Como homem a quem pesava a commissão que se propunha a desempenhar alli,
Thomé da Povoa, depois de comprimentar o fidalgo e de abençoar a filha,
foi direito ao fim da sua visita.
--Pois, snr. D. Luiz, eu venho aqui para buscar a rapariga, se v. exc.ª
der licença.
Bertha desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador.
D. Luiz não respondeu, mas correu-lhe pelos labios um rapido sorriso,
entre amargo e ironico.
Thomé, em vista do silencio do fidalgo, sentiu que não podia deixar de
dizer mais algumas palavras de explicação, e por isso, enleiado a forjar
um pretexto que não lhe occorria, acrescentou:
--Ella está sendo lá precisa... porque... sim, a minha Luiza, pelos
modos... anda assim adoentada...
--Minha mãe está doente?--perguntou Bertha com inquietação.
--Doente, doente... o que se chama doente, não digo, mas... E depois ha
lá uns milhos a arrecadar e os pequenos... E emfim, n'esta época do
anno, a casa de um lavrador... Os jornaleiros são muitos...
E a cada pretexto que mal apontava, Thomé erguia a vista para D. Luiz a
estudar-lhe na physionomia o effeito da desculpa.
Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma expressão de reserva e
de mysterio.
De repente, porém, D. Luiz fez um movimento, como se uma subita
resolução lhe acudisse, estendeu a mão para Bertha, que se demorára
ainda ao lado d'elle e como que a impelliu de si e na direcção de Thomé,
dizendo com affectada placidez:
--Ahi a tem. Póde leval-a.
Á estranheza com que Thomé o encarou, vendo-o fazer aquelle gesto,
correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo:
--Não calculou bem o tempo. Antecipou-se. A occasião não era ainda esta;
por ora não estou enfeitiçado, bem vê.
Thomé julgou perceber vagamente o sentido d'estas palavras e córou,
dizendo:
--Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer...
--Que póde levar sua filha. A presença d'ella aqui não adianta os seus
projectos. Meus filhos não estão nos Bacellos, como vê, e eu... eu já
não tenho coração sujeito a feitiços.
--A illusão não era possivel para Thomé. As palavras de D. Luiz
confirmavam as previsões que elle tivera antes de lh'as ouvir.
O rosto do lavrador tomou a expressão que os fortes golpes e as paixões
violentas lhe costumavam dar.
Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra,
mordendo os beiços e abanando significativamente com a cabeça. Depois
tomou a filha pela mão, e encaminhando-a para a porta do quarto,
disse-lhe:
--Bertha, vae apromptar as tuas coisas, que eu espero por ti... e no
entretanto conversarei com o fidalgo.
Bertha sentia que entre aquelles dois homens havia imminente uma lucta
de paixões, que não estava já na sua mão dissipar. Mais valia pois
deixal-os chegar a uma explicação decisiva, que definisse a posição de
cada um.
Obedeceu portanto á indicação do pae, dirigindo-lhe apenas em um olhar
uma supplica que não passou desapercebida de Thomé.
Depois que Bertha sahiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e
cruzando os braços disse-lhe com um modo decidido:
--Agora que estamos sós, snr. D. Luiz, faça v. exc.ª o favor de me
accusar abertamente e de uma maneira clara e franca.