CONTO DO SECULO XVII

I

--Ai, Virgem Santissima! Não ganha a gente para sustos! Não bastava esta

praga dos castelhanos, que vem ahi, dizem, um poder do mundo d'elles

pelo Alemtejo abaixo?! Ó sr. Romão Pires, d'onde elles estão aqui á

nossa quinta é muito longe?

--Não é nada perto, não, sr.ª Brizida de Sousa! Mas lá diz o adagio: aos

que muito correm quebram-se-lhes as pernas... Socegue. O sr. conde de

Villa Flôr anda com elles a contas e não é para graças.

--O sr. conde é muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi

dizer... Mas se elle ficasse mal agora?

--Ficavamos nós peior, isso é verdade... Melhor o hade fazer Deus. Oh,

se meu senhor e amo fosse vivo!... Não estava eu aqui posto ao canto

como um estafermo!...

--Ora não diga isso por quem é. O sr. Romão já andou demais por essas

guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O

que seria de mim sósinha n'estes palacios confusos, sem pregar olho ha

umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro

mundo! Ó sr. Romão Pires, diga-me: o demonio--salva tal logar--terá

poder de subverter comsigo no inferno corpo e alma uma creatura

baptisada e remida nas santas aguas?...

--Conforme! Se não estiver em estado de graça!...

--Credo! S. Braz e S. João! Meus ricos santos da minha alma, valei-me!

Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericordia!... Sabe que mais?

Quero que me escreva já e já á sr.ª D. Magdalena, contando-lhe tudo

isto. Ella não póde consentir que a sua criada velha uma noite d'estas

desappareça nas garras do inimigo tentador do genero humano. Jesus!...

Diga-lhe que nos venha livrar d'este inferno, senão... eu cá por mim

fujo! Primeiro a salvação da minha alma...

--Tambem eu não gosto nada d'isto, sr.ª Brizida. Mas animo forte e

coração á larga. O demonio parece que entrou de semana comnosco, e, pelo

que vejo, não leva geito de nos querer largar. Desde que viemos para

esta quinta...

--Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brizida de Sousa me não

chamasse eu, se depois da primeira noite não mettesse um bom par de

legoas entre o demonio e quem se présa de christã baptisada na freguezia

de Santa Catharina de Lisboa, nascida de paes catholicos, tementes a

Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho á

minha menina, coitadinha, tudo me faz supportar com paciencia... Espere!

Não ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?

--Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no chão lá em cima. De dia não é

que elles fazem das suas...

--É verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de

noites, Senhor Deus de misericordia! Parece que nunca a gente lhes vê o

fim. E que me diz então a estas despedidas de maio e entradas de

junho?!...

--Não são de convidar, sr.ª Brizida! Velho sou, mas não me lembro de

anno mais carrancudo. Chuvas, relampagos, trovões e ventanias que levam

tudo pelos ares! Safa!

--E nós, coitados, n'este ermo, n'este desterro! Ai minha Senhora Santa

Barbara! se a tua serva e devota não deixa aqui os ossos, grande milagre

será. Escute!... Agora não foi engano!... Não ouviu risadas lá em cima

no vão das casas?

--Não é nada. São os rapazes do feitor jogando as escondidas.

--Pois, sr. Romão Pires, affirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa,

quando minha senhora D. Magdalena me chamou e me disse: «Brizida, a sua

menina anda fraquinha e enfezada, e o irmão tambem, os phisicos não

acertam com o remedio, e fr. João entende que estas tosses do peito,

assim teimosas, não se despegam senão com mudança de ares. Bem sabe, não

posso sair da cidade por estes dias mais chegados--e é assim, coitada,

por causa da sua demanda--acompanhe-me os meninos, e conte que fico tão

socegada como se eu mesma fosse...» Quando me disse isto, e eu lhe

beijei as mãos pela mercê, se podesse adivinhar o que nos esperava aqui,

asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem

quizesse... Isto não é palacio, nem quinta, é um verdadeiro inferno!

Deus salve a minha alma!

--A sr.ª Brizida não diz o que sente. Vindo a sr.ª D. Maria e o sr. D.

Pedro, ninguem a arrancava de ao pé d'elles.

--Tem razão. Ninguem! A ella creei-a, mamou o meu leite, e sua mãe não

lhe quer mais, não, deixe-me ter esta presumpção... A elle vi-o nascer,

e os primeiros braços, que o embalaram, foram estes que hade comer a

terra. Tão pequeninos os conheci, e tão formosos e crescidos os vejo

agora, que não me posso costumar a crer, que um dia hei de ter o gosto

de os abraçar homens!... Quando me ponho a olhar para elles, parece-me

ás vezes que não póde ser, e que tudo isto é sonho...

