhos aonde a não chamam!...

--Ai doce Jesus do meu coração! Que disse eu para ouvir uma repostada

assim?!.. Sabe que mais, sr. fr. João? Não sou moura, nem perra, nem

captiva. Pão em toda a parte se come; e se não fosse o amor dos meus

meninos, por esta (e beijou os polegares em cruz) que não aturava uma

hora mais n'esta casa!

--Está bom, Brizida de Souza, está bom! Não se inflamme. Sabe que a

estimo, que todos em casa lhe queremos muito.... mas não me toque n'essa

córda. Sei que me acusam de apoquentar os pequenos com os estudos, e que

elles não teem uma tosse, uma febrita, de que se não torne logo a culpa

aos meus livros!...

--«Vale mais asno vivo, do que doutor morto!» resmungou a velha ainda

irada e incorregivel.

--Mas eu é que não quero na minha familia asnos.... vivos, ou mortos,

mulher!--bradou o frade fazendo-se côr de purpura e sorvendo duas

pitadas com o ruido de um furacão..--Safa! Vossê é capaz de fazer perder

a paciencia ao proprio Job!... Bem! Não fallemos mais n'isto, e não faça

caso dos meus repentes.... Sabe que não sou tão mau como pareço e que

trago sempre no coração os meus dois rapazes...

--Sei! Sei! Por isso digo a todos: o sr. fr. João berra, esbraceja, é um

destemperado, mas passa-lhe logo. Cão que ladra não morde. Livre-nos

Deus de uns sonsinhos que não quebram um prato, mas que ferram o dente

calados....

--Obrigado pelo elogio!... ou antes pela boa intenção. Chame os

pequenos. A ceia ha de estar na mesa; e protesto que me atiro a ella

como Santiago aos mouros!.. Vamos.

A ceia correu farta e alegre, e Antonio Rodrigues foi homem de palavra,

regalando o hospede com algumas garrafas de vinho maduro, que F. João

proclamou rival do melhor que se podesse beber á meza de el-rei. As

proezas gastronomicas do erudito dominicano tinham assombrado o proprio

feitor, cujo estomago insondavel sepultava sem incommodo alimentos de

todas as qualidades, e se carregava de quantidades que eram o espanto e

maravilha dos que assistiam ás suas repetidas campanhas pantagruelicas.

D'esta reputação merecida Antonio Rodrigues viu-se obrigado a arrear

bandeiras. O padre mestre não comia, devorava, não bebia, absorvia!

Regando de copiosas libações cada iguaria rustica, absolvendo as

indigestas com um exorcismo culinario, fazendo desaparecer do prato as

menos pesadas com milagrosa rapidez, dir-se-hia que a fome iberica e

peninsular, a fome de dentes caninos e apetite insaciavel, tomára a

figura corpulenta d'aquelle frade, para realisar em Tancos uma

verdadeira razzia. Tudo tem de acabar, porém, e Fr. João, exalando um

suspiro, e cruzando as mãos sobre o volumoso ventre, deu a empreza por

concluida, murmurando com os olhos meio fechados, e a voz ainda

suffocada do esforço: _Deus nobis hæc otia fecit!_

O reverendo, na meia somnolencia em que se deixou ficar, recostado no

espaldar de couro da vasta poltrona, com as faces afogueadas, e o

barretinho de seda preta derrubado sobre a orelha esquerda, não

offerecia de certo a imagem dos piedosos e extenuados monges, que em

epochas de mais fé edificavam os fieis com o exemplo de sua vida frugal

e contricta. Parecia mais um hippopotamo encalhado, do que um devoto

filho de S. Domingos. Os instinctos animaes prevaleciam, e a fadiga de

uma digestão laboriosa fazia arfar aquella machina de mastigação

continua. D. Pedro e D. Maria contemplavam o tio com a admiração sincera

de creaturas delicadas, que semelhantes excessos não só confundem, mas

atterram. Brizida persignava-se e enfiava os burgalhos do seu rozario em

oração atribulada, esperando ver desabar de um momento para outro o

padre coloçal fulminado por um ataque apopletico. Romão Pires ainda não

podera articular palavra, embuxado com a vista da voracidade incrivel do

irmão do seu amo. Antonio Rodrigues, cujos olhinhos matreiros semelhavam

no brilho duas scentelhas, desfazia a nuca raspando-a desesperadamente

com a unha, e dizia comsigo, que o frade, medindo as forças pela

alimentação, devia prostrar um touro com um murro, e abrir um tigre em

dous, como o faria qualquer mastim faminto ao gato descuidado, que lhe

caisse debaixo das prezas.

