Augmentava de dia para dia a influencia de Bertha sobre o animo de D.
Luiz. Todas as manhãs desafiava as primeiras alegrias do enfermo o
sorriso com que Bertha lhe entrava no quarto, sorriso que parecia
illuminal-o mais do que os matutinos raios do sol.
Sob a benefica acção d'aquelles desvelos femininos, sentia o
desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o appetite
perdido, revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias
mais vivificado o sangue que o desalento empobrecêra, e aquella mesma
negrura de pensamentos, que o assombrava, parecia clarear-se
progressivamente.
Bertha fizera-lhe já esquecer Gabriella. Era mais assidua á cabeceira do
seu leito, mais exclusivamente devotada áquella obra de consolação, mais
perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais carinhosa na maneira de
satisfazêl-os, e a ingenuidade quasi infantil das suas conversas tinha
mais seducções para o fidalgo do que todas as galas de espirito com que
a baroneza sabia temperar as suas.
As horas, que tão longas e fastidiosas se succedem na vida do doente,
passavam para elle rapidas e desapercebidas, preenchidas pela companhia
de Bertha.
A vêl-a trabalhar a seu lado, a ouvil-a fallar de Beatriz ou a conversar
no mais trivial assumpto, a seguir-lhe com a vista os movimentos faceis
que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz d'ella a leitura dos
livros de imaginação a que a baroneza o habituára, D. Luiz esquecia o
tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. Um dia manifestou
desejos de ouvir Bertha tocar.
Na manhã seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto do
leito do doente, e sob os dedos de Bertha o magico instrumento, que
serenava as furiosas allucinações de Saul, provou mais uma vez a sua
efficaz influencia moral.
D. Luiz escutava-a commovido, e quasi sempre corriam-lhe as lagrimas ao
expirarem as vibrações das ultimas notas.
Bertha fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as musicas que Beatriz tocava.
Resuscitou-lhe o passado. Sob tão profundas impressões quasi se
confundiam no espirito do ancião a imagem da filha que perdêra com a da
affectuosa rapariga, que tanto lhe amenisava a existencia.
Foi cedendo á affavel violencia de Bertha e apoiado no braço d'ella, que
trocou o leito pela poltrona ao lado da janella do quarto; que sahiu
depois do quarto para a varanda do terraço, e que finalmente desceu as
escadas que do terraço conduziam á quinta, á sombra de cujas arvores se
costumára a passar as melhores horas do dia.
Era ahi que tinham logar as leituras quotidianas, que já tão necessarias
lhe eram. Bertha interrompia-as apenas, para lhe fazer escutar o cantico
dos passaros na espessura das arvores, ou para lhe ir colher uma ou
outra flôr, com que bizarramente enfeitava a lapela do casaco do
fidalgo. A influencia de Bertha sobre elle era já por todos conhecida, o
que valia á gentil rapariga os mais expressivos signaes de deferencia de
todos quantos a tractavam.
Frei Januario era o mais desconfiado, mas ainda assim não se mostrava de
todo insensivel ás attenções que Bertha lhe dispensava e que muito o
lisongeavam.
Bertha era feliz n'aquelles dias.
Para a sua alma generosa era motivo de jubilo a ideia de que alguem lhe
devia a felicidade.
Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu
espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observação a
arrebatava, a grandeza do sacrifício, que pouco tempo antes realisára e
a dolorosa violencia com que esmagava ainda no coração o affecto mais
vivaz que lá nascêra.
Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia.
Um dia Bertha erguêra-se, como costumava, muito cedo para correr a
quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoço de D.
Luiz.
Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava
alguns momentos ao exame e á analyse das diversas flôres que o
compunham.
Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos,
que merecessem as attenções e applausos do padrinho.
N'esta exploração attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegára
aquella manhã ao portão de ferro da entrada opposta á casa e trazia já
na mão uma variada cópia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava
de fóra das grades a observal-a.
Voltou-se e reconheceu Clemente.
Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o
coração, á vista do seu noivo. Tão longe tinha n'aquelle instante o
pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a
surpreza da transição foi cruel.
Demais era a primeira vez que se achava na presença de Clemente, depois
do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentára a sua confusão.
Concentrando porém toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente.
Mais confuso ainda do que ella, retribuiu-lhe Clemente a saudação.
--Quer entrar?--perguntou Bertha, caminhando para a portaria.
--Não, menina; passei aqui por acaso... É verdade, que desejava
fallar-lhe... mas outra vez será.
--E porque não ha de ser já?--tornou Bertha, abrindo a porta.--Depois do
que se passou é indispensavel que conversemos, não é verdade? Eu tambem
tenho precisão de fallar-lhe, snr. Clemente.
--N'esse caso aqui estou para ouvil-a, Bertha.
--Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. Não acha?--disse Bertha, preparando
logar em um monticulo de relva que as folhas cahidas tapetavam.--Está-se
aqui tão bem como dentro de uma sala.
Clemente tomou timidamente logar ao lado d'ella.
Bertha soltou no regaço as flores que colhêra, e fallando occupava-se a
dispôl-as em ramo, como se facilitasse d'aquella maneira o desempenho da
missão que se propunha.
Clemente escutava-a.
--Está já informado, snr. Clemente, do que respondi á proposta que, em
seu nome, me fez... o filho do snr. D. Luiz?
--Sim, Bertha, deram-me essa resposta, que muito me alegrou; mas
desejava saber da sua bôca se foi de livre vontade e por que lh'o
dictava o coração que a deu assim.
--Por minha vontade foi. Ninguem me obrigou a responder como respondi.
Agora se foi do coração... Era sobre isso mesmo que desejava fallar-lhe,
snr. Clemente.
Clemente respondeu um pouco inquieto:
--Falle, Bertha, que eu escuto-a com attenção.
--Snr. Clemente, devo ser franca e leal comsigo, e fazer-lhe uma
confissão completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se
resolver a dispôr assim do seu futuro. Não posso dizer que fosse o
coração que me dictasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o snr.
Clemente me acreditaria; não é verdade? Bem vê, eu mal o conhecia, quasi
que nem tinhamos fallado ainda, eu vivi até agora longe de si e nenhum
de nós costumava pensar no outro. Pois não é assim? Quando ouvi a sua
proposta, surprendeu-me por inesperada; respondi como sabe; mas é claro
que não podia ser do coração a resposta.
Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melancolico.
--Mas, perguntará o senhor, porque respondi eu então assim, tão prompta,
sem hesitar? Vou dizer-lh'o, snr. Clemente, vou dizer-lhe toda a
verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu não podia esperar que o
coração respondesse, porque sabia que elle já não podia dizer que sim a
uma proposta d'aquellas.
Clemente, que julgava comprehender o enleio crescente e as palavras
hesitantes de Bertha, iníerrompeu-a dizendo:
--Já? disse que já não podia? Já? Bertha teria acaso alguma inclinação a
que o meu pedido viesse causar mal?
Bertha, córando, replicou firmemente:
--Havia no meu coração um outro affecto, havia, o primeiro e unico
d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas não lhe causou mal o seu
pedido, Clemente. Esse affecto, de que me não envergonho, nasceu, mas
não podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos
obstaculos, que não podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de
grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me
illudi com elle. Esta era a confissão que devia e queria fazer-lhe,
Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta,
dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe
dissesse: não ha amor no meu coração para lhe offerecer, não o podia
haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe
servir de companheira na vida. É a missão de uma mulher, e eu tenho
coragem de cumprir no mundo a minha missão. Amizade leal, respeito,
dedicação, posso prometter-lhe, mais não, que não tenho para dar.
--Mas....--balbuciou Clemente, que não podia disfarçar a sua
perturbação--mas esse homem existe?
Bertha córou instantaneamente ao ouvir a pergunta.
--Existe--respondeu, porém sem hesitar--e ama-me. Mas elle tambem sente,
como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencêl-o ou pelo
menos occultal-o no coração, porque é forte. A consciencia do dever
ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem vê que lhe chamo
loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confissão que
lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiança,
peço-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto é tempo.
--Não me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a
lealdade com que me está fallando, e que mais do que nunca sinto por si
a maior consideração e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe
que, apesar da sua confissão--não digo bem--por causa até da sua
confissão, teria em si tanta confiança, Bertha, como em mim mesmo. O que
me faz pensar é outra coisa. Se esse homem existe, porque é que a menina
perdeu já as esperanças e quer assim tornar impossivel o que ainda o não
é?
--É impossivel, é, Clemente.
--Ora é! Quem sabe? Eu não queria ser um dia o obstaculo da sua
felicidade. Nem de tal me quero lembrar!
--Clemente, supponha que em vez da confissão que lhe fiz, eu lhe tinha
dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que não se parecia comsigo,
Clemente. E tão louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga
saudade no coração. Por isso não m'o occupa inteiro o affecto que tenho
para lhe consagrar. É assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva
como se assim lhe tivesse fallado. Bem vê que nunca se arriscará a ser
estorvo a uma felicidade... que se sonhou.
--Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos são os
que se sonham a dormir... e até esses ás vezes...
--Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda.
--Mas em todo o caso... Não me leva a mal se eu pedir tempo para
reflectir?
--De certo que não. Para isso mesmo foi que lhe fallei assim.
--É um anjo, Bertha, e creia que se tenho duvidas, é porque não queria
ser nunca estorvo á sua felicidade. A tempo lhe darei a resposta.
E Clemente sahiu d'alli pensativo e indeciso sobre a resolução que
deveria adoptar.
