XXXIV

Desde o dia em que Bertha fallára no seu casamento ao fidalgo da Casa

Mourisca nunca mais correram as horas nos Bacellos para o velho e para a

rapariga tão alegres como até ahi.

Nem uma palavra se trocou mais entre elles sobre o assumpto, mas facil

era de perceber que elle ainda dominava o pensamento de ambos.

Tanto os sorrisos de Bertha como aquelles com que D. Luiz lhes

correspondia empanava-os uma nuvem de tristeza.

O fidalgo a cada momento pensava na separação imminente, na necessidade

de dar á afilhada o consentimento promettido, e cada vez menos coragem

sentia para fazêl-o.

Bertha recebia como que a projecção da tristeza do velho; demais a sua

propria crescia á medida que se aproximava o momento em que tinha de

realisar-se o sacrificio do seu coração, sacrificio cuja grandeza de dia

para dia mais avultava no seu espirito.

Actuou esta influencia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento

adquirido sob a benefica vigilancia da rapariga.

Por isso no dia em que se passaram as scenas narradas no ultimo capitulo

e nas quaes a intrepida Anna do Védor desempenhou tão importante papel,

D. Luiz achava-se em um estado de abatimento pouco animador.

Não sahira esse dia do quarto, como era seu costume quando ia sentar-se

com Bertha á sombra das arvores. Queixou-se de fraqueza e de frio e

ficou na poltrona ao lado da janella a espreitar por dentro das vidraças

para as avenidas da quinta.

Bertha havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um

remedio; e o doente ficando só, cahira em uma profunda meditação,

seguindo machinalmente com a vista os movimentos de uma avesita que

saltava nos ramos d'uma arvore distante.

De repente chamou-lhe a attenção o rumor dos passos de alguem, que se

aproximava no corredor e que parou á porta do quarto, como se hesitasse

ao entrar.

--Quem está ahi?--perguntou o fidalgo, não vendo apparecer ninguem.

A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Anna do Védor,

offegante pela carreira que trouxera de casa do Thomé até alli,

desenhou-se no limiar.

--Sou eu; o fidalgo dá licença?--respondeu a Anna.

D. Luiz teve um negro presentimento assim que viu a figura da mãe de

Clemente, o pretendido noivo de Bertha.

Com mal disfarçado azedume disse-lhe:

--É vossê, Anna? Entre.

Anna entrou com o desembaraço com que entrava em toda a parte.

--Então como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo

se guarda para a velhice.

--É assim, é--disse sêcamente o fidalgo.--Então a que vem aqui, Anna?

Anna do Védor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo

recebida e por isso respondeu menos affavel:

--Primeiro que tudo, vim vêl-o, como era da minha obrigação, pois não me

esqueço de que já comi do pão de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se

a minha vida me deixasse; mas sou eu só em casa, como v. exc.ª sabe, a

fazer o serviço, e a idade já me vae pesando. E agora por isso vem a

pêllo dizer a outra coisa que me trouxe cá. Venho saber de v. exc.ª

quando é que póde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que está

justo entre ella e o meu filho.

O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de côr, e mais do

que uma paixão lhe desenhou successivamente no semblante em traços

fugitivos o aspecto physionomico.

--Então vem para a buscar?--perguntou elle com voz alterada.

--Não, senhor, não venho para a buscar, venho para saber de v. exc.ª

quando ella póde ir.

--Ella não é minha filha. Quando quizer, que vá.

--Mau! O fidalgo não quer entender-me.

--Eu o que não quero é occupar-me d'esse casamento--replicou D. Luiz

mais agastado.--Quando quizerem fazer esse disparate, façam-n'o. Levem

d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a á sua vontade, mas não me peçam o

consentimento, porque eu estou com os pés na cova e não quero levar para

a sepultura mais remorsos.

A mãe de Clemente não estranhou esta resposta azeda do fidalgo, que de

proposito provocára.

