Em 1663 campearam ainda intactas as muralhas, as torres, e a cêrca
exterior da fortaleza reconstruida no anno de 1170 por D. Gualdim Paes,
defronte de Tancos.[2] Cinco seculos, passando por cima d'ellas, não
haviam desconjuntado as quadrellas gigantes, nem alluido o cimento
indestructivel, que mesmo ainda agora parecem desafiar a acção do tempo
e o braço infatigavel dos demolidores. A ordem do Templo, transferida de
Castro Marim para Thomar, a séde da sua victoriosa milicia, estendera
rapidamente pela Estremadura os membros robustos. Affonso I,
liberalisando-lhe doações e privilegios, e enriquecendo com largos
senhorios os monges soldados, confiára quasi exclusivamente ao seu valor
a guarda e defeza dos territorios conquistados n'ella. Ega e Soure,
Pombal e a Redinha hasteavam as cores do Templo. A Cardiga, Ceras, e
outras povoações, cobriam-se tambem com as dobras do famoso estandarte
bipartido[3]. As chaves das duas entradas da provincia estavam nas mãos
dos cavalleiros. Defronte da moderna Constança, na confluencia dos dois
rios, o castello do Zezere cortava o passo aos agarenos da Beira Baixa,
em quanto, surgindo do meio das aguas, o castello de Almourol fechava o
caminho aos walis do Alemtejo e da Andaluzia.
As ruinas, que vemos hoje debruçadas sobre o rio, contam aos que sabem
interrogal-as mais de uma pagina da epopeia portugueza. Assentada sobre
um ilheo quasi oval de rochedos sobrepostos, amontoados talvez ali
caprichosamente pelo impeto de violenta irrupção vulcanica, as elevadas
torres do velho castello, que as voltas do Tejo ora encobrem, ora deixam
descortinar de longe, erguem-se mutiladas e enegrecidas pelo halito
mirrador dos seculos. Grinaldas de heras penduram-se em festões das
ameias desmoronadas, ou se arraigam em tufos virentes nos intersticios
dos pannos rotos das muralhas. O arrojo d'aquelles penedos, tão
arremessados que o dedo de uma creança parece sufficiente para os fazer
escorregar com o muro que os corôa, para o leito do rio, espanta os
olhos sobresaltados d'aquelle equilibrio ousado e quasi milagroso.
Areias accumuladas, e alguma terra de alluvião formam o solo, aonde
cravam as raizes os choupos, os salgueiros e os chorões, cujos troncos
torcidos se penduram de cima das fragas até roçarem as aguas com as
ramas descabelladas. Piteiras enormes orlam em algumas partes os
penhascos aprumados, ou rebentam das fendas das rochas meio
precipitadas. Uma vegetação activa e luxuosa veste de verdura aquelle
cahos de moles immensas sustidas ha seculos no meio da ameaça constante
de uma quéda instantanea.
No anno em que passaram os successos, que refere esta veridica historia,
o aspecto do sitio era sim bronco e alpestre, como a natureza o formou,
mas a assolação não o havia visitado ainda, agravando-lhe a melancolia.
Do lado do occidente quatro torres circulares, levantadas como
sentinellas de granito a egual distancia umas das outras, alçavam as
frontes torvas e já tostadas do tempo. Entre a segunda e a terceira
rasgava-se a porta actualmente intransitavel do castello, com a sua
volta de ogiva e grossos batentes de castanho chapeado. No meio do
guerreiro edificio avultava a torre de menagem, e logo adiante, em curto
intervallo, outra quadrada tambem, com os eirados cingidos de ameias.