Pensava o pobre rapaz:
--A final de contas ella gosta do outro. É o que isto tudo quer dizer.
Então que faço eu em metter-me de permeio n'estes amores? Mas... são
amores impossiveis, diz ella, até lhes chamou loucuras; e espera que os
cuidados da familia lhe ajudem a esquecêl-os. Mas se não esquecer?...
Não receio d'ella, isso não. Aquillo é alma que se não perde nem
atraiçoa. Mas, se por acaso os taes obstaculos desappareciam e ficasse
eu só no logar d'elles? Ah! Sancta Virgem! Era para um homem pôr fim á
vida! Porém ao mesmo tempo a rapariga falla com uma segurança, como se
este caso fosse impossivel. Impossivel! E porquê? Quem será elle, o tal?
Amores que ella trouxe da cidade.... Alguem que já a esqueceu e que
talvez nunca lhe quizesse devéras. Se eu adivinhasse que era isso,
aceitava. Porque emfim aquillo esquecia, e... e eu creio que haviamos de
dar-nos bem. Veremos o que pensa minha mãe. Mas que póde ella pensar?
Que sabe ella mais do que eu? Aqui o que era preciso era quem me
informasse dos taes amores. Se eu procurasse o snr. Jorge? Elle é tanto
de casa do Thomé, que talvez... Elle está agora na Casa Mourisca. Pois
vou lá.
E, em harmonia com esta resolução, tomou o caminho do antigo solar do
fidalgo.
Jorge encerrara-se nos ermos aposentos d'aquelle sombrio palacio, não só
para trabalhar, como para procurar allivio aos dolorosos golpes de
coração, que lhe sangravam ainda.
Fizera-lhe companhia o jardineiro, que não quiz ficar nos Bacellos
quando soube que Jorge partia. Era a unica pessoa que tinha ao seu
serviço.
Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que
nunca. Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vigilias; mas
se conseguia com estes esforços adiantar o serviço, não obtinha d'elles
a realisação do seu principal empenho: acalmar as torturas moraes com
que viera para aquella solidão.
As poucas horas de somno eram-lhe agitadas por sonhos fatigadores, e
sempre uma ideia fixa e amarga lhe occupava o pensamento, ainda quando
mais absorvido pelo estudo.
Atravéz das mais fortes distracções sentia como que a sombria projecção
de uma nuvem negra.
Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o coração, não é de
todo impossivel afastal-o do pensamento por um esforço de distracção,
mas a impressão dolorosa que elle produziu não se desvanece
completamente; persiste um vago sentimento de mágoa, um indefinido
mal-estar, que ainda n'esses raros instantes nos afflige, sem que o
expliquemos.
Estava-se dando com Jorge este phenomeno.
Conseguia fixar a attenção no estudo, vencer as difficuldades de um
problema, profundar as questões mais obscuras, mas o espirito
mantinha-se doente; estas victorias da intelligencia não lhe provocavam
aquelle prazer, que de ordinario as acompanha. Parecia que o coração
perdêra a elasticidade necessaria para vibrar d'essa maneira.
Quando se trabalha em taes disposições de animo, o esforço extenua a
actividade do espirito, toma o caracter de uma febre consumptiva, de uma
chamma que se alimenta gastando as forças e a vida.
Depois havia momentos em que os instinctos se revoltavam contra a
tyrannia da razão, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se
fundiam no calor do seu sangue de adolescente; e então com um frenesi de
desespero concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com
todos os preconceitos, com todas as considerações sociaes, e obedecer
sómente aos impulsos do coração, que elle julgava n'esses momentos os
unicos authorisados motores das acções do homem. A estes paroxismos
succedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza.
E o resultado d'esta lucta moral, d'este isolamento, d'este excesso de
trabalho, revelava-se-lhe no semblante alterado e na pallidez, que
augmentava de dia para dia.
A amargura d'aquelles dias passados nas salas desertas e nas devezas
melancolicas da Casa Mourisca, havia-o abatido a um ponto, que ao chegar
á presença d'elle, Clemente encarou-o com gesto de espanto.
Jorge interrogou-o, sorrindo:
--O que me achas tu, para me fitares com esses olhos?
--O snr. Jorge tem estado doente?!
--Não; vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente?
--Sim; acho-o descórado e abatido--disse Clemente, procurando disfarçar
as apprehensões que sentia ao vêl-o.--Não trabalhe tanto, snr. Jorge.
--Isto não é de trabalhar. Uma noite de bom somno far-me-ha voltar ao
que fui. Então o que te traz por aqui?...
--Venho consultal-o.
--Ha tempos a esta parte obrigas-me a funccionar como conselheiro, sem
que eu saiba bem em que mereci a honra da nomeação. Ora dize lá o que me
queres.
--Tracta-se ainda do mesmo negocio do outro dia.
Jorge fez um gesto de impaciencia e desagrado.
