--Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir
sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o
teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões
aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas
escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com
remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de
Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais
ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem
que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o
proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira
que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu
consentimento, faze lá o que quizeres.
E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado.
--Porém, meu padrinho--insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro
com a doce familiaridade de filha--não era esse consentimento de má
vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê.
--Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o
qual se revolta a consciencia? É boa!
--Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para
revoltar-se.
--Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma
inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia.
--Não digo, porque não diria a verdade.
--Mas então onde está essa necessidade de casamento?
Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para
convencêl-o.
--Olhe, snr. D. Luiz--disse ella--eu vou informal-o de todo o meu
pensamento, e dirá depois se tenho razão. A educação que meu pae me deu
não me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino
que me está reservado. O exemplo de minha mãe, que tem sabido em toda a
sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem
comprehendido que a sua missão era aquella, a de fazer-lhe esquecer em
casa os desgostos de fóra e dar-lhe forças para continuar a sua tarefa,
este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que terá de ser esse
o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle.
Sentia em mim forças para aceital-o e para cumpril-o.
--Mas nem só os homens do trabalho material e grosseiro são os que
precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia
tambem cansam, Bertha, e á cabeça desfallecida á força de estudo tambem
é grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descançar--redarguiu
o fidalgo com uma animação excepcional.
Bertha tornou-lhe, sorrindo:
--E qual seria a cabeça cansada de muito pensar que viria procurar a
esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe é de crêr que não
viessem, e as d'aqui... ha tão poucas que se sintam cansadas d'isso!
Creia, snr. D. Luiz, só um lavrador como Clemente procuraria a filha do
lavrador Thomé da Povoa, e Clemente é um homem digno de ser estimado.
--Só um lavrador! Que estás tu ahi a dizer?! E porquê? Tomaram-te para
esposa esses doutores que por ahi estão ociosos, comendo e bebendo á
custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida
inutil que levam; olha que não te haviam de engeitar esses morgados
vadios e perdularios, que passam a vida em caçadas e que arrastam o nome
que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassidão.
--Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes não devo preferir
Clemente?
--Pois não digo esses, mas... emfim... ainda por ahi ha gente... bem
educada...
--Se não fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo
acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum
dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva á casa de meu
pae.
O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e
justa indignação do coração, que depois de se haver sacrificado aos
preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio
negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu
vencido.
Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de
perder a companhia de Bertha, tornou:
--Muito bem, dizes que não amas esse homem, que não cedes a inclinação
alguma do coração, aceitando-o por marido; que se o fazes é por julgares
que é essa a tua missão de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e
de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa
missão vaes deixar-me só, velho, doente, abandonado dos filhos, sem
conforto algum na vida; só com as lembranças pungentes do meu passado, e
isto depois de me habituares á tua companhia, depois de me haveres
recordado as doçuras d'este viver ao lado de uma filha, doçura que o
amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que
vieste então? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado só, estaria morto
talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta
separação; para me fazeres morrer de paixão no dia em que celebrares
esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como
uma segunda Beatriz que Deus me concedêra, e podes julgar se eu daria a
Clemente uma filha minha.
--Meu padrinho!--exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltação do
fidalgo.