Picada porém no seu orgulho materno por algumas phrases que ouvira,

acudiu logo:

--Que está o fidalgo a dizer? Disparate... remorsos... Que disparate

acha o fidalgo no casamento de Bertha com o meu Clemente? Remorsos! Ora

essa está boa! Nem que se tractasse de enforcar alguem! Ora esta! Olha

agora!

--Anna, eu não quero offender o seu filho, que sei que é bom rapaz, mas

o que elle não é, é homem para Bertha.

--E onde é que v. exc.ª vae buscar marido para Bertha? O meu Clemente

não serve? Pois bem, como a rapariga não está para freira, diga-me v.

exc.ª que faz tenção de a casar na sua familia, e eu calo já a bôca e

sou a primeira a dizer: «Tem razão o fidalgo, a pequena encontrou marido

muito melhor do que o meu filho.» Ah! eu já estou vendo a cara que v.

exc.ª faz. Pois então, snr. D. Luiz, se v. exc.ª ainda se tem lá nas

suas tamancas, como d'antes, deixe casar a rapariga com um homem honrado

e não lhe ande a metter loucuras na cabeça, que isso até é uma

consciencia! Olha agora!

D. Luiz sentiu que lhe fugia o terreno n'este campo e tentou uma

evasiva.

--Não teria que dizer a esse casamento, se Bertha sentisse inclinação

para o seu filho, mas...

--Mas o quê? Pois não foi ella que por sua livre vontade disse que sim?

Quem a obrigou? Ora essa!

--Por comprazer, por condescendencia, mas não porque lh'o pedisse o

coração!

--Ora, e v. exc.ª a importar-se com o que pede o coração de uma

rapariga, ora, ora...

--E porque não? Desgraçada d'ella se der um passo tal sem que lh'o

approve o coração.

--Então acha o fidalgo que n'isto de casamentos o coração tambem tem

voto?

--Por certo.

--O coração de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que conselheiros!

--Um coração como o de Bertha, é um bom conselheiro; não se engana, nem

engana.

--Até que te pilhei!--exclamou a Anna do Védor, batendo as mãos, e

esquecendo-se, no impeto da exclamação, de manter o mesmo tom e

tractamento, que até alli estivera usando com o fidalgo.--Muito bem,

pois saiba o fidalgo, que para mim já não é novidade o não ter Bertha

inclinação para o meu filho, nem de tal casamento se falla já, porque o

meu Clemente, por emquanto, não aceita mulheres que não entrem para casa

d'elle com o coração. Isso já estava decidido. Mas eu o que quiz foi

ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero vêr agora como se ha de sahir

das talas em que se metteu. Porque, sabe porque a Berthasinha não gosta

do meu Clemente? É porque já gostava de outro... E sabe v. exc.ª quem é

esse outro? Olhe que foi o coração de Bertha que o escolheu, o tal

coração que não se engana; esse outro é o filho de v. exc.ª, o snr.

Jorge. Ora ahi tem; agora então veja se está por o que disse.

D. Luiz ficou por muito tempo a olhar para a Anna do Védor com a vista

espantada e sem articular palavra.

--Jorge!--murmurou elle a final e quasi inaudivelmente.

--Sim senhor, Jorge. E que me diz v. exc.ª a isto?

--Jorge, Bertha...--repetia o velho, assombrado com a

revelação.--Mulher, quem lhe disse isso?

--Seu filho, entre outros.

--Jorge! Terei por acaso eu sido a victima de uma intriga

infame?--exclamou o fidalgo tremulo de raiva.--Isto é de enlouquecer.

--Qual intriga nem meia intriga? Isto tudo foi a coisa mais innocente e

natural do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do

rapaz, o costume desde o tempo de Adão e Eva, e ninguem soube d'isso

senão agora.

--Jorge! Ó meu Deus; porque havias de me dar filhos só para me

affligirem e envergonharem!

