Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As
noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fôra hospedado em casa
de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros
circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento.
Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse
sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de
elegancia e de distincção, que não conhecêra no canto de sua provincia,
mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para
aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam.
Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente
que o asphyxiava. Não necessitou de longo tirocinio para conhecer os
usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias não
restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte
vocação substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso;
as mulheres, amavel; e para com todos soube ser tão insinuante, que os
influentes politicos, a quem a baroneza o recommendára, tomaram por elle
o mais vivo e promettedor interesse.
Escusado é dizer que Mauricio não foi muito escrupuloso na observancia
dos artigos de fé politicos com que D. Luiz doutrinára os filhos. Para
genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que póde ter uma
ideia é o estar fóra da moda.
Jorge sentia que não lhe era possivel abraçar a crença do pae, porque a
razão a condemnava; e estas convicções para toda a parte o
acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada
reflexão.
Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno,
só agora parecia havêl-o devéras renegado, porque o desgostavam os ares
de sédiço e desusado, com que elle lhe apparecia á esplendida claridade
dos salões da moda.
Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no
parlamento, no fôro, constituia agora o circulo habitual das relações de
Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de
eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como
principios assentes, certas proposições que elle fôra educado a
considerar como abominaveis heresias.
Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o
haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova.
A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira
e occultára parte da verdade a D. Luiz, para não o assustar.
Ella porém via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua
espectativa.
«Em pouco tempo--escrevia ella a Jorge--teu irmão tornou-se um homem
da moda, e é para ver o bem que elle sabe sustentar a posição que
tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros salões de
Lisboa, Mauricio está como em terreno conhecido, e muitos nados e
creados n'estes ares invejam-lhe o seu _aplomb_ e o seu _savoir
faire_ inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem
muito especialmente o recommendei, dá-me as melhores esperanças de
elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira
que sobre todas me parece a mais talhada para as predilecções e
talentos do nosso protegido.»
Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este
recordou-se, ao lêl-as, do tempo da sua juventude, em que tambem
trilhára a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do
irmão e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o
chamavam os seus talentos e as suas disposições moraes.
A imaginação de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas
proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a
consagração de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, não lhe
bastavam.
Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho.
As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impressões, as
luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos
espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos,
as suas faculdades entravam em acção. Não se contentava com os applausos
da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os
conquistar tentaria esforços sobrehumanos.
Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para
a gloria.
D. Luiz não pôde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do
filho, não obstante as vagas apprehensões que sentia de que a intima
convivencia com a corrupta mocidade da côrte o contaminasse. Felizmente
o velho realista não tinha já a seu lado o padre procurador, com a sua
incessante prégação contra os costumes do seculo, que era d'antes o
thema obrigado das conversações diarias. E desde então as prevenções do
fidalgo haviam perdido muito das côres carregadas que as tingiam.
Ás primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas
n'aquellas.
As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos
da côrte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle
para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim.
Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da
situação politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias
femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regiões,
como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor.
«Com mais um pequeno esforço talvez fosse possivel fazêl-o ministro,
(escrevia a baroneza a Jorge) que não é em Portugal dos postos de
mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que é a pasta
dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginação
como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque é a pasta
symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.»
N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de
uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento
com Mauricio.
«Não attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. Não é.
Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais
friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde
ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posição em
que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes á minha
mão, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam.
Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio é um
motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me
agradava mais, o que não quer dizer que me sinta apaixonada. Mas
muito teria que esperar se aguardasse por uma paixão para me
decidir. Já não estou em tempo d'isso. Mauricio é um rapaz amavel e
delicado bastante para não me dar motivos de arrepender-me. É quanto
exijo. Sou tolerante por indole e por habito, não terão portanto
effeito sobre mim os costumados motivos de desolação de todas as
esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio não
deixará de dar á sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle,
entendo que lhe convém este casamento. Primeiro, porque realisará
uma operação financeira um tanto vantajosa; depois porque, graças á
minha longanimidade, não peiará demasiadamente os seus movimentos de
rapaz com os laços matrimoniaes, sem que por isso corra os precalços
dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a
justiça de assim o acreditar, não é verdade? E finalmente porque
d'esta maneira precavê-se contra alguma tentação, a que são sujeitas
as cabeças como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo
transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de
desposar a primeira dançarina de S. Carlos, que o fascinar. Em
conclusão, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar
Mauricio para marido, com tanta probabilidade de não o fazerem
infeliz nem de o serem. O que é preciso é aproveitar o ensejo em que
Mauricio me faça a honra de uma preferencia. Por isso talvez
qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisação
necessaria. Espero que o Jorge advogará a nossa causa. Perdoa-me se
alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resolução. Acredita
porém que nunca pude ser mais séria do que o estou sendo, ao
escrever-te esta carta.»
