Desde o dia em que Bertha fallára no seu casamento ao fidalgo da Casa
Mourisca nunca mais correram as horas nos Bacellos para o velho e para a
rapariga tão alegres como até ahi.
Nem uma palavra se trocou mais entre elles sobre o assumpto, mas facil
era de perceber que elle ainda dominava o pensamento de ambos.
Tanto os sorrisos de Bertha como aquelles com que D. Luiz lhes
correspondia empanava-os uma nuvem de tristeza.
O fidalgo a cada momento pensava na separação imminente, na necessidade
de dar á afilhada o consentimento promettido, e cada vez menos coragem
sentia para fazêl-o.
Bertha recebia como que a projecção da tristeza do velho; demais a sua
propria crescia á medida que se aproximava o momento em que tinha de
realisar-se o sacrificio do seu coração, sacrificio cuja grandeza de dia
para dia mais avultava no seu espirito.
Actuou esta influencia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento
adquirido sob a benefica vigilancia da rapariga.
Por isso no dia em que se passaram as scenas narradas no ultimo capitulo
e nas quaes a intrepida Anna do Védor desempenhou tão importante papel,
D. Luiz achava-se em um estado de abatimento pouco animador.
Não sahira esse dia do quarto, como era seu costume quando ia sentar-se
com Bertha á sombra das arvores. Queixou-se de fraqueza e de frio e
ficou na poltrona ao lado da janella a espreitar por dentro das vidraças
para as avenidas da quinta.
Bertha havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um
remedio; e o doente ficando só, cahira em uma profunda meditação,
seguindo machinalmente com a vista os movimentos de uma avesita que
saltava nos ramos d'uma arvore distante.
De repente chamou-lhe a attenção o rumor dos passos de alguem, que se
aproximava no corredor e que parou á porta do quarto, como se hesitasse
ao entrar.
--Quem está ahi?--perguntou o fidalgo, não vendo apparecer ninguem.
A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Anna do Védor,
offegante pela carreira que trouxera de casa do Thomé até alli,
desenhou-se no limiar.
--Sou eu; o fidalgo dá licença?--respondeu a Anna.
D. Luiz teve um negro presentimento assim que viu a figura da mãe de
Clemente, o pretendido noivo de Bertha.
Com mal disfarçado azedume disse-lhe:
--É vossê, Anna? Entre.
Anna entrou com o desembaraço com que entrava em toda a parte.
--Então como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo
se guarda para a velhice.
--É assim, é--disse sêcamente o fidalgo.--Então a que vem aqui, Anna?
Anna do Védor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo
recebida e por isso respondeu menos affavel:
--Primeiro que tudo, vim vêl-o, como era da minha obrigação, pois não me
esqueço de que já comi do pão de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se
a minha vida me deixasse; mas sou eu só em casa, como v. exc.ª sabe, a
fazer o serviço, e a idade já me vae pesando. E agora por isso vem a
pêllo dizer a outra coisa que me trouxe cá. Venho saber de v. exc.ª
quando é que póde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que está
justo entre ella e o meu filho.
O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de côr, e mais do
que uma paixão lhe desenhou successivamente no semblante em traços
fugitivos o aspecto physionomico.
--Então vem para a buscar?--perguntou elle com voz alterada.
--Não, senhor, não venho para a buscar, venho para saber de v. exc.ª
quando ella póde ir.
--Ella não é minha filha. Quando quizer, que vá.
--Mau! O fidalgo não quer entender-me.
--Eu o que não quero é occupar-me d'esse casamento--replicou D. Luiz
mais agastado.--Quando quizerem fazer esse disparate, façam-n'o. Levem
d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a á sua vontade, mas não me peçam o
consentimento, porque eu estou com os pés na cova e não quero levar para
a sepultura mais remorsos.
A mãe de Clemente não estranhou esta resposta azeda do fidalgo, que de
proposito provocára.
