D. Luiz ficou a contemplal-a assim.

A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce

expressão da serenidade de espirito.

Pendia-lhe a cabeça sobre as travesseiras do leito e uma madeixa de

cabello soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por

entre os dedos que a sustinham.

D. Luiz ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquella

figura angelica de mulher, adormecida ao seu lado.

Traduziam as feições do velho o extasi, em que o arrebatára aquella

contemplação. Parecia-lhe uma visão sobrenatural. Com movimentos

cautelosos para não a acordar, encostou os braços ás almofadas da cama e

apoiando a cabeça entre as mãos, assim permaneceu immovel, abstracto,

com os olhos fitos em Bertha e o espirito subindo ás regiões mais limpas

dos espessos nevoeiros do mundo.

Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle

velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um

quasi rapto de adoração. Áquella hora, no meio d'aquelle silencio,

alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e

imponente.

Horas talvez durou aquella contemplação silenciosa.

De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e

firmeza que a doença e a preoccupação de espirito havia muito lhe tinham

dissipado.

Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza

a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si:

--Por que és tu que vélas a meu lado? Que laços te prendem a mim? Porque

dedicas a este velho a tua juventude?... E não se recompensa esta

abnegação? Pagam-te sacrificando-te aos seus... preconceitos.

E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar:

--Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã; havia de querer-te junto de

si, no seu quarto. E eu... porque não hei de chamar-te filha?...

Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da

rapariga um beijo expressivo de paternal affecto.

Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de

sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude.

Á interrogação que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitação em

que o via, D. Luiz não respondeu logo; porém, momentos depois, olhou

para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos,

apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoção:

--Bertha, vae chamar Jorge. Que me venha fallar. Preciso de conversar

com elle quanto antes.

Bertha sahiu do quarto com os olhos arrasados de agua.

Aquellas palavras tinham para ella uma dolorosa significação.

D. Luiz que mandava chamar o filho mais velho, o directo successor do

seu nome e da sua casa, era por que um d'aquelles presentimentos, que

nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter

chegado a occasião de despedir-se do filho e de dar-lhe os derradeiros

conselhos de pae.

Todos nos Bacellos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se

precipitadamente do leito, assim que soube que o pae lhe queria fallar.

A nova espalhou-se em toda a casa e pôz todos em alvoroço. Em breve

transpirou fóra que o fidalgo da Casa Mourisca já se despedira dos

filhos, e que em poucas horas seria com Deus.

Á casa de Thomé e da Anna do Védor chegou a noticia e trouxe até os

Bacellos esses antigos commensaes da familia, cujo representante actual

chegava á hora mais solemne da vida. A boa Luiza acompanhou o marido no

intento de oferecer os seus serviços n'aquelles momentos de dôr e

confusão.

Jorge entrou commovido e pallido no quarto do pae, onde ninguem mais o

seguiu.

O pobre rapaz ia preparado para uma scena dilacerante; esperava assistir

á agonia do velho.

Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 86 / 93 题