--Ora ahi está! Até agora nem o meu Clemente lhe servia para a Bertha,

em taes alturas a punha. Agora então já o filho o deshonra só por gostar

da rapariga. Entendam-n'o lá. Que tal é o amor que o padrinho tem á

afilhada?! Eu cá de mim não entendo estas amizades de tarraxa.

D. Luiz não dava attenção ás reflexões da Anna. Luctavam-lhe no coração

paixões encontradas e violentas: sob a influencia de umas sentia-se

cahir em profundo desalento, outras incitavam-n'o, pelo contrario, a uma

reacção desesperada.

Thomé não se enganára nas suas previsões. As suspeitas e preconceitos

mal abafados no coração do fidalgo contra o lavrador alvoroçaram-se com

a revelação que acabava de ouvir.

A intimidade de Jorge com Thomé, os serviços prestados por este á casa,

a vinda de Bertha para os Bacellos por espontanea deliberação do pae,

tudo explicava o seu espirito preoccupado por uma trama infernal

combinada por o fazendeiro.

--Era a isto que elle queria chegar!--bradava irritado o

fidalgo.--Descobriu-se finalmente o hypocrita! A audacia d'esta gente

não tem limites! Gabem-me os brios e a nobreza de alma d'estes

miseraveis! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a prêsa,

attrahiu-a a si e feriu-a! Que ambição! Ahi está no que deu o

desinteresse dos seus actos, a lealdade das suas intenções! Até da filha

se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e machinações! Ha

nada mais vil? Trouxe-m'a para casa, como a vibora que me havia de

inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doença,

deixei-me illudir! Oh! mas elles mal sabem com quem se mettem e no que

se mettem! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a

vida se lhes está a apagar, a vontade póde reunir em um instante toda a

energia de que precisa para esmagal-os, antes de morrer!

E D. Luiz, no auge da indignação, ergueu-se da cadeira em que estava

sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os

braços estendidos, bradou:

--E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me

n'estes ultimos dias de minha vida!

Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem já a ouvia.

Fraqueando-lhe já a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio,

continuava em tom cavernoso:

--Eu lhes juro que não me hão de vencer na lucta que provocaram. Quando

me tiverem já usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de

minha familia, hão de ainda vergar sob o pêso das minhas maldições,

porque eu acredito que ha um Deus no céo e que as pragas de um velho

ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraças sobre a cabeça

dos miseraveis que me insultam.

--Fidalgo, fidalgo, volte a si!--bradava Anna do Védor devéras

consternada.

O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia

crescente:

--Deixem-me! Deixem-me! Quero viver só, de hoje em diante! Só! Não quero

vêr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se

aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que

abro o coração transforma-se cá dentro em um veneno corrosivo! Oh! É de

mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui só, ninguem me appareça,

ninguem me falle, deixem-me!

N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela

altercação que lhe parecêra ouvir no quarto do padrinho e perguntou

assustada:

--Que é o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu?

O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e

injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou:

--És tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe

d'ahi! Sahe! Não me appareças! Não me falles! Não me faças descrêr de

Deus! Não quero vêr ninguem, já disse! Deixem-me!

Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformação

nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto,

saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos.

--Ó fidalgo!--acudiu a Anna do Védor cada vez mais assustada pelo estado

em que o via--ó fidalgo! olhe que está fóra de si! Isso que é? A pobre

rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem

ella? Coitada da pobre!

--É o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu

sou--respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira já desalentado.

--Não diga essas coisas, que até é peccado! Que motivos tem para essas

furias? Olha agora! O que eu lhe disse não é para tanto. Além de que,

socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais até do

que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa

elles se deixarão morrer, e até parece que estão n'essa resolução, do

que lhe darão o desgosto de que tanto se receia, não sei porquê. E olhe

que o rapaz já não está longe de fazer a tal viagem. A não lhe agradar

mais vêl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer é...

D. Luiz mostrava não dar a menor attenção ao que a mulher dizia. O

accesso de desespero passára. Com gesto e voz de abatimento

interrompeu-a, perguntando:

--A pequena ia devéras a chorar?