Uma janella ornada de lavores em ramos, aberta a dois terços da altura,
esclarecia os aposentos do segundo piso, em quanto da parte oriental
duas frestas do mesmo estyllo davam claridade á sala de armas. Cinco
torres guarneciam o lado do nascente. Ahi a muralha subia a grande
altura, acompanhando as sinuosidades do terreno. O caes ficava ao sul, e
o fosso natural, que rodeava os muros, agora cego de entulho, corria
profundo e despenhado. No interior da fortaleza, aonde tudo hoje são
ruinas e pedras soltas, enroscadas de ervas e de silvas, e aonde os
cactus silvestres brotam gigantescos, era o pateo espaçoso por onde se
entrava para os andares. Raras e esguias frestas allumiavam aquelles
aposentos, pouco espaçosos, mas enfeitados de altas e ricas laçarias. Em
1663 a obra da destruição principiava a annunciar-se apenas. Apesar de
nuas, as salas ainda conservavam sua bellesa severa, e nos eirados e
adarves, se não alvejava havia mais de tresentos annos o manto branco
dos templarios, se algumas heras, trepando, se balouçavam á mercê do
vento, e se as torres e muralhas mostravam já a côr adusta, que é para
os monumentos o que são as cãs nos velhos, um testemunho irrecusavel de
que viram e viveram muito, não se tinham esmorecido, comtudo, nem
apagado ainda nenhuns dos vestigios dos grandes dias de lucta. Almourol
no meio do Tejo, similhante a um titão com metade do corpo fóra das
aguas, ainda podia ameaçar forte e intacto, os que ousassem arriscar-se
ao alcance de seus tiros. Firme e inexpugnavel cuidava no vigor de sua
robusta velhice zombar dos seculos, como as creanças zombam dos annos,
bem alheio de suppor, que na transição da edade grave para a decrepidez
sua decadencia seria rapida, e que, espectro de granito, suas ruinas
diriam ás gerações indifferentes da nossa época, que eterno e grande só
é Deus!
Em uma das salas baixas da velha torre de menagem, toda de abobada, e
ornada de mobilia rustica, estavam assentados, um defronte do outro, os
dois ricassos da terra, ligados pelos vinculos do parentesco, e mais
ainda pelas raizes de interesses reciprocos. O feitor Antonio Rodrigues
ajudava piedosamente seu genro e consocio Pedro Lavareda a ingorgitar
copiosas libações de um vinho, que escaldaria outras goelas menos
estanhadas. Sobre a grande mesa de pau santo e pés torneados, que servia
de altar aos dois zelosos sacerdotes do Bacho d'aquelles contornos,
avultava um alentado cangirão de barro, bojudo, e cheio até á boca.
Principiára a anoutecer, e uma candeia enorme de tres bicos, similhante
a monstruoso aranhiço, allumiava a casa escassamente. Duas espingardas,
carregadas e engatilhadas, jaziam ao canto, promptas para servir á
primeira voz.
Antonio Rodrigues era corpulento, espadaúdo, e reforçado. Faces largas e
cheias, bastante roliças, pescoço curto e taurino, cabeça enterrada
entre os hombros, peito amplo e bombeado, e pernas grossas e firmes
denunciavam n'elle o vigor de um atheleta unido a uma saude
inexpugnavel. Inculcava apenas sessenta annos, mas os visinhos do seu
tempo punham-lhe mais dez sem receio de erro, e acertavam. Mas era uma
velhice verde e jovial, que não se inclinava ao peso dos annos, que o
trabalho não desfallecia, antes reanimava, e que promettia, assim viçosa
e robusta, chegar a um seculo completo, rindo-se dos catharros, dos
rheumatismos, e ainda mais da apoplexia fulminante prognosticada pelo
douto Esculapio, o licenceado de Tancos, seriamente amuado por nunca ter
de receitar nem um xarope áquelle cliente invulneravel ás chuvas, aos
frios, e a todas as temeridades, a que um mancebo se não atreveria
impunemente!
Antonio Rodrigues trajava á camponesa, com aceio, mas sem basofia. Gibão
e calças de baeta escura, carapuça de lã, e o inseparavel varapau
ferrado na ponta constituiam o uniforme do activo Triptolemo. Uma grenha
de cabellos grisalhos, crespos e bastos, descia a affrontar-lhe a testa,
pouco sulcada de rugas. O sorriso enroscava-se perenne nos beiços
grossos e córados. Conservava intactos ainda, e brancos de jaspe, como
os de um tubarão, todos os dentes. A barba baixava em andares sobre o
peito, e os olhos castanhos, pequenos, e maliciosos, afogados em
gordura, dir-se-hiam que espreitavam tudo, meio encobertos. A voz
aflautada causava espanto saindo d'aquelle corpo. Finalmente, o nariz
grosso e cravejado de botões vinosos, rubros como rubins, assumia
dimensões quasi phenomenaes. A expressão da phisionomia era dubia. O
observador no primeiro relancear apenas notaria a beatitude do comilão
repleto e do bebedor insaciavel. Attentando melhor, e, comparando o
olhar, o gesto, e o riso mudaria porem logo de conceito, divisando
debaixo d'aquella mascara de Sileno herculeo as feições moraes
significativas da astucia, do egoismo brutal e desentranhado, e de uma
cubiça incapaz pela avidez de transigir com a honra, com a consciencia e
com o dever.