Picada porém no seu orgulho materno por algumas phrases que ouvira,
acudiu logo:
--Que está o fidalgo a dizer? Disparate... remorsos... Que disparate
acha o fidalgo no casamento de Bertha com o meu Clemente? Remorsos! Ora
essa está boa! Nem que se tractasse de enforcar alguem! Ora esta! Olha
agora!
--Anna, eu não quero offender o seu filho, que sei que é bom rapaz, mas
o que elle não é, é homem para Bertha.
--E onde é que v. exc.ª vae buscar marido para Bertha? O meu Clemente
não serve? Pois bem, como a rapariga não está para freira, diga-me v.
exc.ª que faz tenção de a casar na sua familia, e eu calo já a bôca e
sou a primeira a dizer: «Tem razão o fidalgo, a pequena encontrou marido
muito melhor do que o meu filho.» Ah! eu já estou vendo a cara que v.
exc.ª faz. Pois então, snr. D. Luiz, se v. exc.ª ainda se tem lá nas
suas tamancas, como d'antes, deixe casar a rapariga com um homem honrado
e não lhe ande a metter loucuras na cabeça, que isso até é uma
consciencia! Olha agora!
D. Luiz sentiu que lhe fugia o terreno n'este campo e tentou uma
evasiva.
--Não teria que dizer a esse casamento, se Bertha sentisse inclinação
para o seu filho, mas...
--Mas o quê? Pois não foi ella que por sua livre vontade disse que sim?
Quem a obrigou? Ora essa!
--Por comprazer, por condescendencia, mas não porque lh'o pedisse o
coração!
--Ora, e v. exc.ª a importar-se com o que pede o coração de uma
rapariga, ora, ora...
--E porque não? Desgraçada d'ella se der um passo tal sem que lh'o
approve o coração.
--Então acha o fidalgo que n'isto de casamentos o coração tambem tem
voto?
--Por certo.
--O coração de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que conselheiros!
--Um coração como o de Bertha, é um bom conselheiro; não se engana, nem
engana.
--Até que te pilhei!--exclamou a Anna do Védor, batendo as mãos, e
esquecendo-se, no impeto da exclamação, de manter o mesmo tom e
tractamento, que até alli estivera usando com o fidalgo.--Muito bem,
pois saiba o fidalgo, que para mim já não é novidade o não ter Bertha
inclinação para o meu filho, nem de tal casamento se falla já, porque o
meu Clemente, por emquanto, não aceita mulheres que não entrem para casa
d'elle com o coração. Isso já estava decidido. Mas eu o que quiz foi
ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero vêr agora como se ha de sahir
das talas em que se metteu. Porque, sabe porque a Berthasinha não gosta
do meu Clemente? É porque já gostava de outro... E sabe v. exc.ª quem é
esse outro? Olhe que foi o coração de Bertha que o escolheu, o tal
coração que não se engana; esse outro é o filho de v. exc.ª, o snr.
Jorge. Ora ahi tem; agora então veja se está por o que disse.
D. Luiz ficou por muito tempo a olhar para a Anna do Védor com a vista
espantada e sem articular palavra.
--Jorge!--murmurou elle a final e quasi inaudivelmente.
--Sim senhor, Jorge. E que me diz v. exc.ª a isto?
--Jorge, Bertha...--repetia o velho, assombrado com a
revelação.--Mulher, quem lhe disse isso?
--Seu filho, entre outros.
--Jorge! Terei por acaso eu sido a victima de uma intriga
infame?--exclamou o fidalgo tremulo de raiva.--Isto é de enlouquecer.
--Qual intriga nem meia intriga? Isto tudo foi a coisa mais innocente e
natural do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do
rapaz, o costume desde o tempo de Adão e Eva, e ninguem soube d'isso
senão agora.
--Jorge! Ó meu Deus; porque havias de me dar filhos só para me
affligirem e envergonharem!