--Podéra não. Ao rompante com que v. ex.ª lhe fallou! E sem razão

alguma, porque, como eu disse a v. exc.ª, elles...

O fidalgo suspirou:

--É uma fatalidade!--disse elle a meia voz.--Pobre rapariga! De certo

que não é ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mãos dos

outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar só, peço-lhe

que me deixe só.

--Pois fique-se com Deus.

--Olhe, Anna, olhe, se vir ahi fóra a pequena, diga-lhe que venha cá; se

ahi não estiver... mande chamal-a, sim? Eu quero fallar-lhe.

--Olhe lá o que vae dizer-lhe, fidalgo! Não afflija a pobre rapariga,

que bem lhe basta...

--Faça-me o que lhe peço, Anna, faça, e vá descançada.

--Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se não quer perder o filho,

ande com cautela n'este negocio.

A Anna do Védor, que não obteve resposta a esta ultima advertencia,

sahiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu

junto do fidalgo, e quasi arrependida por o haver dado.

D. Luiz ficou só por algum tempo, com a cabeça escondida entre as mãos e

os cotovêlos apoiados nos braços da poltrona.

--Até que ponto levareis esta provação, meu Deus?!--murmurava elle quasi

soluçando.

Passados momentos entrava no quarto e avançava timidamente com hesitação

ao encontro do velho, Bertha com os olhos ainda chorosos e o gesto

commovido.

Ao rumor dos passos leves de Bertha, o fidalgo elevou a cabeça e fitou a

afilhada com expressão de melancolia e affecto.

--Anda cá, Bertha; vem cá, minha filha. Então não vês como eu pago os

cuidados que tens tido commigo? Que queres tu? Isto em mim é já loucura!

Ao tom affectuoso e triste d'estas palavras dissipou-se a hesitação de

Bertha, que correu a ajoelhar-se junto do velho, pegando-lhe nas mãos

enternecida:

--Não diga isso, snr. D. Luiz. Eu bem sei que eram impaciencias de

doente.

D. Luiz segurou-lhe a cabeça entre as mãos e, olhando-a fixamente,

murmurou:

--Pobre criança! Fiz-te chorar! Nem que te não bastassem os teus

soffrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu não tens culpa no que os outros

fazem. Não é possivel que tenhas culpa.

E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam apparecer as lagrimas.

--Perdoar-lhe? O que lhe hei de eu perdoar? A affeição que me tem? Só se

fôr isso.

--Ahi vem outra vez as lagrimas! Enxuga-as. Não quero fazer-te chorar

mais. Não faças caso do que eu digo, Bertha, que sou um tonto. É uma

ingratidão de minha parte, uma feia ingratidão.

--O que me faz pena é vêl-o afflicto. Cuidei que estava peior.

--Não; é que essa mulher que d'ahi sahiu disse-me coisas...

E olhando outra vez fixamente para Bertha, acrescentou depois de alguma

hesitação:

--Bertha, tu és sinceramente minha amiga?

--Ó meu padrinho. Que pergunta!

--Nem tu eras capaz de fingir um affecto que não sentisses. Creio bem.

--Porém, meu Deus, o que quer dizer com isso?

--Nada. Olha cá, Bertha... Quando tu vieste para os Bacellos... quando

vieste para ao pé de mim... foi teu pae que te disse que viesses, não

foi?

--Meu pae leu-me a carta da snr.ª baroneza, em que lhe participava que

ia partir para Lisboa e que o snr. D. Luiz ficava sem ter quem o

tractasse... e eu então lembrei-me do mesmo que meu pae já tinha tambem

no pensamento e pedi-lhe para me deixar vir.

--E elle disse logo que sim, já se sabe?

--Se era essa mesma a sua ideia.

--Ah! era essa a sua ideia? E... e Jorge não foi ouvido n'essa occasião?

Porque Jorge ia muito por vossa casa, não ia?

