Bertha apoderou-se d'ella e beijou-a, banhando-a de lagrimas de saudade.
D. Luiz estremeceu ao sentir aquelles beijos e aquellas lagrimas, mas
fez por se reprimir na presença de Thomé.
Emfim, Bertha separou-se d'elle, e encaminhou-se para a porta, onde o
pae a esperava.
Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz suffocada.
Voltou-se. D. Luiz seguia-a com a vista nublada de pranto e estendia-lhe
os braços para um ultimo adeus.
Ella correu para o velho e abraçaram-se soluçando.
Thomé sensibilizado escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.
Por algum tempo durou ainda aquella tocante scena de despedida, que
despedaçou o coração do velho fidalgo.
A final afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte,
enternecido, murmurou:
--Vae, minha filha; é melhor que vás. O teu sacrificio é grande, mas crê
que não é maior do que o meu. Dize a teu pae....
Mas percebendo Thomé meio escondido na porta, dirigiu-se a elle:
--Thomé, ha pouco fui injusto comsigo. Desculpe-me; a velhice e a doença
fizeram-me assim. Creio na sua boa fé e espero que todos nós saberemos
proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-lhe a sua filha. Tem
razão em a querer junto de si.
E pela segunda vez na sua vida o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mão
ao seu antigo criado.
Thomé aceitou-lh'a com a effusão com que sempre acolhia a mão que
lealmente se estendia para a sua.
--Fidalgo, se v. exc.ª... Mas não; é melhor que Bertha venha commigo. É
melhor para socego de todos. Custa ao principio, mas...
--Sim; é melhor, é; Bertha que vá--assentiu D. Luiz.
E depois de uma ultima despedida tão terna como a primeira, o pobre
doente viu desapparecer para não voltar, a doce figura da sua carinhosa
enfermeira.
Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho
escondeu a cabeça entre as mãos já trémulas, e com a voz cortada pelos
soluços exclamou com desespero:
--Agora morre! morre! morre para ahi só, velho desgraçado, sem filhos,
sem familia, sem amigos; morre só com os teus rancores, com as tuas
paixões, com o teu orgulho, já que assim o queres. Quando acabará de se
despedaçar este coração, para me deixar descançar?
Frei Januario veio surprendêl-o n'este apaixonado monologo e recuou
assustado ante a vehemencia d'aquella dor.
D. Luiz nem deu pela chegada do padre. Cahindo em um profundo
abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e supplicas do padre
conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos labios contrahidos.
Sómente ao fim da tarde, D. Luiz disse que queria deitar-se;
ajudaram-n'o a despir-se e a mettêl-o na cama, onde elle ficou como
cabido em uma somnolencia morbida.
O padre receioso do resultado d'aquella subita depressão de forças,
pensou em avisar Jorge.
O bom do padre, apesar dos seus defeitos, não era um coração insensivel,
e por D. Luiz tinha uma affeição sincera. Aquella noite, reagindo contra
o seu amor pelas commodidades, velou, ou melhor, permaneceu á cabeceira
do doente. Teve porém o desgosto de perceber que este não sentia grande
refrigerio em vêl-o alli, porque sempre que no intervallo dos seus
somnos agitados dava com os olhos n'elle, desviava-os logo com despeito.
Não obstante, o padre conservou-se fiel ao seu posto.