--Então!? Elles fazem-se homens, e nós fazemo-nos velhos. Não ha

remedio. O mundo vae assim.

--Bem sei. Mas, não os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que

é da edade e do muito crescer, e que hão de encorpar depois. Deus

queira! São os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos

meus meninos. A sr.ª D. Maria manhãs e tardes inteiras á almofada,

bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeição!... Que

dedinhos de fada aquelles! E o sr. D. Pedro? É mesmo uma dôr de alma

vel-o dia e noite amarrado á banca dos livros, e que livros! Latins,

gregos, e não sei que outras trapalhadas de _retroricas_... Quem tem a

culpa de tudo, o culpado de tudo o que póde acontecer, é o teimoso do

sr. fr. João, que á fina força quer o sobrinho sabio. Depois que

falleceu o pae, (Deus o tenha em gloria!) não se nos tira de casa, e

tanto ha de quebrar-me a cabeça ao meu menino, que um dia treslê. Pois

olhe, sr. Romão Pires, vá com o que lhe diz uma ruim cabeça: mais vale

asno vivo, que doutor morto.

--O sr. fr. João, atalhou Romão Pires, aproveitando uma pausa da sr.ª

Brizida, é muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido

um segundo pae para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes

merecimentos. Não lh'o levemos a mal. Sangue illustre e bens da fortuna

possuem elles...

--Por isso mesmo! Não precisava atanazarmos tanto! Não m'os deixa

respirar. Mestres d'isto, mestres d'aquillo, musica para aqui, dansa

para acolá... latins, _pholosophias_, ai, que barafunda! Nem eu sei como

as pobres creanças não teem endoudecido. Cá por mim já o miolo ha muito

tempo me tinha dado volta, tão certo como chamar-me eu Brizida de Sousa.

--Ninguem aprende sem trabalho. O sr. fr. João não é nenhum nescio...

--Nem eu lh'o chamo. Deus me livre. Nescio?... No convento e na côrte

dizem que não ha outro doutor como elle.

--Pois então deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos são a luz

dos seus olhos, e depois tão meigos, tão applicados...

--De mais, de mais, para a edade, sr. Romão Pires. Assustam-me. Não

parecem d'este mundo, nem d'este seculo. O sr. fr. João é muito

extremoso, e o que faz é por desejar o seu bem d'elles, mas, graças a

Deus, a casa é rica e não era preciso amofinar-me tanto os meus

meninos...

O dialogo de que acabamos de ser fieis e escrupulosos expositores, era

travado em uma antiga sala, vasta e pouco allumiada por estreitas

janellas, cujas vidraças de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes

em reboco pendiam farrapos soltos dos pannos, que as tinham forrado. Em

outras partes as colgaduras adheriam ainda aos filetes, e representavam

em suas pinturas desvanecidas figuras descommunaes, debaixo de arvores

anãs, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tectos, cujas vigas

lavradas inculcavam a paciencia de um artifice do XV seculo, subiam a

grande altura, enegrecidos pelo fumo da immensa chaminé de pedra, ornada

de leões de marmore nas bases, e rematada com um brazão de relevo alto,

orlado de ramos de silvas e amoras.

O sr. Romão Pires, escudeiro de quasi setenta annos de edade, enxuto de

carnes, e amarello como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma

das faias mais direitas da quinta. Nascêra e fôra creado desde a

infancia n'aquella casa, e não conhecera nunca outros amos senão D.

Vasco, e D. Magdalena. Acompanhára seu senhor, assim lhe chamou sempre,

em todas as campanhas da guerra da restauração, pelejando esforçadamente

ao lado d'elle, e assistindo aos cercos e batalhas mais notaveis desde

1642. A historia dos perigos, em que se tinha achado, e a narração das

proezas de seu amo, enfeitada de episodios e commentarios, serviam de

saboroso pasto aos serões da familia, obrigada a engulir como artigos de

fé todas as aventuras da nova «Tavola Redonda,» que a imaginação do

escudeiro entretecia na tela interminavel de sua cansativa Illiada.