--_Deus nobis hæc otia fecit!_ tornou a repetir Fr. João depois de uma

pausa de alguns minutos, recuperando a costumada viveza e

agilidade.--Podemos dizer com verdade que ceiamos como uns padres!..

Minha sobrinha! Não gostei de a ver tão triste. Que nuvem pesa sobre

esse coração? São receios, ou saudades?!.. Socegue que o hade ver são e

escorreito....

--Quem, meu tio? atalhou a donzella distrahida.

--Pois quem hade ser senão aquelle cavalleiro andante que se despedio de

nós e que hade voltar um dia d'estes coberto de louros.... Entendeu-me

agora?

--Oh, meu tio!... acudio ella fazendo-se vermelha como uma roza.

--Está bom! Está bom! Não digo mais nada.... Romão Pires sabe que os

castelhanos tomaram Evora, e que a estas horas hão de estar as mãos com

o nosso exercito?.. O que diz vossa sapiencia?.. Quem vence?!..

--Essa é boa, sr. padre mestre! Quem deve vencer! O sr. conde de Villa

Flor.

--Deus o ouça! Bom é ter fé!.. Mas!--E a larga fronte do frade

enrrugou-se aprehensiva, em quanto os sobrolhos descahiram a ponto de

lhe cobrirem quasi as palpebras superiores--_Deus super omnia_!

murmurou.

Seguiram-se alguns instantes de silencio. De repente a porta abriu-se

com estrondo, e a longa, a defecada pessoa de Pedro Lavareda entrou

impetuosamente pelo aposento, com os olhos espantados, as faces

contraidas, e os cabellos ruivos espetados, representando a imagem viva

do terror e da consternação.

--Os castelhanos!... Os castelhanos!... Elles ahi vem!...

A esta voz de pavor, e de immenso pavor, todos se acharam de pé, não

menos assombrados do que parecia estar o nuncio da nova atterradora.

--Os castelhanos!?.. gritou Fr. João, saltando da cadeira e empunhando

machinalmente um bastão enorme, especie de clava, que o acaso lhe

mostrou encostado a um canto.

--Os cas... te... lha... nos! gemeu Brizida, faltando-lhe os joelhos e

erguendo as mãos.

--Os castelhanos?! exclamou Antonio Rodrigues, arrancando da cinta a

longa navalha de ponta e de mola e floreando-a como uma espada, em

quanto Romão Pires sacudia da bainha a durindana decrepita e preguiçosa.

D. Maria, branca de cêra e silenciosa, encostou-se á mesa para não cair.

D. Pedro, pelo contrario, com o rosto mais animado, os olhos reluzentes,

e a fronte levantada, apertou o punho da pequena espada de côrte, e deu

alguns passos como se quizesse sair ao encontro do perigo.

--Os castelhanos?! tornou a bradar Fr. João. Ás armas! sr. Antonio

Rodrigues chame os criados!... Façamos de Tancos e de Almourol uma

segunda Aljubarrota!...

Dizendo isto limpava a testa inundada de suor, e fulo de raiva e de

impaciencia batia o pé como o corsel insofrido escarva o chão desejoso

de soltar a carreira.

--Mas não seria bom, meu tio, sabermos primeiro o que ha, quem deu a

noticia, e aonde estão os inimigos? observou D. Pedro em voz mansa e com

extrema serenidade.

--_Do manus!_ _Rem acu tetegiste, puer!_[4] gritou o frade sentando-se

commovido e ainda tremulo. Façâmos conselho! Sr. Antonio Rodrigues, em

primeiro logar: quem é e como se chama este correio de más novas?..

--É meu genro e meu sobrinho. Chama-se Pedro Lavareda.

--Ah! Ah!. Pedro Lavareda!?. Nome incendiario e perigoso em pessoa mais

secca do que um cavaco!.. Mas vamos ao que importa. Chegue á falla o sr.

