Gabriella insistiu:
--Queria antes que eu votasse pela continuação d'este estado de coisas,
que o ha de matar, que infallivelmente o mata, porque--diga o tio o que
disser--a companhia de Bertha é-lhe já tão necessaria como lhe foi a de
Beatriz? Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz
definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificará e com elle as
esperanças de regeneração d'esta casa e d'esta familia? Desengane-se,
meu tio, o futuro de sua familia está indissoluvelmente ligado a Bertha.
--Póde ser.
--Está, digo-lh'o eu, que bem conheço Jorge. Elle renunciou
espontaneamente ao mais violento desejo do seu coração, julgando que
seria empreza ao alcance das suas forças. O resultado está-se vendo. De
dia para dia cresce n'elle o abatimento e as consequencias não é
difficil prevêl-as. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas tão
preciosas e tão nobres e brilhantes projectos a um capricho
aristocratico?
--Capricho?!
--Capricho, sim. Se invocar toda a sua philosophia, o tio Luiz ha de
reconhecer que não merece outro nome esse escrupulo.
--Não será dever?
--Em que codigo lhe é imposto?
--No da nobreza.
--O dever de quem é nobre de origem é conservar-se pelas suas acções
digno d'ella. Ora hoje, meu tio, que o mundo está quasi todo descoberto
e em que já passaram de moda as conquistas dos mouros e as guerras com
os castelhanos, que melhor póde cumprir-se esse dever do que o faz
Jorge, luctando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e
salutar exemplo, que oxalá que fosse seguido? Elle sim, é quem continua
as gloriosas tradições dos seus avós, e olhe que não será menos util á
pátria do que elles foram. Mas ha um estimulo necessario para manter
n'elle aquella actividade. Elle proprio illude-se, julgando que póde
prescindir d'esse estimulo. Não póde. Esse esforço ha de sacrifical-o.
Agora veja o tio, em respeito a quem é sómente feito o sacrificio, se
não sentirá remorsos um dia por havêl-o consentido.
D. Luiz parecia pouco satisfeito com a discussão, que o collocava entre
duas forças que igualmente o opprimiam.
--A minha vida é de sacrificios; é destino. Devo estar preparado para
aceital-os com resignação.
--Resignação nada christã; porque Deus não quer que nos resignemos com
os males que podemos evitar, e muito menos quando é uma paixão ruim que
os prepara.
--Uma paixão ruim!--exclamou o fidalgo mais exaltado--até que ponto a
traz cega a corrente das ideias modernas, que já chama paixão ruim ao
respeito que devemos ao esplendor das nossas casas?
--E que perderia esse esplendor com a alliança de Bertha? Não é ella uma
rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de excellentes
qualidades? N'essas familias que manteem o esplendor que diz, conta
muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu tio, deixe-me
dizer-lhe: nós precisamos de misturar sangue novo ao nosso, senão
morremos asphyxiados n'estes ares modernos. É verdade isto, as famílias
que escrupulisam em não caldearem o sangue antigo que trazem nas veias,
dão de si uns descendentes quasi sempre parvos e pêcos, por isso mesmo
que sahem organisados para viverem ern uma sociedade talhada por moldes
que já se não usam, e não sabem viver na actual.
D. Luiz não podia ainda habituar-se a ouvir taes doutrinas
irreverentemente expostas por uma das representantes d'essas vetustas
familias.
Era provavel que as phrases incisivas da baroneza lhe provocassem uma
resposta apaixonada, se uma inesperada occorrencia o não viesse
distrahir.
Frei Januario, que ficára, como dissemos, occulto pelo cortinado do
leito e desapercebido tanto da baroneza como de D. Luiz, ouvira com
surpreza crescente o dialogo que temos descripto. Para elle eram ainda
novidade os amores de Jorge e Bertha, porque D. Luiz já não fazia do
padre o confidente dos seus segredos.
Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os
commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e
subversivas que sustentára contra o fidalgo.
Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais
esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas
doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por
certo o faria de novo entrar nas suas boas graças.
Portanto, n'estas alturas da discussão, levantou-se do canto em que
estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que
conservára entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do
leito, defronte da baroneza, disse escandalizado:
--Perdoe-me v. exc.ª, snr.ª D. Gabrielia, mas eu não posso deixar de
manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.
--Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me
lembrava--disse Gabriella sorrindo.
D. Luiz franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a
intervenção.
--Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora--respondeu o padre
em tom de censura--e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Além de que
eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia.
--Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que
me não lembrava da sua presença ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias
não merecem a sua approvação.
--De certo que não--tornou o padre.--O snr. D. Luiz tem razão. A nobreza
è a nobreza; e mal de nós se ella se esquecia dos seus deveres e assim
se misturava ás classes infimas.
--Então que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?--perguntou a
baroneza, rindo.
--A mim?
--Então não disse: «mal de nós?»
--Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa d'estas distincções;
senão, não ha ordem, não ha governo, tudo é anarchia e republica.
--Leu isso no evangelho?
--É o que a experiencia me tem mostrado.
--Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve á experiencia o snr. frei
Januario!
--Porém devéras, minha senhora, v. exc.ª podia aconselhar seriamente ao
snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado não, que até
já com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas
emfim do representante, o filho mais velho de s. exc.ª ... o casamento
d'elle com quem? Com a filha do Thomé da Povoa! Um homem, senhores, que
eu conheci criado d'esta casa! v. exc.ª não fallava a serio ha pouco. É
impossivel.
--Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava.
--Ó minha senhora, por quem é! Lembre-se v. exc.ª da familia a que
pertence, do nome que tem e verá que se ha de envergonhar da lembrança.
Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thomé! Era o que me faltava
vêr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora,
mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre
ouvi dizer que o que o berço dá a tumba leva, e que o pé de tamanca foge
sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o snr. D. Luiz chamar
filha á rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em
tal não podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem vê
v. exc.ª que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz não tem só a
consultar a sua vontade. Lá está a mais familia. Que diriam os snrs.
Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs.
Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza
por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento
monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a
fidalguia do reino! V. exc.ª de certo não pensou nisto. Demais...
O padre não pôde proseguir na sua animada refutação.
Interrompeu-o D. Luiz.
Dera-se com o fidalgo um phenomeno não calculado pela experiencia do
padre, ainda que natural ao espirito humano.
Sentindo-se apoiado na defeza das suas ideias por um alliado
antipathico--porque o era para o fidalgo desde certo tempo, o seu
ex-procurador--teve logo um desejo vehemente de recusar o auxilio e
quasi o de esposar a causa opposta só para o castigar da impertinencia.
Além d'isso frei Januario levou a defeza mais longe do que devia. A
maneira por que fallou de Bertha e da dependencia em que estava o
fidalgo da opinião da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luiz, que
por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu dizendo:
--Cale-se, frei Januario, cale-se! Que está para ahi a dizer? Cuida que
eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os
de Ribeira-formosa, os do Choupello ou os do Cruzeiro, ou de qualquer
d'essa parentela que tenho por essa provincia adiante? Era o que me
faltava! Do que convem ou não convem á dignidade do meu nome, sou eu o
juiz, e não admitto ingerencias alheias. Actos que deslustram e
envergonham tem-n'os elles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir
satisfações por isso.
--Eu queria dizer...--acudiu o padre, intimidado pela irritação em que
via o fidalgo.
Este interrompeu-o outra vez:
--Ora não diga nada, que é melhor. Com que olhos veriam as damas este
casamento! É boa! Com os mesmos olhos com que tem visto muita miseria e
muita vergonha que vae por casa dos seus. Os olhos deviam ellas
empregal-os em Bertha, mas era para aprender d'ella o que é dignidade,
nobreza de sentimentos e verdadeira educação. Como está ahi a dizer o
frei Januario que Bertha ha de mostrar a final a origem d'onde vem?
Bertha ha de mostrar que é filha de um homem honrado e de uma mulher
virtuosa. Se é isso que quer dizer, tem razão. E oxalá que todas as
nossas damas podessem dizer o mesmo de si. Fique sabendo que não seria
ella que occupasse mal o seu logar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto.
O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do
que a ella, que parece resuscitar-m'a. Para ser nobre não basta ser do
Cruzeiro ou de Ribeira-formosa. O Cruzeiro é um ninho de bebedos e a
Ribeira-formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente
sem dignidade e aquella que de origem obscura lhe dá todos os dias
lições de deveres, de certo que não hesitaria, nem iria entre a primeira
procurar noiva para meu filho. Como se formaram as familias nobres? São
todas da mesma época? É claro que não. Houve tempo em que umas já eram
nobres e outras não o eram; mas por um feito illustre e verdadeiramente
nobre um homem obscuro d'estas ultimas mereceu que as primeiras o
chamassem a seu gremio, partilhando com elle o dom que já possuiam. Pois
bem, tambem nós hoje podemos fazer o mesmo que n'esses antigos tempos se
fazia, e chamar a nós os espiritos fidalgos, que os ha fóra do nosso
gremio; e assim podessemos também expulsar d'elle os espiritos plebeus
que por cá temos!
D. Luiz, levado pela força da reacção, ia mais longe do que quizera. Por
pouco estava advogando ideias manifestamente democraticas. O padre
estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A propria
Gabriella não esperava ouvir expender taes ideias a seu tio. Ainda que
percebesse que a irritação que dominava o doente fosse a principal causa
inspiradora n'aquella defeza acalorada, ainda assim lhe dava
importancia. As ultimas palavras de D. Luiz, e especie de raciocinio com
que pretendêra justificar a possibilidade de allianças desiguaes,
realisadas certas circumstandas, davam-lhe a entender que elle já
comsigo proprio previra a eventualidade e procurára argumentos que por
ventura a justificassem.
Gabriella viu n'esta descoberta um optimo indicio e percebeu a
conveniencia de deixar o espirito do tio sob aquella ordem de impressões
e entregue ao movimento proprio que a intervenção do padre iniciára.
Por isso, sob o pretexto de que a discussão fatigára em extremo o doente
e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no principio a réplica
do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente.
Ao sahir dizia ella, tomando o braço do capellão:
--Depois de se lançar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em
repouso levedar. Quando era criança via fazer isto em minha casa, sempre
que se cozia o pão.
O padre não entendeu o alcance da parabola. Sahiu d'alli desnorteado com
o que via n'aquella casa, que elle suppunha eivada do veneno da
maçonaria, unica maneira por que explicava as irregularidades que via.
Gabriella sahiu no intento de encaminhar a crise em um sentido
favoravel.