Pedro Lavareda representava o antipoda de seu digno sogro e tio quanto
aos dotes physicos. Um hellenista contemplando-os, tomaria um pelo
alpha, e o outro pelo omega. O genro, magrissimo, quasi esqueleto,
assustava os que o viam com o receio de que um dia lhe saltassem os
ossos das tibias e dos femurs soltos das ligaduras. Braços de polipo,
terminados por mãos e dedos eternos, hombros agudos sobre os quaes o
fato dansava como posto em cima de um cabide, rosto comprido,
escaveirado, e macilento, acompanhado das melenas esguias de um cabello
ruivo e aguado, testa núa que chega quasi á nuca, peito e ventre
espalmados, olhos vesgos, tortos, encovados, mas vivos ou surrateiros,
boca rasgada quasi até ás orelhas, e beiços finos e desbotados,
compunham a lugubre, carrancuda, e exotica pessoa do lavrador mais
atilado, avarento e sem escrupulos d'aquellas immediações. Parecia fraco
e a desfazer-se; mas as pernas delgadas, como fusos, podiam andar
legoas, os braços escamados encobriam uma força alem do commum, e os
olhos vesgos só viam torto para os negocios alheios.
Retrato vivo do aspecto mortificado de um franciscano penitente, o
velhaco ria-se tanto para dentro como o feitor Antonio Rodrigues se ria
para fóra. Uzurario de nascença, hypocrita por indole e verdadeira
voragem de liquidos e solidos, digeria como um abestruz e bebia como um
areal. Quando conversava, sempre em fallas manças, sabia chamar a tempo
uns frouxos de tosse e umas lagrimas de defluxo, que o ajudavam muito a
engulir metade, e ás vezes duas terças-partes das palavras, e é inutil
accrescentar, que as palavras engulidas eram sempre as que o podiam
comprometter ou aproveitar aos outros. Quando o caso o requeria, Pedro
Lavareda, o valetudinario sadio, convertia-se n'uma cascata de prantos.
Tinha as glandulas lacrimaes devassas e chorava como um crocodilo. Ai
dos innocentes que se deixavam orvalhar e amolecer por elle!... Ficavam
quasi sempre sem camisa. No meio d'aquelle rosto afiado erguia-se um
promontorio immenso. Era o nariz adunco e aguçado na ponta, que descia
quasi a beijar o labio superior. Este nariz, delgado e membranoso,
rematava a semelhança que tinha aquella cara com o focinho da fuinha.
Esquecia notarmos que Antonio Rodrigues exercia com applauso geral as
funcções de procurador de dous conventos de freiras, de quatro
irmandades, e que seu genro accumulava com outros arrendamentos
lucrativos a arrematação dos dizimos e premicias da comarca.
--Os de Payo Pelle pagaram por fim? perguntou o feitor ao genro pousando
o caneco despejado em cima da mesa.
--Com lingua de palmo. Elles conhecem-me, sr. tio! respondeu Pedro
Lavareda com um sorriso avinagrado.
--Bem bom!... Sabes o que me dá cuidado agora, homem? É esta gente aqui
mettida. Tomara vel-os pelas costas.
--Pois acabe de os empurrar para a rua, que não deixam cá saudades!
redarguia o outro com meio sorriso acido.
--Isso é facil de dizer, mas... Ao cabo de tudo, Pedro, bem vês, os
donos da casa são elles!...
--Que vão comendo as rendas e que nos deixem. Tão más são ellas!...
--Hum! Podiam ser melhores... Esse é o meu receio. Trazemos isto muito
de rastos, Pedro, e alguma lingua ruim lh'o disse já ou lh'o ha de
dizer.
--Invejas! fallatorios!... acudiu o genro entre dous frouxos de tosse.
--Pois sim!... Olha, não seria melhor offerecermos um nadinha mais pelas
terras e ficarmos com ellas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a
castanha na boca uma d'estas manhãs?!