Pedro.... Lavareda! Quem lhe deu a má noticia que nos trouxe?...

--Um almocreve do Crato, que saiu de lá a bom fugir!...

--E que disse o almocreve?...

--Que os nossos foram derrotados, que ficaram todos ou quasi todos no

campo, e que as guardas avançadas de D. João de Austria estavam a entrar

no Crato!...

--Ah! Parece-me carnificina de mais!.. E aonde se deu a batalha?

--Não m'o soube dizer.

--Hum! E o seu almocreve aonde está?...

--Partiu, caminho de Lisboa.

--Oh! E não sabe mais nada?

--Mais nada, sr. padre mestre.

--Pois sr. Pedro.... Lavareda, o seu nome queima!.. Quer um conselho de

amigo?...

--Se vossa reverendissima tiver a caridade de m'o dar!..

--Tenho sim, senhor. Mande passear o seu almocreve, durma sobre o caso,

como nós vamos dormir, e creia que amanhã acorda convencido de que

engulio uma peta mais comprida do que a sua pessoa, o que já não é

pouco.

Os olhos felinos de Pedro, se fossem punhaes, teriam varado o frade, mas

como o não eram, contentaram-se com a expressão humilde e hypocrita de

uma annuencia servil, ao passo que os labios franzidos arremedavam

soffrivelmente um sorriso boçal.

--_Macte puer!_ gritou Fr. João, batendo no hombro de D. Pedro. Tiveste

mais juizo tu só, do que nós todos!... Isto é mentira e mentira mal

armada. Os hespanhoes no Crato!... Uma batalha sem logar sabido!... Um

almocreve invisivel!... Meninos, soceguem! Tia Brizida, alma até

Almeida! Romão Pires, enfie-me na baínha esse eterno chifarote, espanto

e censura viva das espadas de hoje!...

--Então vossa reverendissima já não quer que ponha de aviso os criados?

disse Antonio Rodrigues, que tivera tempo de trocar algumas palavras com

o genro, colloquio, que apesar de curto, não escapara a Fr. João.

--Não, senhor. Deixe-os descansados! Bem bastam logo as almas do outro

mundo!... Sabe que mais? Sinto-me moido, e uma boa cama depois de uma

boa ceia é o melhor remedio para estas molestias. Aonde é o meu quarto?

O feitor esgueirou um volver de olhos interrogador ao sobrinho, que lhe

respondeu com um aceno quasi imperceptivel de cabeça, e, pegando em um

maciço castiçal de prata denegrido, precedeu a especie de procissão de

toda a familia até ao aposento, aonde o douto dominicano havia de passar

a noute. A porta abria-se no topo do comprido corredor do centro; a

camara de D. Pedro ficava-lhe á esquerda, e o pequeno camarim de Romão

Pires á direita. Mettiam-se de permeio dous quartos fechados, e

seguia-se a sala aonde D. Maria dormia, tendo ao pé o leito de Brizida

de Sousa. O aposento, aonde Antonio Rodrigues conduzia Fr. João, nada

inculcava de notavel. Era uma casa vasta, de tres janellas, duas de

peitos e uma sacada, cujas paredes abertas em partes conservavam ainda a

par de largos pedaços das colgaduras de couro, que em melhores dias as

tinham ornado, altos e grandes armarios de pau santo. Os tectos altos e

enegrecidos e o pavimento carunchoso, gemendo e estalando com o peso dos

passos, atestavam a velhice e o desamparo. Um leito antigo, enorme, com

sobreceu e cortinas out'rora verdes, um velador de pau santo arruinado,

e um contador, ainda mais antigo, completavam com tres, ou quatro

cadeiras coxas dos pés, ou mutiladas dos braços, a mobilia nada commoda,

nem opulenta. Cousa singular! N'este quarto, em que a destruição minava,

e esfarelava tudo, as unicas cousas intactas e bem conservadas eram

alguns paineis grandes, retratos de corpo inteiro de guerreiros, damas,

e monges, pintados a oleo, e mettidos em soberbas molduras de carvalho,

lavradas de talha alta.

