--Tem paciencia, Bertha--disse d'ahi a pouco--mas se podésses ir vêr que
lhes não falte nada.... O padre é capaz de se descuidar das malas, e
Mauricio não repara.
Bertha apressou-se a satisfazer o desejo do velho.
Encontrou Jorge e Mauricio na casa do jantar, fazendo os preparativos
para a jornada.
Bertha coadjuvou-os com vantagem.
--Bertha--disse Mauricio--n'este reconhecimento de despedida, será
bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras que talvez não fossem
de todo innocentes?
--Antes de perdoar é preciso condemnar, e eu nem sequer accusei!
Mauricio apertou-lhe a mão com verdadeira e d'esta vez insuspeita
sympathia.
--Sabe, Bertha, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim n'esta tarefa
caseira, custa-me a acreditar que não seja nossa irmã!?
--E como é que se desengana? Interrogando o coração?
--Não, que esse persuade-me do mesmo.
--Então deixe-se persuadir, snr. Mauricio, que vae n'isso tão pouco mal!
Mauricio trocou algumas palavras com ella, mas sem alludir ao casamento.
Jorge fallava menos do que o irmão. Em um momento em que este sahiu da
sala, Bertha perguntou:
--Parte para muito longe, snr. Jorge?
--Não, Bertha. Vou viver para a Casa Mourisca; mas bem vê que não podia
dizêl-o a meu pae; era ainda cedo talvez para elle o consentir.
--E parte... por eu chegar?...
--Parto, sim, Berlha, e não acha que deva fazêl-o?
--Talvez tenha razão.... Tem por certo. Mas perdoa-me obrigal-o a isso?
--Agradeço-lh'o. A sua vinda ha de salvar meu pae.
--Então separamo-nos amigos?
--Como sempre, Bertha.
Bertha estendeu-lhe a mão commovida, e Jorge levou-a aos labios com mais
ardor do que convinha a quem formára o proposito de suffocar no peito o
amor que n'elle crescia.
E n'essa tarde deixaram a quinta dos Bacellos os filhos de D. Luiz.
Este ficou só com Bertha e com o padre, que via um plano maçonico em
todas estas mudanças.