--Póde ir. Falle a frei Januario para lhe dar o dinheiro de que precisa.
Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expôr o motivo
da sua visita.
Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pae um masso de
papeis.
--Desejava que v. exc.ª examinasse esses documentos e titulos, que dizem
respeito a propriedades nossas e a contractos antigos, e que eu puz em
ordem com o fim de facilitar o exame.
--Mas para quê? Eu não quero estar com isso. Que necessidade ha de
incommodar-me com essa papelada?
--É porque depois desejava expôr a v. exc.ª os planos que concebi, e no
caso de merecerem a sua approvação, pedir-lhe licença para proceder em
harmonia com elles.
--Eu não tenho cabeça para entrar n'essas investigações. Tive sempre por
costume deixar os negocios confiados a procuradores.
--Se v. exc.ª me authorisa ainda como tal eu não o incommodarei.
D. Luiz sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre
Januario, em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para
irritar-se ao vêr Jorge em flagrante desobediencia, occupando-se ainda
da administração da casa. Mas a violencia do despeito abrandára, e
interiormente o fidalgo estimava ter sido desobedecido.
--Façam o que quizerem--respondeu elle--o futuro que prepararem não será
para mim que o preparam.
--Então se v. exc. não duvida assignar estes papeis....
E Jorge apresentou ao pae uma serie de documentos, que requisitavam a
assignatura do chefe e representante actual da familia.
D. Luiz fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a
procurar alguma coisa.
Bertha, comprehendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para
escrever.
E o fidalgo, com a mais aristocratica indifferença, assignou sem lêr os
papeis que Jorge successivamente lhe apresentava, authorisando assim as
medidas que por ventura deviam regenerar a sua casa com a mesma
facilidade e imprevidencia com que tantas vezes authorisára as que a
haviam perdido.
--Agora precisava tambem da authorisação de v. exc.ª--proseguiu
Jorge.--para ausentar-me por alguns dias, porque necessito de visitar as
nossas propriedades mais distantes.
D. Luiz repetiu com o mesrno tom de voz a phrase que já dissera a
Mauricio:
--Póde ir.
Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e
aproximaram-se para receber-lhe as bênçãos.
D. Luiz estendeu a mão, que um apoz outro beijou, e saudando-o outra vez
iam a sahir do quarto.
O coração do pae sentiu porém a necessidade de urna despedida mais
affectuosa n'aquelle instante em que ambos os filhos o iam deixar.
--Mauricio--disse elle quando os viu já proximos da porta--repare que
vae entrar em uma sociedade nova para si, cheia de seducções e perigos.
Seja homem e digno do nome que tem, e... dê-me o gosto de o vêr feliz e
honrado.
--Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pae, e espero que assim
nunca me desviarei do caminho da honra.
--Talvez o não conduza pelo da felicidade--murmurou o velho; e depois,
dirigindo-se a Jorge:
--Jorge, espero do seu juizo que seja prudente no uso d'essas
authorisações que lhe dou. Repare que nos esforços que faz para
restaurar a sua casa não sacrifique o nome que a torna illustre. Seja
sempre tão brioso como é activo.
--Espero que nunca os meus actos deslustrarão o nome com que me honro.
E os dois irmãos retiraram-se emfim.
Vendo-os sahir, D. Luiz voltou-se para Bertha, suspirando, e disse com
desconforto:
--E ficamos sós, Bertha!
--Elles voltarão cedo, e com elles mais alegria para esta casa.