--Ora ahi está! Até agora nem o meu Clemente lhe servia para a Bertha,
em taes alturas a punha. Agora então já o filho o deshonra só por gostar
da rapariga. Entendam-n'o lá. Que tal é o amor que o padrinho tem á
afilhada?! Eu cá de mim não entendo estas amizades de tarraxa.
D. Luiz não dava attenção ás reflexões da Anna. Luctavam-lhe no coração
paixões encontradas e violentas: sob a influencia de umas sentia-se
cahir em profundo desalento, outras incitavam-n'o, pelo contrario, a uma
reacção desesperada.
Thomé não se enganára nas suas previsões. As suspeitas e preconceitos
mal abafados no coração do fidalgo contra o lavrador alvoroçaram-se com
a revelação que acabava de ouvir.
A intimidade de Jorge com Thomé, os serviços prestados por este á casa,
a vinda de Bertha para os Bacellos por espontanea deliberação do pae,
tudo explicava o seu espirito preoccupado por uma trama infernal
combinada por o fazendeiro.
--Era a isto que elle queria chegar!--bradava irritado o
fidalgo.--Descobriu-se finalmente o hypocrita! A audacia d'esta gente
não tem limites! Gabem-me os brios e a nobreza de alma d'estes
miseraveis! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a prêsa,
attrahiu-a a si e feriu-a! Que ambição! Ahi está no que deu o
desinteresse dos seus actos, a lealdade das suas intenções! Até da filha
se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e machinações! Ha
nada mais vil? Trouxe-m'a para casa, como a vibora que me havia de
inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doença,
deixei-me illudir! Oh! mas elles mal sabem com quem se mettem e no que
se mettem! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a
vida se lhes está a apagar, a vontade póde reunir em um instante toda a
energia de que precisa para esmagal-os, antes de morrer!
E D. Luiz, no auge da indignação, ergueu-se da cadeira em que estava
sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os
braços estendidos, bradou:
--E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me
n'estes ultimos dias de minha vida!
Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem já a ouvia.
Fraqueando-lhe já a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio,
continuava em tom cavernoso:
--Eu lhes juro que não me hão de vencer na lucta que provocaram. Quando
me tiverem já usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de
minha familia, hão de ainda vergar sob o pêso das minhas maldições,
porque eu acredito que ha um Deus no céo e que as pragas de um velho
ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraças sobre a cabeça
dos miseraveis que me insultam.
--Fidalgo, fidalgo, volte a si!--bradava Anna do Védor devéras
consternada.
O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia
crescente:
--Deixem-me! Deixem-me! Quero viver só, de hoje em diante! Só! Não quero
vêr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se
aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que
abro o coração transforma-se cá dentro em um veneno corrosivo! Oh! É de
mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui só, ninguem me appareça,
ninguem me falle, deixem-me!
N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela
altercação que lhe parecêra ouvir no quarto do padrinho e perguntou
assustada:
--Que é o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu?
O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e
injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou:
--És tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe
d'ahi! Sahe! Não me appareças! Não me falles! Não me faças descrêr de
Deus! Não quero vêr ninguem, já disse! Deixem-me!
Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformação
nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto,
saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos.
--Ó fidalgo!--acudiu a Anna do Védor cada vez mais assustada pelo estado
em que o via--ó fidalgo! olhe que está fóra de si! Isso que é? A pobre
rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem
ella? Coitada da pobre!
--É o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu
sou--respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira já desalentado.
--Não diga essas coisas, que até é peccado! Que motivos tem para essas
furias? Olha agora! O que eu lhe disse não é para tanto. Além de que,
socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais até do
que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa
elles se deixarão morrer, e até parece que estão n'essa resolução, do
que lhe darão o desgosto de que tanto se receia, não sei porquê. E olhe
que o rapaz já não está longe de fazer a tal viagem. A não lhe agradar
mais vêl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer é...
D. Luiz mostrava não dar a menor attenção ao que a mulher dizia. O
accesso de desespero passára. Com gesto e voz de abatimento
interrompeu-a, perguntando:
--A pequena ia devéras a chorar?