Bertha principiava a sentir-se inquieta com esta inquirição.

--O snr. Jorge--respondeu ella um pouco a medo--ia ás vezes procurar meu

pae para fallar de negocios com elle; mas n'isto não foi consultado, que

eu saiba.

--Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa casa

de toda a familiaridade.

--Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que não fosse

meu pae.

--Pois nem comtigo?

--Commigo?--repetiu Bertha perturbada--Commigo menos do que com os

outros.

D. Luiz contrahiu as sobrancelhas como se esta resposta lhe fizesse

suspeitar uma dissimulação.

--Pois então Jorge nunca fallaria comtigo?

--Muito de passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas

maneiras taes, que cheguei a acreditar que me queria mal por algum

motivo desconhecido para mim.

D. Luiz fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os

vestigios da desvanecida irritação.

--Não esperava isso de ti, Bertha. Tu não és sincera commigo.

--Eu?

--Tu illudes-me como os outros a final, tu conspiras com elles contra a

tranquillidade dos meus dias, contra o socego d'este coração atribulado.

Deus te perdoe o mal que me fazes, tu, mais do que ninguem, porque te

queria devéras.

--Jesus, snr. D. Luiz, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz eu

mal? Por amor de Deus, diga, falle-me claro.

--Bertha, é preciso que me digas a verdade, se queres que não suspeite

de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos; é preciso que

não dissimules, como elles fazem, para me illudirem.

--Mas que quer que lhe diga, snr. D. Luiz? Prometto dizer-lhe a verdade,

nem eu lhe sei mentir.

--Então para que me dizes que Jorge te queria mal?

Bertha sentia-se cada vez mais sobresaltada pelas perguntas do fidalgo,

que pareciam dirigir-se ao segredo recatado, que ella conservava no

coração.

--Eu disse--respondeu ella--que cheguei a pensar que o snr. Jorge me

queria mal, porém...

A confusão que sentia não a deixou continuar.

O fidalgo notou aquella perturbação e abrandou mais a voz, tomou um tom

carinhoso e disse pegando-lhe affectuosamente na mão:

--Vamos, Bertha, socega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me

francamente o coração sem receio. Dize-me, é verdade que Jorge te disse

alguma vez que te amava? É verdade que entre vós ambos ha alguma

affeição, alguma promessa?

A pergunta, ainda que não já de todo inesperada, sobresaltou Bertha, que

não atinou com o que respondesse.

--Socega, minha filha--proseguiu o fidalgo, animando-a.--Bem vês que eu

não quero reprehender-te. Sómente queria que me dissesses a verdade a

este respeito.

--Meu padrinho--disse Bertha perturbada ainda--pois não se lembra do

pedido que lhe fiz ainda ha poucos dias?

--Do pedido?... Ah! sim... Fallas do casamento?... Mas se elle já se não

faz? Se foi a propria mãe de Clemente que me contou d'esses amores entre

ti e meu filho?

--Oh! não póde ser!--exclamou Bertha, consternada.

--Como havia ella de saber?... Como podia ella dizer isso?

--O mesmo Jorge lh'o revelou.

--Jorge!... o snr. Jorge!... É impossivel!

--Mas porque não respondes á minha pergunta? O que ha de verdade em tudo

isso?

Bertha conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta. Depois,

como se abraçasse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade:

--Tem razão, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ella tem em que

me envergonhar.

--Então é certo?

Bertha com os olhos fitos no chão e a voz mal firme, mas exprimindo

resolução, principiou:

--Um dia o snr. Jorge apresentou-se em casa de meu pae, a pedir-lhe, em

nome de Clemente, licença para o casamento que sabe....

--Como?! Foi Jorge que pediu esse consentimento? E antes d'isso não

tinha elle já dado a conhecer-te....

Bertha não o deixou continuar.

--Escute, snr. D. Luiz, que eu prometto dizer-lhe toda a verdade. Meu

pae chamou-me para consultar-me a esse proposito.