A sr.ª Brizida de Sousa, que tão avexada ouvimos queixar-se das

apparições, era matrona de mais de cincoenta annos. Baixa, roliça e

risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de

duas maçans rainetas. As feições, pouco accentuadas, e quasi infantis,

sumiam-se entre as roscas das nedias bochechas, e os seus ares beatos

brigavam na candura affectada com uma larga experiencia da vida. Toda

aquella pequena e buliçosa matrona respirava aceio, cuidado, devoção, e

azafama. Collaça de D. Magdalena, e casada com um dos caseiros mais

abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogenita da casa,

enviuvára sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os

affectos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas

creanças, que trazia sempre na boca e no coração.

Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvissimas, caidas talvez

de mais para a testa, e o córte dos vestidos á beguina, affirmavam o

programma da sua virtude inaccessivel. Supersticiosa, e com a memoria

recheada de orações, de visões, e de devotas crendices, o seu defeito

capital era occupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosario

de conselhos a proposito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos,

criados, e hospedes, mas sem intenção ruim. Todos se encobriam d'ella,

quanto podiam, porém ninguem a aborrecia. Temiam-se da intemperança de

suas confidencias, mas confessavam a bondade do seu caracter, que era na

verdade excellente.

Romão Pires, tirando a estafada repetição de suas campanhas,

representava em tudo o opposto d'ella. Sério, como um santão,

embizourado, e quasi sempre com a aguda barba escondida na gargantilha,

se levantasse a vista e a curiosidade para os negocios dos outros,

cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e

segredo que lhe caisse no peito ficava sepultado n'elle profundamente.

Apesar d'estas qualidades contrarias e talvez mesmo pelas possuir, era o

conselheiro nato da sr.ª Brizida em todos os casos intrincados, e o

defensor convicto dos seus mêdos e indiscrições.--«Boa alma! Boa alma!

respondia aos que a censuravam. Tem o defeito de fallar de mais, mas é

uma santa pessoa.»--Brizida pagava-lh'o. Para escutar a milessima edição

das guerreiras epopeias do escudeiro, até fazia o sacrificio de

suspender a loquacidade propria!...

O sr. Romão Pires, amortalhado na eterna roupeta e n'umas calças côr de

pulga, esguio, comprido, e hirto, com um par de oculos de azelha montado

no cavallete do interminavel nariz, não desabotoava a seriedade do

rosto, nem dava ferias ao enfado chronico senão para sorrir á sua

comadre Brizida. Aquelles olhos verdes desbotados não se animavam senão

para festejar algum bom dito da matrona, cujas fallas assucaradas

contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeão da

independencia portugueza. A predilecção honesta, mas decidida dos dois

um pelo outro, não escapára aos criados, e todos acreditavam que, cedo

ou tarde, o vinculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a

união de duas almas já tão intimas.

A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita

do Tejo, estendia as matas e charnecas até á ribeira, que separa Paio

Pelle da villa de Tancos, da qual a casa, construida sobre uma colina,

distaria pouco mais de dois ou tres tiros de espingarda. Era palacio

antigo, talvez fundado por meiados do seculo XIV, accrescentado, e

reparado pelos fins do XVI. As ameias, já derrubadas em muitos lanços de

muro, proclamavam a sua velha e legitima nobreza. Duas alas terminadas

por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fóra do corpo

principal do edificio, formavam os lados do espaçoso terreiro, rasgado

diante da fachada, cujas doze janellas de architectura irregular olhavam

para elle. No terreiro se tinham jogado cannas e corrido touros nos

anniversarios festivos dos senhores.

A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e

articulações das pedras carcomidas cresciam tufos de viçosas

parietarias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras,

resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol

até ao primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava

serventia por uma rampa para os subterraneos allumiados ao rez do chão

por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas nuas, frias e

tristes, lageadas de ladrilho. Sobre os corredores por onde o ar e uma

luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas

envidraçadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros,

crusados de passagens, de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo

desde o andar terreo até aos vãos debaixo dos telhados, uma rêde

inextricavel, um verdadeiro labyrintho. A casa de jantar, forrada de

carvalho em molduras, prolongava-se á maneira de refeitorio entre dois

extensos corredores. Na extremidade de um d'elles baixava uma escada

para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para

os vãos, os quaes por cima corriam em largura e comprimento da casa. As

torres communicavam-se com o corpo do edificio por duas portas esguias e

abobadadas, aferrolhadas havia longos annos. Os eirados, meio abatidos,

vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudaes do inverno.