--Nanja eu, tio! Sangue ninguem m'o tira á boa feição, e o dinheiro é
sangue...
--Mas homem!?...
--Deixe lá, sr. sogro, não se metta a abelhudo aonde o não chamam, e
deixe ir a agua ao moinho. Já alguem fallou em lhe levantar a renda da
alcaidasia?...
--Não.
--Pois não faça andar o carro adiante dos bois, e coração á larga. O que
for soará.
Houve um minuto de pausa. Antonio Rodrigues coçava a nuca com o
indicador e o dedo médio da mão direita por baixo da carapuça, e rufava
sobre a taboa da meza com todos os dedos da mão esquerda. As roscas da
barba sumiam-se-lhe na golla alta do gibão, e os olhinhos, homisiados
entre as palpebras meio cerradas, luziam vivos e scintilantes como os do
gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apprehensivo
na apparencia, limpava os olhos chorosos com um quadrado de panno de
linho, em quanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mão raspava uma
nodoa conhecida e teimosa do calção sobre o joelho. Ambos meditavam e se
entendiam sem fallar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do
mocho de pinho em que se assentava, colheu o cangirão pelas azas,
sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dous canecos de
louça. Levou depois o seu á boca, encurvando lentamente o braço, e
despejou-o em poucos sorvos, emquanto o sobrinho, coleando primeiro a
lingua pelos beiços, libou com mais vagar e com gestos de amador
consumado o nectar, que espumava na grosseira taça.
--Rapaz, isto não vai bom!... tornou Antonio Rodrigues com um suspiro.
Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e cá sei os botões com que me
abotou-o. Esta gente de Lisboa aqui não gosto nada d'ella.
--Ora, tio deixe-se de scismas!... De que tem medo? A aya é uma tonta,
uma pêga douda. O escudeiro não passa de um espantalho de pardaes, e os
meninos.... leram tanto que tresleram. Mostre-lhes um campo de cevada
nascida de oito dias e verá se não lhe dizem que é trigo.
--Mas atraz da pêga e do espantalho tenho muito medo que venha o
milhafre!...
--Qual milhafre?!...
--O frade!... murmurou o feitor em voz abafada e com signaes de
verdadeiro susto.
--E então se vier?!... Lê no seu breviario! O Sr. Fr. João Coutinho sabe
muito de leis e de casos, mas de lavouras não creio...
--Nisso te enganas. É capaz de dar sota e az ao mais pintado!. Creou-se
no campo e administrou muito tempo os bens do convento.
--Ah! Ah!...
--E tenho meus longes de que, mais dia menos dia, ahi o temos pela prôa
com a Sr. D. Magdalena.
--Mau será!... rosnou entre dentes o sobrinho declarando com a unha do
polegar crua guerra a uma verruga, que lhe ornava a ponta do nariz. Máu
será, tio!.... Mas não havemos de perder o somno por isso. Dizia no
mosteiro, aonde me ensinaram, o padre mestre Fr. Hilario, que para todo
o genero de peccado deixou Deus remedio na sua egreja...
Houve nova pausa. Os dous olhavam um para o outro calados mas pouco
satisfeitos.
--Então que dizes, homem?!..
--Se o frade vier.... é pôl-o ao fresco, em vinte e quatro horas.
--Estás mangando, sobrinho?!.. Pôl-o ao fresco? O irmão da senhora, o
tio dos meninos?!...
--Tal e qual. Nem mais, nem menos!! Sacudil-o e depressa.
--Ora! Bugalhos, sr. meu genro!... Sacudil-o?!. Como?...
--Mettendo-lhe medo.
--Ao sr. Fr. João, que é rijo como ferro e valente como as armas?!.. Vai
dormir, Pedro, isso é somno.
--Sim sr., metter-lhe medo, porque não?...
--Com as almas do outro mundo, aposto, como tens feito á lambareira da
aya e ao nescio do escudeiro? atalhou Antonio Rodrigues com uma rizada
de escarneo.
--Com as almas do outro mundo, sim senhor!... Cuida que o frade não
foge?... Hade vel-o em camisa no pateo, mais branco do que os lençoes da
cama.
--Deixa-te de historias, Pedro!... As visões com o frade não pegam. O
que apanhas é algum tiro.... e olha que é caçador que não erra.
