--És tu, Jorge?
--Sou eu, meu pae.
--Chega-te mais para aqui. Assim.
E fitando o filho com o olhar ainda cheio de expressão e vida, continuou
depois de um demorado silencio:
--Jorge, tu não és feliz.
Jorge olhou para o pae, espantado pela inesperada observação que lhe
ouvia.
--Tens uma nobre alma, tomaste sobre os hombros uma pesada tarefa,
dedicaste ao cumprimento d'ella a tua vida inteira, e como se isso não
fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes affectos.
Jorge, não será o sacrificio superior ás tuas forças?
Jorge baixou a cabeça sem responder.
A estranheza causada pelas palavras do pae, tão differentes das que
esperava, perturbara-o a ponto de não saber o que dissesse.
--Falla, Jorge--proseguiu o velho.--Vá, nunca viste em mim um
confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas
expansões de criança; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te.
Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, não é verdade?
--Meu pae--dizia Jorge cada vez mais embaraçado.
--Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o
teu pensamento aos projectos de rehabilitação que emprehendeste para
salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da
tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o
sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vêres apenas
n'elles meros preconceitos de classe.
--Creia, meu pae, que respeito as suas opiniões e que...
--Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de
um verdadeiro fidalgo e desde então creio devéras que a regeneração da
nossa casa, emprehendida por um homem como tu, não póde deixar de
realisar-se. Vou sem este pêso para a sepultura. Os meus erros
ser-me-hão relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitarás a
minha memoria. Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros
tempos, males de toda a especie acabaram de vencêl-o; agora é um coração
de homem. Por isso me é intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu
participasses dos meus... preconceitos, era justo que lhes sacrificasses
todos os affectos; sentirias na satisfação interior a compensação do
sacrificio. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma
fé no objecto a que te sacrificas... n'isso não posso eu consentir.
Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se
revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua
felicidade, dizendo-te: «Podes ser feliz, Jorge.» Além de que, tu és
nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao coração e
ficares nobre ainda.
Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido
pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de
transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que
este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada
serenidade:
--Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu
pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo
dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade
das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação intima que me virá da
consciencia de as ter respeitado, será tambem para mim uma poderosa
compensação.
--E a ella? Quem a compensará?--perguntou D. Luiz, com inflexão de dor.
--A ella? É de Bertha que falla? Se eu não soubesse que aquella alma
nobre e forte está á altura do sacrificio, talvez me fallecesse a
coragem para tental-o.
--É uma nobre alma devéras--tornou D. Luiz, como fallando para si.--E
quem a apreciará? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das
regiões para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E
tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio?
Não é certo que a tua saude já se tem resentido do esforço que fazes? Vê
bem, Jorge! Na tua idade os affectos são mais violentos do que na minha.
E comtudo eu proprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes
restos de vida que ainda possuo devo-os á sua presença. O que não será
comtigo?
Jorge nunca previra a situação em que se achava. Havia imaginado a
possibilidade de ser levado pela força da sua paixão a uma lucta aberta
com os preconceitos paternos, e esforçara-se por evitar essa temerosa
crise.
Esta era a menos provavel hypothese que antevira. Mas que fosse o pae
quem advogasse a causa do seu coração de rapaz contra as inflexiveis
exigencias da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o podéra suppôr,
pois que não tinha seguido passo a passo as transformações que haviam
operado no caracter varonil d'aquelle velho a acção combinada da doença
e dos carinhos de Bertha.
Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao coração
e ás insinuações do pae, se resistir em nome do dever, que elle chegára
a convencer-se oppôr-se á satisfação dos seus ardentes votos.
Na hesitação do filho, D. Luiz julgou perceber que o orgulho
aristocratico penetrára já n'aquelle coração de vinte annos, e elle que
sabia por si as resistencias que esse orgulho gerava, assustou-se com a
apprehensão de ficar vencido pela obstinação do filho.
Assustou-se, dizemos, porque o espirito do fidalgo estava completamente
subjugado. O egoismo da sua idade não podia já passar sem os carinhos de
filha. Não queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixão do
filho que apparentemente explicasse a transigencia.
Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas já não tinha fortaleza para
resistir. Anciava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto. Vendo-o
vacillar, tremeu já de encontrar um obstaculo insuperavel.
Jorge pela sua parte era victima de um quasi estonteamento, que não lhe
deixava ainda vêr claro. Tão costumado estava a acreditar que
invenciveis resistencias se erguiam contra a mais ardente aspiração de
sua alma, que ao vêl-as removidas de subito, olhava em volta de si como
aguardando que surgissem outras em seu logar, e sem poder crêr que a
felicidade viesse collocar-se-lhe ao alcance da mão.