D. Luiz não ousou negar.

--Muito bem, fidalgo. O tempo é pouco, como disse, e por isso eu vou já

direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos de v.

exc.ª, porque ainda quando as apparencias eram menos contra mim do que

d'esta vez, v. exc.ª costumava sempre fazer a meu respeito supposições

tão boas como esta. Por isso não pude soffrer a ideia de conservar nem

mais uma hora minha filha n'esta casa. Vim e vim á carreira para a levar

commigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada, mas foi

desnecessario, porque logo vi ás primeiras palavras de v. exc.ª que já

chegára tarde para remediar o mal que previra. Muito bem, n'esse caso

resta-me pouco a fazer para descargo da minha consciencia e depois

retiro-me.

Thomé passou a mão pela fronte, que tinha inundada de suor. Na voz como

no semblante eram evidentes os signaes da sua excessiva commoção.

D. Luiz, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento,

sentiu-se involuntariamente obrigado a levantal-os n'aquelle momento

para os fitar na physionomia do homem que tinha diante de si e que a seu

pezar o impressionava.

--Fidalgo--proseguiu Thomé, depois d'esta breve pausa--juro-lhe que

nunca percebi estas affeições entre minha filha e o snr. Jorge, juro-lhe

que nunca pensei em que ellas podessem dar-se. Quando o soube estalou-me

o coração de dôr e córaram-me as faces de vergonha. Cheguei a

arrepender-me, pela primeira vez, de alguns serviços que em boa fé

prestei ao snr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade. Mas uma

vez que o caso se deu, sem culpa minha, só tenho a dizer-lhe isto,

fidalgo; ouça-me bem. Quero do coração a seu filho, de pequeno o estimo,

e respeito-o agora como um homem de bem que é; quero devéras, se quero!

a minha filha, é a primeira que eu tive, é a única rapariga, é a que

trago mais chegada ao coração, fraquezas de pae, como sabe; pois bem,

quero-lhes a ambos e muito, mas ainda que a affeição que elles tivessem

um pelo outro fosse tal que eu os visse morrer, e que a salvação d'elles

só dependesse do meu consentimento para se casarem, deixal-os-ia morrer,

deixava; morreria com elles, mas não daria esse consentimento.

Juro-lh'o, fidalgo, juro-lh'o! que para tanto tenho coragem; porque o

meu orgulho não é menos forte do que o de v. exc.ª! Para eu consentir

que um filho meu entrasse na sua familia, fidalgo, era necessario... Eu

sei lá o que era necessario?... Era necessario que v. exc.ª primeiro me

pedisse por favor para assim o consentir. Agora veja lá se isso é

possivel.

Ao terminar, Thomé tinha a respiração cortada, offegante, como de quem

realisou um esforço enorme. Cahiam-lhe bagadas de suor pela fronte

afogueada e as mãos contrahiam-se-lhe em crispações nervosas.

D. Luiz ia a responder-lhe quando Bertha entrou no quarto preparada para

a partida.

A sua chegada cortou n'este ponto a scena.

Bertha relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a scena

que ella previra tivera logar.

--Quer que vamos?--perguntou ella ao pae timidamente.

--Vamos--respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta.

Bertha aproxiraou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.

--Quer dar-me a sua benção de despedida, meu padrinho?--perguntou Bertha

a meia voz, como receiosa de uma recusa.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 75 / 93 题