--Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difficil
sciencia que nós temos a aprender na vida, e tu... mostras que estás bem
senhor d'ella.
Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um
olhar perscrutador.
Elle porém fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como
cahido em um somno profundo.
O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.
--Como vão os negocios de nossa casa?--perguntou d'ahi a pouco elle sem
abrir os olhos.
Jorge communicou-lhe a boa nova que recebêra de se haver vencido a mais
antiga e a mais importante demanda que sustentavam.
Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios
agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho,
murmurou:
--Será chegado o termo d'esta longa provação?!
Depois recahiu no torpor em que passára a noite e não disse mais palavra
alguma.
Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a
claridade do aposento, e entregando-o á vigilancia do padre, retirou-se
ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa.
Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.
Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos á chegada
de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando
a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa
da sua visita.
Jorge correu a recebêl-os e cingiu nos braços commovido o irmão e a
cunhada.
Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria,
a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a
pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão.
--Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?--disse a
baroneza.--Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não
podes realisar os teus grandes projectos?
Jorge sorriu, encolhendo os hombros.
--Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os
processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar
o andamento dos meus actos nutritivos.
--Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de
trabalho...
--Não é isso, Gabriella--acudiu Mauricio--eu sempre conheci em Jorge o
habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a
louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para
sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres.
Jorge sorriu.
--Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos.
Esse soubeste-o só depois de casares.
--Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.
--Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer
d'elle.
--Mas--tornou a baroneza--é preciso sahir d'isto. O Jorge suppõe-se mais
forte do que é.
--Creia, Gabriella, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as
crises. Hoje o que me preoccupa é a solução dos meus negocios, que
felizmente vão tomando uma face animadora.
--É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que
tanto te preoccupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Mauricio
com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve
essa prompta solução.
--Devéras?
--Não ouso crêl-o--disse Maurício--ainda que é verdade ter-lhe fallado e
haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo.
--Hoje quasi posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração--tornou
Jorge.--Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e
solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio?
--Vão em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres
ou de Berlim.
--Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz--disse a baroneza,
sorrindo, e acrescentou:--Mas que é de Bertha? Já cá não está?
--Retirou-se ha dias. Desde então recrudesceu a doença do pae.
--E para que se retirou?
--O Thomé veio buscal-a.
--Com que fim?
--Não sei... Ainda que... por algumas coisas que ouvi... quer-me parecer
que fizeram conceber a Thomé certos receios. Emfim eu proprio não quiz
profundar os motivos da retirada por temer que não me fosse agradavel
ouvil-os.
--E querem vêr que o tio Luiz também soube? É impossivel que tudo isto
não lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a
si parece que porfia em complicar a situação. Mauricio, vamos vêr teu
pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens,
Jorge?
Passados momentos entravam todos tres no quarto de D. Luiz, onde
penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e
pelas janellas meio abertas.
Frei Januario, que dormitava ao lado do leito, com o lenço vermelho em
uma mão e o breviario na outra, ergueu-se ao ver a baroneza, e depois de
comprimental-a dispunha-se a avisar o fidalgo.
Gabriella susteve-o, e avisinhando-se do leito, correu ella propria os
pannos do cortinado e contemplou o rosto do ancião, que dormia
profundamente.
Mauricio e Jorge acercaram-se tambem.
A nobre physionomia de D. Luiz, abatida pelo soffrimento physico e
moral, e sobre a qual o somno parecia derramar uma serenidade, como de
resignação, impressionou-os a todos.
A baroneza ajoelhou ao lado do velho, e pegando-lhe na mão beijou-a com
affecto e respeito. Mauricio ajoelhou tambem ao lado de sua esposa.
D. Luiz acordou um tanto sobresaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge
e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e
raiou-lhe no semblante, ao vêl-os, um clarão de alegria.
--Ó meus filhos!--exclamou elle, solevantando-se no leito e apoiando-se
no braço tremulo.
Depois, passando a mão por sobre a cabeça dos noivos, acrescentou:
--Deus vos abençoe, como eu vos abençôo.
E deixou-se cahir extenuado sobre o travesseiro.
Gabriella levantou-se para amparal-o.
--Ai, Gabriella--disse elle, suspirando--finalmente parece que chegou a
hora da liberdade.
--Diga que chegou a hora da resurreição. Verá como de hoje em diante
tudo vae ser ventura n'esta casa. Ha de trazer-lh'a Jorge e Mauricio e
eu, até eu e... e mais alguem. Quem sabe?