--Podéra não. Ao rompante com que v. ex.ª lhe fallou! E sem razão
alguma, porque, como eu disse a v. exc.ª, elles...
O fidalgo suspirou:
--É uma fatalidade!--disse elle a meia voz.--Pobre rapariga! De certo
que não é ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mãos dos
outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar só, peço-lhe
que me deixe só.
--Pois fique-se com Deus.
--Olhe, Anna, olhe, se vir ahi fóra a pequena, diga-lhe que venha cá; se
ahi não estiver... mande chamal-a, sim? Eu quero fallar-lhe.
--Olhe lá o que vae dizer-lhe, fidalgo! Não afflija a pobre rapariga,
que bem lhe basta...
--Faça-me o que lhe peço, Anna, faça, e vá descançada.
--Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se não quer perder o filho,
ande com cautela n'este negocio.
A Anna do Védor, que não obteve resposta a esta ultima advertencia,
sahiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu
junto do fidalgo, e quasi arrependida por o haver dado.
D. Luiz ficou só por algum tempo, com a cabeça escondida entre as mãos e
os cotovêlos apoiados nos braços da poltrona.
--Até que ponto levareis esta provação, meu Deus?!--murmurava elle quasi
soluçando.
Passados momentos entrava no quarto e avançava timidamente com hesitação
ao encontro do velho, Bertha com os olhos ainda chorosos e o gesto
commovido.
Ao rumor dos passos leves de Bertha, o fidalgo elevou a cabeça e fitou a
afilhada com expressão de melancolia e affecto.
--Anda cá, Bertha; vem cá, minha filha. Então não vês como eu pago os
cuidados que tens tido commigo? Que queres tu? Isto em mim é já loucura!
Ao tom affectuoso e triste d'estas palavras dissipou-se a hesitação de
Bertha, que correu a ajoelhar-se junto do velho, pegando-lhe nas mãos
enternecida:
--Não diga isso, snr. D. Luiz. Eu bem sei que eram impaciencias de
doente.
D. Luiz segurou-lhe a cabeça entre as mãos e, olhando-a fixamente,
murmurou:
--Pobre criança! Fiz-te chorar! Nem que te não bastassem os teus
soffrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu não tens culpa no que os outros
fazem. Não é possivel que tenhas culpa.
E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam apparecer as lagrimas.
--Perdoar-lhe? O que lhe hei de eu perdoar? A affeição que me tem? Só se
fôr isso.
--Ahi vem outra vez as lagrimas! Enxuga-as. Não quero fazer-te chorar
mais. Não faças caso do que eu digo, Bertha, que sou um tonto. É uma
ingratidão de minha parte, uma feia ingratidão.
--O que me faz pena é vêl-o afflicto. Cuidei que estava peior.
--Não; é que essa mulher que d'ahi sahiu disse-me coisas...
E olhando outra vez fixamente para Bertha, acrescentou depois de alguma
hesitação:
--Bertha, tu és sinceramente minha amiga?
--Ó meu padrinho. Que pergunta!
--Nem tu eras capaz de fingir um affecto que não sentisses. Creio bem.
--Porém, meu Deus, o que quer dizer com isso?
--Nada. Olha cá, Bertha... Quando tu vieste para os Bacellos... quando
vieste para ao pé de mim... foi teu pae que te disse que viesses, não
foi?
--Meu pae leu-me a carta da snr.ª baroneza, em que lhe participava que
ia partir para Lisboa e que o snr. D. Luiz ficava sem ter quem o
tractasse... e eu então lembrei-me do mesmo que meu pae já tinha tambem
no pensamento e pedi-lhe para me deixar vir.
--E elle disse logo que sim, já se sabe?
--Se era essa mesma a sua ideia.
--Ah! era essa a sua ideia? E... e Jorge não foi ouvido n'essa occasião?
Porque Jorge ia muito por vossa casa, não ia?
