--Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeças na minha idade
vergam muito para a terra, pesam demasiado, não se póde exigir de umas
mãos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha!
Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Estás enganada. Esta
vida em mim é ficticia. É da tua presença que a recebo. Ámanhã que me
deixes vêr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a
minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois
mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir,
quasi sem comer, e nunca me faltaram as forças, e desde o momento em que
m'a tiraram dos braços para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda
a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, não
quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os
corações na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheço isso;
mas não me digas que é sómente a consciencia da missão que te compete na
vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e
abençoada como nenhuma, porque nenhum coração receberá de ti consolação
igual áquella que me dás; podes crêl-o, porque tambem poucos ha mais
apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas
queres deixar-me... Vae... vae, que eu não devo, nem quero impedir-te.
Havia tão sensivel commoção na voz com que D. Luiz pronunciára estas
palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mãos do
padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada:
--Ó meu padrinho, se é verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz
tão bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirará de junto de si, e
nenhuma sorte me será mais querida do que esta. Concorrendo para
alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um
encargo que Beatriz me deixou, e que ella do céo me sorri e agradece.
Quer que não saia de ao pé de si? quer que lhe consagre todos os meus
cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer.
O velho cingiu a formosa cabeça d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava
aos pés, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a
chorar.
--Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo
coração como um balsamo salutar. A minha vida não póde ser muito longa,
filha, o teu sacrificio não duraria muito tempo... mas nem eu quero que
faças promessas de cumpril-o. Só te peço que me dês algum tempo para
responder á tua petição, e que até lá me não falles mais n'esse
casamento. Eu pensarei e talvez... talvez me conforme com essa ideia,
contra a qual ainda me revolto. Póde ser isto? Podes esperar na minha
companhia alguns dias mais?
--Esperarei o tempo que quizer. E não pense por ora em tal casamento, se
esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto.
--Melhor foi que fallasses; é preciso pensar com vagar n'isso.
--Mas agora não, agora vamos até á quinta, que a manhã está bonita.
Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto á época
do casamento. Thomé teve de dizer a Anna do Védor que o fidalgo ainda
não podia prescindir da companhia de Bertha.
Anna não ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia
algumas azedas allusões ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o
pae, assim se sabia apropriar dos serviços que lhe prestava a filha.
Cumpre porém notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha
que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegára D.
Luiz.