O jardim, ornado de canteiros e de poiaes azulejados, com um tanque de

pedra no meio, e um satyro hediondo entornando a urna desforme, creava

algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e

malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de

pão, cingidas de vallados altos, defendidos com pitteiras. O aspecto do

palacio era carregado de melancholia. Rodeado de solidão justificava em

sua tristeza as queixas, que ouvimos á sr.ª Brizida. Porque escolhera,

porém, D. Magdalena aquelle êrmo para abrigo dos filhos e dos criados,

quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas aonde podessem

respirar, longe do bulicio da côrte o ar do campo?

D. Magdalena descendia da familia illustre dos Coutinhos Noronhas, de

que fôra tronco e progenitor o marechal Gonçalo Vaz Coutinho, senhor do

couto de Leonil, e meirinho-mór por el-rei D. Fernando na comarca da

Beira. Formosa, discreta e recatada, perdera seu marido, D. Vasco

Mascarenhas, mestre de campo dos exercitos de D. João IV e D. Affonso

VI, havia tres annos, e ainda não enxugára as lagrimas da viuvez. Em

edade de merecer e de acceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa

de Lisboa, aonde não recebia senão as visitas de alguns amigos antigos

da familia, guiando-se em tudo pelos conselhos de fr. João Coutinho, seu

irmão, grande sabio, e doutor em canones e theologia, o qual se

encarregára de dirigir a educação litteraria dos sobrinhos.

D. Vasco Mascarenhas, tão distincto pelo nascimento, como pelas

qualidades do caracter e do espirito, unira ás propriedades de sua casa,

já mui rica, o senhorio da villa de Paio Pelle e do castello de

Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quasi sempre occupado

na côrte com os negocios politicos e no serviço activo das armas, só

duas vezes visitára de fugida aquelle solar desamparado, que principiava

a cair em ruinas, entregando o grangeio das terras e a cobrança dos

direitos do donatario, com excessiva confiança, diziam os murmuradores,

á probidade equivoca do feitor Paulo Rodrigues, camponez avido e ladino,

que mais as disfructava como usurario, do que as geria como

administrador. Avisada de que o palacio e as fazendas se arruinavam

n'aquellas mãos viscosas, D. Magdalena resolvera ver por seus olhos o

verdadeiro estado das cousas, na companhia de seu irmão, fr. João

Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais

conveniente.

Outra razão serviu de estimulo para a partida dos filhos da casa,

dissimulada com o pretexto da necessidade da mudança de ares. Antigas

relações de parentesco ligavam a familia dos Mascarenhas com o segundo

ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuia grandes bens na mesma

comarca, aonde existia o solar dos Coutinhos. O logar do Arripiado, que

tão viçoso beija as aguas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados

campos e charnecas, pertencia ao velho D. Nuno, cujo filho unico, D.

Affonso de Noronha, saira da côrte para o exercito do Alemtejo. D.

Affonso, illustre pelo berço, e já illustre pelo valor, vira crescer em

belleza, primeiro com assombro, depois com paixão ardente, sua prima D.

Maria de Mascarenhas, e não encobrira de seu pae o amor, que ella lhe

inspirava. D. Nuno confiou este segredo á ditosa mãe, e ella, não

podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes

de dar o sim, quizera, comtudo, sondar disfarçadamente as inclinações da

donzella. Conheceu com alegria, que D. Affonso começára a apoderar-se

d'aquelle coração, que em sua innocencia principiava a balbuciar apenas

as primeiras e vagas aspirações de um sentimento, que não sabia definir

ainda.

Corria o anno de 1663. D. João de Austria, á frente das armas

castelhanas, tentára o derradeiro esforço, invadindo Portugal com

dezeseis mil soldados, e os nossos generaes, juntando as forças, mal

conseguiram oppor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Evora, que devia

ser um dos baluartes da resistencia, accommettida no dia 14 de maio,

capitulára, depois de pouco honrada defeza. Este revez aggravou os

receios, e as partidas de cavallaria inimiga chegaram a insultar

Alcacer. D. Sancho Manuel convocára immediatamente os officiaes a

conselho, e só um voto, o d'elle, approvára a conveniencia de ferir a

batalha, que as ordens do governo prescreviam como remedio extremo. A

pericia de Schomberg, temendo como inevitavel o desastre, viu n'elle o

ultimo precipicio da independencia; mas a feliz temeridade do conde de

Villa Flor, fechando os olhos á prudencia, applaudia o encontro decisivo

dos dois exercitos, como o unico meio, embora desesperado, de salvar a

provincia e o reino da sujeição estrangeira.

O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praças, assaltára

as casas de Sebastião Cesar, do marquez de Marialva, e de Luiz Mendes de

Elvas. A todas as horas se aguardavam noticias da marcha das tropas, e

todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as

esperanças de Portugal!