Bertha principiava a sentir-se inquieta com esta inquirição.
--O snr. Jorge--respondeu ella um pouco a medo--ia ás vezes procurar meu
pae para fallar de negocios com elle; mas n'isto não foi consultado, que
eu saiba.
--Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa casa
de toda a familiaridade.
--Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que não fosse
meu pae.
--Pois nem comtigo?
--Commigo?--repetiu Bertha perturbada--Commigo menos do que com os
outros.
D. Luiz contrahiu as sobrancelhas como se esta resposta lhe fizesse
suspeitar uma dissimulação.
--Pois então Jorge nunca fallaria comtigo?
--Muito de passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas
maneiras taes, que cheguei a acreditar que me queria mal por algum
motivo desconhecido para mim.
D. Luiz fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os
vestigios da desvanecida irritação.
--Não esperava isso de ti, Bertha. Tu não és sincera commigo.
--Eu?
--Tu illudes-me como os outros a final, tu conspiras com elles contra a
tranquillidade dos meus dias, contra o socego d'este coração atribulado.
Deus te perdoe o mal que me fazes, tu, mais do que ninguem, porque te
queria devéras.
--Jesus, snr. D. Luiz, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz eu
mal? Por amor de Deus, diga, falle-me claro.
--Bertha, é preciso que me digas a verdade, se queres que não suspeite
de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos; é preciso que
não dissimules, como elles fazem, para me illudirem.
--Mas que quer que lhe diga, snr. D. Luiz? Prometto dizer-lhe a verdade,
nem eu lhe sei mentir.
--Então para que me dizes que Jorge te queria mal?
Bertha sentia-se cada vez mais sobresaltada pelas perguntas do fidalgo,
que pareciam dirigir-se ao segredo recatado, que ella conservava no
coração.
--Eu disse--respondeu ella--que cheguei a pensar que o snr. Jorge me
queria mal, porém...
A confusão que sentia não a deixou continuar.
O fidalgo notou aquella perturbação e abrandou mais a voz, tomou um tom
carinhoso e disse pegando-lhe affectuosamente na mão:
--Vamos, Bertha, socega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me
francamente o coração sem receio. Dize-me, é verdade que Jorge te disse
alguma vez que te amava? É verdade que entre vós ambos ha alguma
affeição, alguma promessa?
A pergunta, ainda que não já de todo inesperada, sobresaltou Bertha, que
não atinou com o que respondesse.
--Socega, minha filha--proseguiu o fidalgo, animando-a.--Bem vês que eu
não quero reprehender-te. Sómente queria que me dissesses a verdade a
este respeito.
--Meu padrinho--disse Bertha perturbada ainda--pois não se lembra do
pedido que lhe fiz ainda ha poucos dias?
--Do pedido?... Ah! sim... Fallas do casamento?... Mas se elle já se não
faz? Se foi a propria mãe de Clemente que me contou d'esses amores entre
ti e meu filho?
--Oh! não póde ser!--exclamou Bertha, consternada.
--Como havia ella de saber?... Como podia ella dizer isso?
--O mesmo Jorge lh'o revelou.
--Jorge!... o snr. Jorge!... É impossivel!
--Mas porque não respondes á minha pergunta? O que ha de verdade em tudo
isso?
Bertha conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta. Depois,
como se abraçasse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade:
--Tem razão, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ella tem em que
me envergonhar.
--Então é certo?
Bertha com os olhos fitos no chão e a voz mal firme, mas exprimindo
resolução, principiou:
--Um dia o snr. Jorge apresentou-se em casa de meu pae, a pedir-lhe, em
nome de Clemente, licença para o casamento que sabe....
--Como?! Foi Jorge que pediu esse consentimento? E antes d'isso não
tinha elle já dado a conhecer-te....
Bertha não o deixou continuar.
--Escute, snr. D. Luiz, que eu prometto dizer-lhe toda a verdade. Meu
pae chamou-me para consultar-me a esse proposito.