O padre mestre rodeou com os olhos toda a casa, e perguntou,

sorrindo-se, ao feitor, se ella passava por ser tambem vexada pelas

almas do outro mundo. Antonio Rodrigues abaixou a sua immensa e redonda

cabeça, e Brizida benzeu-se devotamente.

--Bem!... N'esse caso é preciso estar armado e vigilante para a batalha!

Se escaparmos aos castelhanos do Crato, não quero que acabemos nas

garras dos trasgos e diabretes de Tancos. Sr. Antonio Rodrigues, faz

favor! Mande trazer para aqui o meu alforge, que ficou na sala de

entrada. Sr. Pedro Lavareda (exquisito nome (!)) é bom caçador por

certo, e hade ter uma espingarda de mais. Eu tambem gosto de dar o meu

tiro de manhã cedo ás perdizes e ás calhandras por essa charneca. Conto

levantar-me com o sol, e dar um passeio pelas fazendas, para tornar a

ver estas terras em que não ponho os olhos ha um bom par de annos. Para

não ir com as mãos abanando levarei a sua espingarda... Não a heide

tratar mal, descanse!..

--Essa é boa, sr. Fr. João! A espingarda, eu, e tudo o que mandar estão

ás ordens de vossa reverendissima....

--Muito obrigado!... Olhe não se esqueça de me trazer um frasquinho de

polvora.

O tio e o sobrinho sairam, e o frade, chamando de parte a D. Pedro e a

Romão Pires, e pondo as mãos no hombro de cada um d'elles, disse-lhes em

voz baixa:

--_Latet anguis!_ Anda aqui novello! Este sr. Lavareda, com aquella face

compungida de Longuinhos, parece-me fino como um alambre... Os dous,

elle e Antonio Rodrigues, o tio e o sobrinho, estão conjurados contra

nós... Porquê e para quê? O tempo o dirá. Olho vivo, pois, Romão Pires!

Se lhe apparecer visão, ou espectro, receba-m'o ás cutiladas. Eu cá

espero a pé firme os que vierem visitar-me, e a agua benta, que lhes

deitar, hade chamuscal-os de véras.... Muito bem!.. Ahi vem os dous

velhacos.

De feito o sogro e o genro chegavam, um com o alforge, e o outro com a

espingarda e o frasco. Fr. João fallou um pedaço com elles, sempre com a

boca cheia de riso, pedio uma candeia grande para se allumiar até pela

manhã, e despediu-se de todos, sem dar mostras da menor desconfiança.

--O padre prega-t'a na menina do olho, sobrinho! Toma conta! disse

Antonio Rodrigues com o rosto carregado.

--Veremos, sr. meu tio.

--Guarda-te de elle te pôr as mãos. É capaz de estourar um boi.

--Melhor o fará Deus!

--Boas noutes.

--Santa Anna e minha madrinha Nossa Senhora o levem na sua Santa guarda.

--Sentido! Nem uma beliscadura!

Em quanto os dous honrados camponezes conversavam em voz baixa no fim do

corredor, Fr. João Coutinho passava revista minuciosa ao quarto e

parecia ficar inteirado de que as paredes e os armarios não encobriam

portas falsas, nem os sobrados alçapões. Abrindo o alforge depois, tirou

de dentro um par de pistolas. Verificou a carga de ambas, renovou as

escorvas, e passando á espingarda, carregou-a com todo o cuidado,

metteu-lhe uma bala, e pousou-a engatilhada á cabeceira da cama. Feito

isto foi á porta pé ante pé, descerrou-a de manso, e em passo subtil

encaminhou-se ao camarim de Romão Pires, aonde se demorou. Á

volta--davam onze horas--achou tudo como o deixara, rezou pelo seu

breviario, e despindo só o habito, abafou-se, conchegou as colchas,

recostou a cabeça, e, decorridos instantes, os roncos assobiados de um

somno profundo annunciavam que tinha esquecido os castelhanos do Crato,

as almas penadas, e os virtuosos manigrepos ruraes, cuja lealdade não

julgára de bons quilates.

Teria repousado duas horas, quando despertou sobresaltado. O leito,

pesado e maciço, arfava, balouçado como um barco sobre vagas inquietas.