--Ah! teu pae consultou-te?! E esperava que tu recusasses, não é

verdade?

--Eu nunca pensára em casar-me, nunca pensára até no futuro, por isso

aquella proposta sobresaltou-me.

--E respondeste....

--Depois o ter sido feita pelo snr. Jorge mais me perturbava ainda.

--Sim, porque elle havia-te jurado talvez....

--Não havia jurado coisa alguma; quasi nem me fallára detidamente desde

que eu voltára á aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a minha

presença lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam. Não era

possivel illudir-me a esse respeito. Affligia-me vêr a pouca sympathia

que eu merecêra, sem saber porquê, a um rapaz que todos diziam tão

generoso, tão indulgente e de tanto juizo; e isto era causa para eu

muito pensar no que poderia dar motivo áquelle proceder d'elle para

commigo. Tinha isto sempre na ideia, observava-o, estudava-o... e foi

mau isto, bem sinto que foi mau.

--Porquê?

--Porque quanto mais o observava--continuou Bertha, com ingenua

sinceridade--mais de perto lhe conhecia as nobres qualidades, e senti a

pouco e pouco em mim uma admiração por elle, uma sympathia, um respeito,

um....

--Um amor--concluiu D. Luiz, vendo a hesitação de Bertha.

--Uma loucura--emendou esta--que eu tractei logo de abafar em mim,

porque desde o principio a vi tal como ella era.

--És um anjo--disse D. Luiz, afagando-a.

Bertha proseguiu:

--Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para

mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me

quasi uma perseguição; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava

a proposta de Clemente.

--E elle... e elles que disseram?

--Ficando momentos depois só com o snr. Jorge e sem que podésse já reter

as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razões que o

tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta,

porque motivo eu lhe era tão odiosa, o que é que o levára a fazer-me

mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejára.

--E elle?

--Foi então--proseguiu Bertha, mas enleiada--que imprevistamente elle me

confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má

vontade, da dureza das suas palavras era... a affeição que me tinha e

que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu

tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de

familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão

a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as

minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu

não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle

quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.

--Pobre rapariga!--murmurou D. Luiz commovido.

--Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses...

amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que

nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa

loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu

vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.

--E teu pae nada soube de tudo isso?--perguntou o desconfiado fidalgo.

--Se nós mesmos o não sabiamos!--respondeu Bertha com ingenuidade.

Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas

mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo,

verdadeiramente paternal.

--Era bem digna de ter nascido entre a nobreza--disse elle

suspirando--quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas

creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre

pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração

que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o

reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha

certas exigencias tradicionaes....

--Snr. D. Luiz--disse Bertha interrompendo-o--repare que ha dias que eu

lhe pedi o seu consentimento....

--Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de

rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão

longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas?

--Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O

destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia

de cumpril-a?

--Illudindo, porque não podias amar.

--Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe.

--E elle aceitou?!

--Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não....

Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e

desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com

ar pensativo.

Foi elle quem renovou o dialogo.

--Custa-te muito o sacrificio que fazes, não é verdade?

--Para que hei de dizer que não? Custa-me como quando ao acordar de

sonhar um sonho agradavel, me convenço de que foi um sonho tudo. Sabe

porém o que me anima? É o pensar que mais me custaria se o sonho se

realisasse.

--Porquê?

--Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei

sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha

parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Nós tambem temos

o nosso orgulho, snr. D. Luiz--acrescentou ella, sorrindo.

--E nobre que elle é--acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado.

N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabeça pela

abertura.

--Que é?--perguntou D. Luiz, irritado.

--É o Thomé da Povoa ... é o pae d'essa menina que a procura.

--A mim?--disse Bertha, levantando-se.

--Sim, menina--tornou o padre--e parece-me que procura a v. exc.ª

tambem.

--Pois que entre--respondeu D. Luiz asperamente.

Passados momentos Thomé da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com

as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 72 / 93 题