Mauricio veio ao encontro da baroneza assim que esta sahiu do quarto de
D. Luiz.
--Como deixaste meu pae?--perguntou elle.
--Mal e bem.
--Que queres dizer com isso?
--Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. N'aquella
idade!... Bem, porque o acho em excellentes disposições de se lhe
applicar um remedio heroico.
--Qual?
--Queres principiar hoje a tua carreira diplomatica?
--De que maneira?
--Vaes já d'aqui a casa do Thomé da Povoa.
--Sim, e depois?
--É uma visita que lhe deves, visto que não te lembraste de lhe dar
parte do nosso casamento.
--É verdade que não.
--Vae pois visitar Thòmé. Repara que nem sequer me lembro de ter ciumes
de Bertha.
--É uma prova de confiança, que te mereço.
--Sim? Mereces? Diz-te isso a consciencia? Bom será. Vamos adiante. Em
casa de Thomé contas qual o estado de teu pae. Fazes sentir a
necessidade de que Bertha volte para aqui, ou para o reanimar, do que só
ella é capaz n'este mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os ultimos
momentos e despedir-se d'elle. É provavel que encontres objecções em
Thomé, mas insiste; dize que teu pae se mostra magoado com a ausencia de
Bertha, e que é um peccado imperdoavel prolongar-lhe essa dôr tão facil
de remediar. Finalmente não voltes sem ter resolvido Bertha a vir hoje
mesmo para aqui.
--E quaes são os teus projectos?
--Ora quaes hão de ser? São casar Bertha com Jorge. Está claro.
--Has de encontrar dificuldades.
--Já me pareceram maiores. O padre fez nos, sem querer, um grande
serviço. Metteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por
pouco fazia de teu pae um democrata.
--Devéras?
--É verdade. Agora quatro caricias de Bertha devem consummar a victoria.
Vossês os homens levam-se por isso.
--Parece-te?
--Veremos se me engano.
Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu
para casa de Thomé, onde foi recebido com caloroso affecto.
Expondo o principal fim da sua visita, não encontrou grande opposição em
Thomé contra o regresso da filha para os Bacellos. Elle proprio
prometteu leval-a.
Efectivamente horas depois, Bertha era de novo conduzida pela baroneza
para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquelle tempo continuára
a manifestar signaes da mais profunda depressão de forças.
D. Luiz dormitava quando Bertha se lhe aproximou do leito. A rapariga
correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancião.
Commoveu-a o aspecto de abatimento que crescêra n'elle desde que Bertha
o deixára. D. Luiz tinha o somno agitado por sonhos febricitantes, e
sonhando, soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e
suava como sob a influencia de uma afflictiva impressão.
Bertha veio encontral-o em um d'estes estados e curvou-se compadecida
para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.
O doente acordou então e fitou os olhos n'ella.
Immediatamente lhe distendeu as feições contrahidas um sorriso de
alegria.
Por algum tempo não fallou, como se estivesse duvidando da realidade do
que via e suspeitando-a de ser a continuação de um sonho.
Foi Bertha a primeira que fallou.
--Está melhor?--interrogou ella, sorrindo.
O tom d'aquella voz e a particular inflexão da pergunta, com que já
estavam familiarisados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de
que não dormia.
Estendendo para a afilhada a mão magra e ardente, murmurou profundamente
commovido:
--Então sempre voltaste?
--Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes ultimos dias...
--Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.
--Quem falla aqui em morrer? Agora que o inverno passou e que este tempo
está a dar vida a tudo é que o padrinho se lembra d'isso? Pois veremos.
Dentro de poucos dias é preciso continuarmos aquelles nossos passeios na
quinta.
D. Luiz sorriu tristemente e fechou os olhos como para reter uma
lagrima, que, apesar d'isso, lhe passou por entre as palpebras e lhe
rolou vagarosa pelas faces descarnadas.
Bertha murmurou ao ouvido do velho:
--Chore á vontade, que estou eu só aqui. Chore, que lhe faz bem.