--Pois deixe-o ser. Fico por mim. Entregue-me o negocio, e verá....
--Emfim, lá sabes as linhas com que te coses... Mas toma sentido comtigo!
O frade é ladino, sei que vem desconfiado de nós, e tenho muito amor á
pelle.
--Socegue. Eu tambem não tenho odio á minha. Diga-me: se Fr. João vier,
aonde o mette?
--Aonde o metto?!.. Porquê?
--Preciso saber.
--No quarto verde talvez...
--Nada! Dê-lhe o quarto dos armarios.
--Mas!...
Houve outra pausa. O feitor olhava suspenso coçando sempre a nuca. O
genro ria-se para dentro, raspando a nodoa do calção.
--Tu não me dirás o que intentas fazer, Pedro? Tenho medo de ti e do teu
risinho.
--Pois não tenha. Hade tudo correr como um brinco, louvado Deus e sua
mãe Maria Santissima.
--Mau!... Se me resmungas nomes de santos temos maroteira e grande!...
Pedro!... Toma cuidado! Nem uma beliscadura, nem uma picada de agulha no
sr. Fr. João.... Não é por elle, é por mim. Nada de graças pesadas! Não
me quero ver na cadeia comido de pés e mãos. Leve antes a bréca as
terras.
--Ai, tio!.. Não se faça teimoso, e não esteja calumniando as minhas
intenções.. Valha-me a Senhora Sant'Anna.
--Mau! Tornas aos santos!... Que é isto?...
--São passos.
--E vozes... Chega á fresta e vê!
Pedro Lavareda obedeceu.
Um vento rijo e chuveirões puxados com força bateram-lhe na cara, apenas
abriu o pesado caixilho, e arriscou a cabeça para espreitar o que se
passava no rio. O devoto personagem recolheu á pressa o interminavel e
esganado pescoço, rosnou duas interjeições apimentadas, e, enrolando um
lenço por cima da gola do gibão, tornou a affrontar, porem mais abrigado
d'esta vez da furia do aguaceiro. Decorridos instantes de attenta
observação, metteu-se para dentro, cerrou o caixilho, e veiu sentar-se
defronte do tio, com os sobr'olhos e a bocca franzidos. Trazia estampada
no afunilado rosto uma verdadeira elegia.
--Então?!... disse o feitor já sobresaltado com a mimica tetrica do
sobrinho.
--Fallai no mau, apparelhai o pau!... É o frade!..
--Hein!? bradou Antonio Rodrigues, pondo-se de pé de um pulo e
enterrando a carapuça até aos hombros. O frade?!.
--Em corpo e alma! Escripto e pintado!... Tem razão, tio. Anda mouro na
costa.
--Vem a Senhora D. Magdalena?...
--Não. Vem elle só. Isto leva agua no bico, sr. meu sogro.
--Não te dizia eu, Pedro?... E agora?...
--O dito, dito. Contas com Jorge e Jorge na rua.
--Sabes que mais, homem? Vai-me cheirando tudo isto muito a chamusco.
Não gosto nada da vinda do sr. Fr. João assim com este segredo....
Receio....
--_Valaverunt galhetas_, sr. meu tio! como nós diziamos no convento!...
O caso está feio, e d'esta vez a raposa bem podia ficar sem rabo!..
melhor, porém, o ha de fazer Deus e sua Mãe Maria Santissima, minha
madrinha!... Primeiro do que tudo enxuguemos outro caneco. Este bom
vinho alegra a vida e faz crear alma nova. Bom! Agora, a pé! Vá receber
o sr. Fr. João, que ha de vir cansado e aborrecido da jornada.
--E tu?...
--Eu... Fico para pôr em ordem umas cousitas. Escute, meu tio! Dê ao sr.
Fr. João o quarto dos armarios. É essencial.
--Porquê?...
--Pela bocca morre o peixe!... Depois verá. Adeus! Não faça esperar sua
reverendissima e encommende-me nas suas orações á minha devota Senhora
Santa Anna...
--Mau!... Ahi tornas tu com a ladainha dos santos!... Pedro!... Olha
lá?.. Cuidado com a pelle do sr. Fr. João!
--Vá descansado, tio, não hade haver novidade. Vem ceiar?
--Venho.
--Até logo.
E os dous consocios e parentes separaram-se.