A filha de D. Magdalena, D. Maria de Mascarenhas, mais velha desoito

mezes do que D. Pedro, seu irmão, contava n'esta epocha dezesete annos,

e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez

que o unico senão de tanta belleza fosse a sua mesma perfeição

irreprehensivel. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas

tranças, confundiam-se os lirios e as rozas na mais mimosa frescura. A

bocca, fina e espirituosa, córada como um botão nacarado, breve como um

suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expressão adoravel. Nos

olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam ás vezes de uma sombra

de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflammava, mas sua

tranquillidade languida deixava adivinhar, que se a paixão dormia ainda,

facil lhe seria, despertando, illuminar de subito e vivo fulgor aquellas

pupilas descuidadas. A mão parecia formada pelo modelo de uma estatua

primorosa. O pé estreito e arqueado pousava-se tão leve e elegante, que

a vista como que involuntariamente se alçava a buscar nos hombros as

azas da Silphide. A voz tinha condão seductor. A estatura, um pouco

acima de ordinaria, e flexivel como a hastea de uma flor, tambem se

dobrava como ella, parecendo que o esbelto corpo de melindroso não podia

com o doce peso da fronte, em que as mil graças da primeira enamorada

primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.

As posições e os gestos em sua desafectada singeleza respiravam a

attracção, que o calculo debalde se esforça por imitar. Tudo desmentia o

arteficio. O requebro das maneiras, o imperio irresistivel da vista e do

sorriso, e a magia arrebatadora das fallas e do semblante, nasciam

espontaneos, prendendo os sentidos e a admiração. A formosura da alma

ainda era maior, se é possivel. O coração retratava-se na fronte

limpida, e os infinitos thesouros de ternura e de abnegação, que por ora

concentrava nos extremos de filha e de irmã, quando se abrissem a

affectos mais vehementes, promettiam todas as venturas ao amor ditoso. A

pureza mais casta, a da ignorancia sublime da infancia, vestia-lhe de

candura todos os pensamentos. O pejo era n'ella tão sensivel, que

affrontado não só faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e

caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da indole a

firmesa da vontade. Os dotes do espirito esmaltavam as qualidades

moraes.

Talvez não houvesse na corte dama ou donzella tão instruida na lição das

boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais acceitas e

castigadas dos poetas portuguezes, hespanhoes e italianos, escolhidos

por Fr. João, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.

D. Maria presava em D. Affonso de Noronha todas as distincções, que o

exaltavam. Valia menos, porem, a seus olhos a illustração do berço, do

que a elevação do caracter e a fidalguia das acções, que em edade tão

verde quasi o haviam tornado um paladino. Não seria mulher, comtudo,

senão a confirmassem n'este juizo a presença insinuante do mancebo, a

gentileza do seu porte e a nobre expressão da sua phisionomia. Os olhos

da donzella, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do

primo, aonde riam as illusões da vida e da juventude, nunca fugiam

d'elles, senão a furto, e as rosas mais accezas das faces confessavam o

que tentaria encobrir em vão se acaso soubesse dissimular. Nunca os

labios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam.

Amavam-se. A alma de um trazia sempre gravada a alma do outro, mas só a

eloquencia da vista, indiscreta ás vezes, traira o segredo. D. Affonso,

não podendo por mais tempo calar a chamma, que o abrazava, tinha

declarado ao pae, momentos antes de metter o pé no estribo e de partir

para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas

esperanças, entregando-lhe a sorte d'elle. Sabemos que D. Nuno não

perdera a occasião, e que D. Magdalena applaudia o enlace proposto.

A chegada repentina dos filhos de D. Magdalena, da aya e do escudeiro,

com alguns criados velhos, colheu de sobresalto o feitor Paulo

Rodrigues. Tomado de subito o manhoso camponez, soubera disfarçar o

embaraço e as apprehensões, mas custara-lhe a conformar-se com a

presença dos amos na casa, que havia tantos annos estava costumado a

olhar mais como sua do que d'elles. Mandou varrer e aceiar á pressa duas

salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a

mulher e os filhos nos vãos do palacio, e ainda se lhe carregou mais a

viseira quando soube que a senhora e Fr. João Coutinho poucos dias se

demorariam atraz da familia.

No primeiro dia reinou profundo socego, mas na segunda noute, mal a

ultima pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos

quartos da aya e de Romão Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente

por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernaes. Soaram ruidos

de ferros e cadeias arrastadas. Só ao alvorecer é que tudo desappareceu.

