--Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusação é
porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim.
Thomé da Povoa não pôde reter um movimento de impaciencia.
--Por quem é, fidalgo, não me principie v. exc.ª com esses discursos
enredados, com que não me entendo. Jogo franco! Ou se não, começo eu, e
será talvez melhor.
D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica
indifferença.
--Não me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque
depois do que eu soube esta manhã, esta manhã apenas, repare bem, snr.
D. Luiz, depois do que soube esta manhã e conhecendo como conheço o
genio de v. exc.ª, já esperava ouvir alguma coisa parecida com o que
ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. É
preciso que v. exc.ª saiba. Porque um homem que não tem a pesar-lhe na
consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, não póde a
sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.ª
--Bem; pois se a consciencia lhe não exprobra nada, é o essencial. Vá em
paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu
d'elle.
--Perdão, fidalgo. Isso é que eu não posso fazer. Deus me livre de ser
accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela
dos homens que respeito e estimo. E v. exc.ª, ainda que não o creia, é
um d'esses.
--Muito obrigado.
--Permitta-me que vá direito ao caso. Minha filha não tarda ahi, e eu
não quero fallar diante d'ella. Esta manhã foram a minha casa,
(provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com
a mesma nova... Foram a minha casa e disseram-me...
--Perdão, eu não preciso de saber o que se diz nas casas alheias.
--Pois bem--acudiu Thomé já irritado--eu lhe conto então o que se disse
na sua. Vieram aqui, a casa de v. exc.ª, e disseram-lhe: «O seu filho
Jorge está namorado da filha do Thomé e a rapariga também gosta d'elle.»
Disseram-lhe isto com certeza, e disseram-m'o a mim tambem. Ora agora,
eu lhe conto mais, eu lhe conto o que v. exc.ª pensou e o que eu logo
previ que v. exc.ª pensava. Pensou v. exc.ª: Aquelle insolente Thomé foi
quem machinou tudo isto. Atreveu-se a sonhar em apanhar o meu filho para
marido da filha d'elle, em alliar a sua familia á minha, em dar por
aposento áquella rapariga as salas do meu palacio. Para isso principiou
a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe serviços com signaes de
desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe metteu á cara a
filha, e emfim, para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo
da predilecção que eu mostrava pela rapariga, trouxe-m'a para casa,
porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser
deixar-me de tal maneira prender por ella, que não oppozesse obstaculos
aos seus projectos. Ora aqui está o que v. exc.ª pensou. Negue-o, se é
capaz.