--Ah! teu pae consultou-te?! E esperava que tu recusasses, não é
verdade?
--Eu nunca pensára em casar-me, nunca pensára até no futuro, por isso
aquella proposta sobresaltou-me.
--E respondeste....
--Depois o ter sido feita pelo snr. Jorge mais me perturbava ainda.
--Sim, porque elle havia-te jurado talvez....
--Não havia jurado coisa alguma; quasi nem me fallára detidamente desde
que eu voltára á aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a minha
presença lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam. Não era
possivel illudir-me a esse respeito. Affligia-me vêr a pouca sympathia
que eu merecêra, sem saber porquê, a um rapaz que todos diziam tão
generoso, tão indulgente e de tanto juizo; e isto era causa para eu
muito pensar no que poderia dar motivo áquelle proceder d'elle para
commigo. Tinha isto sempre na ideia, observava-o, estudava-o... e foi
mau isto, bem sinto que foi mau.
--Porquê?
--Porque quanto mais o observava--continuou Bertha, com ingenua
sinceridade--mais de perto lhe conhecia as nobres qualidades, e senti a
pouco e pouco em mim uma admiração por elle, uma sympathia, um respeito,
um....
--Um amor--concluiu D. Luiz, vendo a hesitação de Bertha.
--Uma loucura--emendou esta--que eu tractei logo de abafar em mim,
porque desde o principio a vi tal como ella era.
--És um anjo--disse D. Luiz, afagando-a.
Bertha proseguiu:
--Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para
mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me
quasi uma perseguição; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava
a proposta de Clemente.
--E elle... e elles que disseram?
--Ficando momentos depois só com o snr. Jorge e sem que podésse já reter
as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razões que o
tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta,
porque motivo eu lhe era tão odiosa, o que é que o levára a fazer-me
mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejára.
--E elle?
--Foi então--proseguiu Bertha, mas enleiada--que imprevistamente elle me
confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má
vontade, da dureza das suas palavras era... a affeição que me tinha e
que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu
tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de
familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão
a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as
minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu
não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle
quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.
--Pobre rapariga!--murmurou D. Luiz commovido.
--Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses...
amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que
nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa
loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu
vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.
--E teu pae nada soube de tudo isso?--perguntou o desconfiado fidalgo.
--Se nós mesmos o não sabiamos!--respondeu Bertha com ingenuidade.
Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas
mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo,
verdadeiramente paternal.
--Era bem digna de ter nascido entre a nobreza--disse elle
suspirando--quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas
creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre
pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração
que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o
reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha
certas exigencias tradicionaes....
--Snr. D. Luiz--disse Bertha interrompendo-o--repare que ha dias que eu
lhe pedi o seu consentimento....
--Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de
rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão
longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas?
--Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O
destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia
de cumpril-a?
--Illudindo, porque não podias amar.
--Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe.
--E elle aceitou?!
--Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não....
Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e
desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com
ar pensativo.
Foi elle quem renovou o dialogo.
--Custa-te muito o sacrificio que fazes, não é verdade?
--Para que hei de dizer que não? Custa-me como quando ao acordar de
sonhar um sonho agradavel, me convenço de que foi um sonho tudo. Sabe
porém o que me anima? É o pensar que mais me custaria se o sonho se
realisasse.
--Porquê?
--Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei
sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha
parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Nós tambem temos
o nosso orgulho, snr. D. Luiz--acrescentou ella, sorrindo.
--E nobre que elle é--acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado.
N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabeça pela
abertura.
--Que é?--perguntou D. Luiz, irritado.
--É o Thomé da Povoa ... é o pae d'essa menina que a procura.
--A mim?--disse Bertha, levantando-se.
--Sim, menina--tornou o padre--e parece-me que procura a v. exc.ª
tambem.
--Pois que entre--respondeu D. Luiz asperamente.
Passados momentos Thomé da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com
as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.