O frade entre-abriu os olhos. A vela do castiçal estava em um terço, e a

luz da candeia brilhava esperta. O quarto continuava deserto e

silencioso. Entretanto o leito não parára de dansar, e, facto mais

singular ainda! a roupa da cama fugia de vagar, sem apparecer mão, ou

braço que lhe tocasse. Fr. João deixou-se ficar, tomando sómente uma

posição que lhe consentisse saltar ao chão de um pulo para travar a

lucta com os duendes e spectros. Tinha as duas pistolas sobre o velador

á cabeceira, e a espingarda ao pé. Entretanto, apesar de animoso e

resoluto, o suor principiava a borbolhar-lhe na testa, e um calefrio

suspeito a correr-lhe a espinha dorsal.

--Isto não vae bem! Queria antes ruido, grilhões arrastados.... a scena

do costume. Esta calada e estes empuchões invisiveis.... sinceramente

sería de fazer tremer as carnes, se eu não soubesse!... Credo!.. Lá se

foi a roupa até aos pés da cama.... Não gosto da graça! Que é aquillo?

As pinturas andam!?.. Oh!...

Aqui poz termo ao soliloquio, e sentando-se na cama, com os poucos

cabellos, que lhe restavam, erriçados em volta da calva, com as feições

contrahidas e a boca pasmada, cravou as pupilas cinzentas e dilatadas no

painel, que lhe ficava fronteiro e que representava um cavalleiro da

edade média coberto de toda a armadura, mas com o rosto sem viseira e os

olhos ameaçadores. Aquella figura severa, como que destacada da moldura,

parecia mover-se por si lenta e lugubremente. Fr. João quiz duvidar do

testemunho dos sentidos, e convencer-se de que era victima de uma

illusão. Esfregou as palpebras, beliscou os braços para despertar a

sensibilidade, mas o retrato continuava a adiantar-se, e um sorriso

tetrico como que lhe franzia os beiços. Ao mesmo tempo os ouvidos

afiados do dominicano colheram, não sem grande pavor, o som amortecido

de ferros que rangiam, e um gemido longo e soturno, semelhante ao gemido

doloroso de afflictivo estertor.

--_Vade retro, Satanaz!_ murmurou saindo da cama cheio de terror. _Ne

nos inducas in tentatione!_

Apenas soltára a meia voz estas palavras, um sopro, semelhante a furacão

medonho, engolphou-se pelo quarto, e apagou de golpe as duas luzes.

Fr. João recuou até ás cortinas do leito, e sentiu vergarem-lhe os

joelhos, e fugir-lhe o animo. Estendendo a mão nas trevas machinalmente,

encontrou uma das pistolas pousadas sobre o velador, e os dedos

apertaram tambem machinalmente a coronha.

De repente um clarão sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz

sulphurea, e no meio de chammas lividas, surgiu e cresceu uma forma

gigantesca envolta nas dobras de sudario branco e fluctuante. Esta

figura descommunal, cuja cabeça era uma caveira, lançava chispas pelas

cavidades dos olhos, e acenava com os longos ossos de esqueleto. O frade

tremeu, e acudiram-lhe aos labios descorados as preces e os exorcismos

recommendados pela igreja contra os maleficios infernaes. Mas as armas

espirituaes não produziram effeito, e, apesar da perturbação momentanea,

tornou a tomar corpo no seu espirito a ideia de que podia ser aquelle

espectaculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa fé.

Revestindo-se, pois, de valor e decisão, apontou rapidamente ao vulto,

que tinha diante, a pistola, que não largara da mão, e disparou-a.

Observando que o tiro não causára abalo no phantasma, pegou depois na

outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma

risada estridente respondeu ao estrondo da explosão, e o spectro,

mostrando as duas balas, arremessou-as ao chão, aonde o padre mestre as

ouviu rolar. Logo em seguida o clarão sumiu-se de subito, espessas

trevas envolveram o quarto. Fr. João, quasi desmaiado, caiu em uma das

cadeiras proximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os

membros, e paralisado na falla e nos movimentos pelo mais profundo

terror.

Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas não eram menos activas e

violentas nas camaras dos outros hospedes. Romão Pires, apenas se

deitára, e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco

em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio

apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe pelos pés o magro e aprumado corpo

até o estatelarem de pancada e sem dó nas taboas do sobrado. O grito de

mêdo e de dor, que soltára estremunhado, teve em resposta um côro de

risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado

de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabeça, e

saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para

bradar, era comida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de

empurrão em empurrão a levaram aos tombos até ao corredor, aonde veiu

encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma

das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem

accusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de

pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito

gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.

No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque

tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido,

sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na

intervenção dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute

sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado á leitura

de um livro novo, que em breve lhe absorveu a attenção. Feriu-lhe de

repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos

proximos. Apagando a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.

A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber

dous vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se

debruçava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava

d'elle sons roucos e medonhos, caiu ás pranchadas sobre o musico do

Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado,

principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal

derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do

agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no braço ao que pareceu,

deitou-o pela porta fóra como um vendaval, em quanto o companheiro

tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.

D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castiçal

e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no chão

um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com

lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de

amarello.

O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao

mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gôtas de

sangue, caidas no pavimento desde metade da casa até á porta,

provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e

assignalado. D. Pedro pegou no castiçal, e seguindo o rasto de sangue

pelo corredor, notou que parava no topo, aonde só existia uma parede

grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava

verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. Á

porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se

affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos

transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o

vocabulario de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a

volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, fallou-lhes,

animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de

Fr. João.

O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quasi exanime na

ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e

a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas

não se moveu.

D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir

palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo

triumphante não deixára despojos. Terminado o exame, poz o castiçal em

cima do velador, collocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para

junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo

silencioso, disse-lhe:

--Mas o que foi isto?!..

Fr. João respondeu com um suspiro, e, correu a mão pela testa ainda

inundada de suor.

--Estas pistolas disparadas, estas balas no chão!.. Não me dirá o que

succedeu?!...»

Outro suspiro mais alto.

--Por onde entraram elles?...

O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco,

meneou a cabeça com tristeza, fez um esforço para levantar meio corpo da

cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos

antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para elle.

--Ah!... Foi por esta porta?... observou o sobrinho, pegando no castiçal

e correndo a luz por todo o quadro de cima abaixo. De repente exclamou:

Olhe?!

--O que? disse o frade, pondo-se de pé, mas tão abatido e tremulo, como

se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.

--Venha meu tio, e veja!

De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um botão

debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo á pressão,

abriu-se lentamente.

--Ah!.. exclamou fr. João.

--Aqui tem a porta!... e o segredo de tudo.

--Velhacos! bramia o dominicano irritavel, recuperando repentinamente as

côres, a elasticidade dos membros, e a viveza dos olhos. Mas abaixando a

vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no chão, e uma nuvem

torrou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que

succedera e ouviu da boca do mancebo a historia da sua lucta com os

duendes. Fr. João ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um

immenso ponto de interrogação.

--Saiu d'aqui depois de carregar as armas?... perguntou D. Pedro.

--Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romão Pires.

--Foi o que bastou. Não mexeu na espingarda? Está certo?

--Como de te estar vendo.

--E metteu-lhe uma bala de calibre?

--Seguramente.

--Muito bem, quer vêr?

E D. Pedro, pegando na vareta, descarregou a arma, tirando as buxas e a

polvora. Da bala não achou noticia.

--Ah! tratantes!.. rugiu o frade, fechando os punhos, e rangendo os

dentes, plectorico de colera.

--Podiam atirar-lhe com tres balas aos pés em vez de duas! Tinham tido o

cuidado...

--De mas empalmar?! Sobrinho! Juro que hão de pagar-m'o caro!... Só

atazanados!

--Dá licença que lhe dê um conselho?...

--Dize, rapaz. Estás um homem, e tens mostrado valer mais, do que nós

todos.

--Se quer apanhar o rato na ratoeira, não faça bulha.

--Bem! Bem! _Do manus! Qui nescit dissimulare nescit regnare_, acudiu

fr. João, esfregando as mãos. Ah! patifes! O que elles se terão rido á

minha custa!...

--Deixe! Riram-se hoje? Amanhã chorarão! Bôas noites meu tio. Socegue,

que bem o precisa.

Contos e Lendas · 第 20 / 38 题