--Pois não está já tudo decidido? Que mais queres? A respeito de enxoval
não dou conselhos.
--Nem tudo está decidido, não senhor.
--Então?
--Eu lhe digo o que se passa.
E Clemente narrou a Jorge a substancia da entrevista que tivera com a
sua noiva.
Custou a Jorge occultar a perturbação que lhe causava a narrativa. No
fim conseguiu perguntar com apparente frieza:
--E que queres tu que eu te diga?
--Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa d'estes amores.
Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente
córado.
--Eu?! E porque é que hei de saber d'esses amores?
Clemente, admirado do effeito das suas palavras, disse com hesitação:
--Lembrava-me... como é amigo do Thomé da Povoa... talvez soubesse...
--As relações que possa ter com o pae não me habilitam a devassar o
coração da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? Não te
disse ella que era como se não existissem? que nasceram sem faculdades
para viver? O que te resta é julgar por ti se nas condições em que
Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazêl-a.
--Pois é isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.
--Duvídas de Bertha, não é verdade? Receias que esses amores não lhe
morram no coração e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz
o monte de cinzas que a suffocava? Se assim é, se não tens no caracter
de Bertha a precisa confiança que devemos ter na mulher que escolhemos
para companheira na vida, se não repousas cegamente n'ella, na sua
lealdade, nas suas virtudes, então desiste, porque irias envenenar a tua
vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas.
--Não desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel
esse amor que sente, para vêr se a mim me pareceria tambem que o era.
Quem sabe lá se o é? E se deixar de sêl-o por o motivo de hoje e o fôr
por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto?
--Socega, Clemente, os motivos que hoje se dão, dar-se-hão sempre--disse
imprudentemente Jorge.
--Pois sabe quaes são?!--perguntou Clemente admirado.
Jorge conheceu a indiscrição em que tinha cahido, e procurou emendal-a,
dizendo:
--Não; mas se Bertha t'o assegurou... Ella não costuma ser
irreflectida... E motivos ha na vida tão poderosos e permanentes, que
póde bem predizer-se na presença d'elles a impossibilidade de um facto.
--Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.
Jorge replicou com impaciencia:
--Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os
julgasses faceis de vencer, não obstante elles serem insuperaveis.
Acredita o que te digo, Clemente. Um homem só póde ser perfeito juiz das
acções de um outro, quando entre ambos se dão absolutamente as mesmas
condições de existencia. Desde que estas variam, varía com ellas a
maneira de vêr as coisas. O que para ti é um acto natural e facil, é
para mim um impossivel, porque se lhe oppõe opiniões, sentimentos,
crenças que me são proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha
entidade moral, e que tu não possues e de que por ventura te ris. Por
isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que
ella te revelou. Crê sob a garantia da sua palavra que esses amores
foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida
extinguirão, e resolve.
Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.
Jorge pôz-se a passeiar no quarto.
A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando:
--Bem; veremos o que pensa minha mãe.
--E que direito tens tu de ires fallar a tua mãe nas confidencias de
Bertha?--interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou
Clemente.
--Devo confiar em minha mãe, pelo menos tanto quanto confiei no snr.
Jorge. Bertha não m'o levará a mal.
Jorge reprimiu-se ao responder:
--De certo que não acho mais justificado o escolheres-me para
confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas... segue principalmente o
que te dictar a consciencia.
Clemente sahiu mais pensativo do que viera.
O desconsolado noivo estranhára Jorge. A maneira por que elle lhe fallou
fôra tão fria e desabrida e de tão difficil explicação, que não podia
Clemente atinar com o motivo d'aquillo. A ultima reflexão, sobre tudo,
deixou-o muito sentido. Jorge pozera em duvida o direito que elle tinha
de consultar sua mãe n'este negocio! Pois não era ella a mais natural
conselheira que elle tinha no mundo? E não pedia o caso o conselho de
pessoa experiente?! Poderia Bertha levar-lhe a mal a precaução que
tomava principalmente em vista da felicidade d'ella?
Mas emfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, começou a sentir
escrupulos.
De feito aquelle segredo não era seu, e Bertha não o tinha authorisado a
revelal-o. Já em communical-o a Jorge exorbitára.
E no meio d'estas alternativas de resoluções entrou cabisbaixo e
assombrado em casa, e não fallou em coisa alguma a sua mãe.
Esta ao vêl-o assim, attribuiu o facto a impaciencias do amor. A ida de
Bertha para a companhia do fidalgo prorogára o prazo para a fixação do
casamento, e Anna do Védor conjecturou que era isso que contrariava o
filho.
Resolveu pois fallar a Thomé para apressar quanto podésse a festa,
porque ella sabia que D. Luiz estava melhor, e que até já andava a pé, e
portanto era justo que prescindisse de Bertha, que não se destinava a
fazer-lhe eternamente companhia.