Havia ainda um _post-scriptum_, em que ella acrescentava:
«Bertha ainda está nos Bacellos? Será bom que se demore. Nunca é
tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me não
pude conformar.»
A communicação que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que
muito longe estava de prevêl-a. Reflectindo porém, acabou por achar que
a prima tinha razão e por convencer-se de que, não obstante o tom
ligeiro da carta que lêra, expunham-se n'ella razões de pêso para
justificar o facto annunciado.
Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e
ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposições de sua indole,
saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraçada os
provaveis desvarios d'elle.
Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era
D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio,
pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento.
O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova.
Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus
filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de
sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a
baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem désse o titulo de
marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um
obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o
rapaz não deixaria de commetter.
Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe
na fronte e nos labios a contracção habitual, apressou-se a responder ao
pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu
bom humor.
Bertha veio dar com elle sentado á secretária a escrever. A filha de
Thomé da Povoa quiz retirar-se para não o interromper.
D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel
em que escrevia:
--Entra, Bertha, entra, que não me incommodas.
E, sentindo-a mais perto, acrescentou:
--Sabes o que estou fazendo?
--A escrever; bem vejo.
--Sim; mas a quem?
--A seu filho Mauricio talvez.
--A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de quê?
--Eu, não.
O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior
da pagina, e só depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha,
continuou:
--Authoriso um casamento.
--Um casamento?!
--É verdade. Havia alguem de suppôr que o Mauricio se casava?!
--Casa-se! Com quem?
--A vêr se adivinhas.
Bertha reflectiu alguns instantes.
--E eu conheço a noiva?
--Conheces perfeitamente.
--Então não póde deixar de ser a snr.ª baroneza.
--Justamente. É Gabriella.
--É uma felicidade para elle.
--Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento é a
noiva.
--O snr. Mauricio tem uma boa alma, não dará motivos de arrependimento a
quem depositar confiança n'elle.
--Hum! É muito rapaz--murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho
maiores prevenções do que effectivamente sentia.
Bertha julgou que era occasião opportuna de pôr em pratica um projecto,
que desde madrugada meditava.
Thomé da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita
que recebêra da mãe de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o
desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento.
Thomé não queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas,
lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, não seria
elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados,
pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separação
e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licença para o
casamento que se ajustára.
Bertha perguntou ao pae se tinha já a certeza de que Clemente estivesse
ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thomé admirou-se da
pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e
assegurou-a de que a resolução de Clemente era ainda a mesma, visto que
a mãe n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.
Em vista d'esta declaração, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a
D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manhã
procurava.
O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza
chamava a conversa, preparára excellentemente o caminho para o pedido de
Bertha.
Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe
com o tom de affabilidade com que aprendêra a dominal-o:
--Já que está em maré de condescender com os pedidos que lhe fazem, não
quero perder a occasião de lhe fazer um tambem.
--Ah! tens um pedido a fazer-me?
--Tenho. E tão parecido com esse!
--Com esse... qual?
--Com o que lhe fez seu filho.
--Com o pedido de Mauricio? mas... então tracta-se de casamento?
--Sim, meu padrinho. É de um casamento que se tracta.
--De quem?--interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha.
--De quem ha de ser, se sou eu a que peço?--respondeu esta, baixando os
seus, e não podendo disfarçar a melancolia que ainda lhe causava aquella
ideia.
--Tu?!--exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente--Tu
queres... tu vaes casar-te?!
--Sim, snr. D. Luiz, está decidido que isso se faça e eu peço-lhe
licença para o fazer.
--Tu casares-te, Bertha!--repetia o velho como se lhe fosse difficil
conformar-se com essa ideia--mas... com quem?
--Com o filho da Anna do Védor, com Clemente.
D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mão
na banca que tinha diante de si.
--O quê?!... Ora adeus! Tu estás a brincar commigo.
--Não, meu padrinho, fallo-lhe sériamente.
--Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada,
de educação, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um
rustico, com um rapaz que quando muito saberá escrever o seu nome! com o
filho da Anna, com o snr. regedor! Isso não tem geito nenhum. Isso é um
disparate de tal ordem!... Quem foi que se lembrou de tal?!
--Clemente pediu-me a meu pae...
--E teu pae concedeu? Coisas do Thomé a final. Mas tu? tu, Bertha, tu
consentiste!?
--Clemente é um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho...
--Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma
rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á
de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?!
--E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem.
--Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes
fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha?
--Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém...
--Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?
--Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom
conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se
mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração
decida, mais vale.
--O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus
concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas
nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá
tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces
ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir
casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.
--A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a
que posso eu a final aspirar?
--A que podes aspirar?!--exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de
espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus
principios mais radicados--aqui, n'esta terra de selvagens, não podes
aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por
sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se
aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te
dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e
que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir.
--Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga.