O estado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento,
em que tão de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por
ventura de terminar por uma solução funesta.
O padre mandou á pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos.
A carta de frei Januario chegou ás mãos de Jorge juntamente com outras
de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão
favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza
e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma
proxima visita á aldeia. Todas estas noticias de tão diversa indole
impressionaram extraordinariamente Jorge.
Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a
constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o
estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a
consolação de vêr como que erguida das ruinas a casa de seus
antepassados.
As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as
alegrias nupciaes das cartas do irmão e de Gabriella.
Debaixo da influencia d'estas impressões oppostas, Jorge, depois de
escrever um pequeno bilhete a Thomé, em resposta a outro que d'elle
recebeu, communicando-lhe também o resultado da demanda, montou a
cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos.
O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a
cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luiz.
Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar-se do
leito do pae.
--Elle já nem falla--dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda
não conseguira obter uma só palavra do fidalgo.
Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito.
D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi
morbida em que desde a partida de Bertha cahira, não deu signal de ter
percebido a chegada do filho.
Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mão que tinha
estendida por fóra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida.
Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos;
vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto.
--Ah! és tu, Jorge?--disse elle com a voz ainda fraca--não te tinha
visto entrar.
Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle já
suppunha em estado de não poder fazêl-o.
--Acha-se melhor?--perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.
O velho só respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferença
pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho,
interrogou-o por sua vez:
--E tu?
Jorge estranhou esta solicitude no pae, tão fóra dos seus habitos, e
sentiu-se commovido.
--Eu?... eu estou bom.
--Estás pallido e doente--proseguiu o pae, fitando-o.
E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns
segundos.
Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma
commoção a que só ultimamente era sujeito.
--És um homem, Jorge! És digno do nome que tens e da familia que
representas.
Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei
Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doença.