Como se a densa tristeza que pesava sobre o coração d'aquelle homem só
esperasse aquellas palavras para se fundir em lagrimas, o pranto
inundou-lhe o rosto, que elle quasi escondeu no seio de Bertha.
Aquella expansão foi-lhe salutar. O somno seguinte foi mais tranquillo e
menos cortado por sonhos fatigadores. Comtudo o estado do doente era
ainda muito grave, e na aldeia e immediações corria já voz do proximo
fallecimento do fidalgo da Casa Mourisca.
A parentela das visinhanças a cada momento vinha ou mandava aos Bacellos
saber novas do fidalgo. Thomé da Povoa passava alli a maior parte do seu
tempo; a propria Anna do Védor viera offerecer os seus serviços á
familia, e raras vezes se desviava da casa.
Bertha continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a
esperança de o vêr sahir victorioso d'aquella tremenda crise.
Ninguem a desviava d'alli. Retinha-a a vontade propria assim como a do
doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.
A baroneza não só não insistia para que Bertha cedesse a outrem o campo,
mas nem deixava que alguem insistisse. Dizia ella que a juventude de
Bertha podia bem com aquelle sacrificio, e que era provavel que Deus não
deixasse sem recompensa a caridade.
Durante tres dias a familia reunida nos Bacellos passava o tempo, por
assim dizer, na espectativa do triste acontecimento que se preparava.
Jorge interrompeu os seus trabalhos, Mauricio nunca sahia de casa, e a
baroneza passeiava constantemente entre a sala, onde quasi sempre
permaneciam os dois irmãos, ás vezes na companhia de Thomé, e o quarto
do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa além de Bertha.
Uma noite, D. Luiz, depois d'aquelles tres dias de febre e quasi de
delirio, conseguira adormecer de um somno mais tranquillo e reparador.
Não foram os sonhos incoherentes, absurdos e fatigadores que o
atormentaram d'esta vez; mas um sonhar grato, sem visões febris, e
durante o qual a imagem da filha por vezes lhe appareceu sorrindo-lhe e
fallando-lhe com o carinho de que elle ainda se recordava com a mais
pungente saudade do seu coração. Esta imagem transformava-se-lhe ás
vezes por insensivel transição na imagem de Bertha, e tão similhantes,
tão confundidas lhe appareciam, que elle nem sabia ao acordar com qual
das duas sonhára. Umas vezes era a filha que lhe fallava com a voz e sob
a figura de Bertha; outras Bertha revestindo a imagem de Beatriz.
Despertou d'este somno por alta e calada noite. No aposento era completo
o silencio. Interrompia-o sómente o bater cadenciado da pendula do
corredor. A tenue claridade de uma pequena lampada alumiava a scena.
D. Luiz depois de acordado tentou avivar as gratas impressões que lhe
deixára o sonho.
Pensou na filha e no passado; nas tristezas presentes, nas venturas
perdidas e nas desgraças por vir.
Áquella hora da noite, na solidão e repouso da camara de um doente o
espirito ergue-se superior á habitual esphera onde ordinariamente pára e
contempla com a vista de aguia as suas paixões e preconceitos; vê-os
fluctuar como nuvens nas regiões inferiores. É n'esses momentos que a
consciencia nos julga; a parte mais etherea do nosso ser parece então
erguer-se lucida como nunca e contemplar compadecida os maus instinctos,
as prevenções arreigadas, os falsos preconceitos que no tracto commum da
vida em tão viciosas direcções nos solicitam.
Emquanto o mundo dorme, dormem com elle no nosso coração as paixões que
o mundo alimenta.
N'aquelle momento D. Luiz não era o mesmo homem moral que conhecemos.
Luzia-lhe a verdade resplandecente á sua imaginação fascinada.
No meio da corrente dos seus pensamentos distrahiu-o um quasi
imperceptivel respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.
Era Bertha que, cedendo ás fadigas de tão continuadas vigilias,
adormecêra junto do leito do doente.