O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe

sacudia os membros, quiz fazer e fez cara feia ao demonio. Na terceira

noute levantou-se da cama, engrolando Padres Nossos e Ave Marias,

petiscou lume, accendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao

corredor, quasi em vestido de banho, mas com a comprida espada nua

debaixo do braço. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro

forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e proximos gelaram-lhe o sangue,

e um clarão momentaneo e sulphurio mostrou-lhe, envolto no sudario, um

spectro descummunal e ameaçador.

Esta horrenda visão deu-lhe com os brios em terra; e, virando costas ao

inimigo, logrou refugiar-se no seu catre com a cabeça debaixo das

roupas, acto de valor, em que a sr.ª Brizida de Sousa o acompanhava

conscienciosamente havia muitas horas. Pela manhã os dous velhos

pareciam desenterrados.

O aposento aonde D. Maria de Mascarenhas dormia e uma criada, não foi

mais respeitado, e a donzella, transida de susto, contou em vigilia

continuada as longas horas, que medeiaram até ao amanhecer. D. Pedro

ainda padeceu mais. Acordando sobresaltado ao impulso de mãos brutaes e

no meio de escuridão profunda, sentiu-se arrancar do leito e balouçar

dentro das cobertas entre uivos e rizadas.

Paulo Rodrigues, pelas oito horas veio saber da saude dos amos, e,

ouvindo da sua bocca a lastimosa historia dos tormentos e perplexidades

nocturnas, contentou-se com encolher os hombros, e observou serenamente,

que em vida de seu pae, já tinham muito má fama as casas do andar nobre.

As noutes seguintes não foram mais tranquillas. Os espectros e duendes

tinham de certo reservado aquellas espaçosas salas, e os corredores,

para theatro de suas diabruras. Dir-se-hia até que o tempo conspirado

com elles os ajudava a augmentar o pavor dos hospedes. Rebentaram as

trovoadas de maio tão carrancudas e violentas, que os ceus se abriam em

relampagos, e a terra tremia com o rebombo dos trovões. As chuvas caiam

tão impetuosas que as estradas ficaram convertidas em leitos de

torrentes e as terras baixas em lagoas. O Tejo, cheio e empolado,

alagava as margens, e suas aguas batiam enfurecidas contra os penedos

sobre que se ergue o castello de Almourol, salvando por cima do caes em

cachões de espuma. Ao oitavo dia acalmaram-se as tempestades, mas

redobraram de força os maleficios nocturnos, com terror, e espanto summo

dos recem-chegados.

Avexados, tremulos e fóra de si, reuniram-se todos e determinaram mudar

a residencia para os aposentos do castello, que não tinham desabado

ainda minados pelos seculos e pela indifferença; mas o feitor, que

estabelecera n'elles uma filha casada, dissuadiu-os do proposito,

ponderando que as salas e os quartos do velho edificio dos Templarios,

alem de frios e de mais nus, que os do palacio, não eram menos

perseguidos de visões. Por horas mortas, exclamou elle, as almas dos

cavalleiros tornavam aos sitios, aonde tantos annos os corpos tinham

vivido. Nas guaritas de pedra, pelo adarve das muralhas, e nas salas de

abobada, espectros cobertos com o manto branco, ornado da cruz vermelha

da famosa milicia religiosa, appareciam repentinamente, e no silencio da

noute sentia-se o tinir das grevas e sapatos de ferro sobre as lageas e

ouvia-se a voz das sentinellas. Até raiar a aurora não se calavam na

sala de armas as vozes, as rizadas, e as blasfemias. Escutando esta

descripção horrifica, Brizida de Sousa e Romão Pires olharam

consternados um para o outro, e depois de se persignarem devotamente,

não querendo precipitar-se de Scylla em Carybdes, preferiram supportar

as travessuras menos estrondosas dos duendes da quinta. Escreveram

entretanto a D. Magdalena, pedindo-lhe que os tirasse d'aquelle

purgatorio o mais cedo possivel, ou que viesse sem demora em companhia

do Sr. Fr. João desalojar os espiritos diabolicos, cuja audacia zombava

da agua benta e exorcismos do Vigario de Tancos. Os dous honrados servos

confiavam que a grande sciencia do frade doutor e as virtudes do habito

de S. Domingos sairiam victoriosas com certeza da rebeldia de Satanaz e

da maldade dos seus accessores.

Contos e Lendas · 第 18 / 38 题