D. Luiz fez um gesto silencioso de acquiescencia.

Thomé da Povoa, quando sahiu da sala, levava nos olhos um brilho

denunciador de commoção.

Todas as scenas e acções generosas exerciam n'elle este effeito.

Bertha ficou só com o padrinho. Com aquelle instincto de actividade e de

ordem natural á indole feminina entrou immediatamente no exercicio de

suas funcções, dispondo os preparativos para a leve refeição do doente,

da qual ella se encarregára ao encontrar no corredor um criado com a

bandeja na mão.

Trabalhando e conversando, Bertha tinha já aquelles ares de

familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa

que dirigem.

Tomára posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a

influencia dos seus cuidados fazia-se já sentir na apparencia de ordem e

de methodo que alli dentro vestira tudo.

D. Luiz seguia-a com olhos de satisfação. Parecia-lhe que ella só

povoava o quarto.

Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera,

dobral-o e poisal-o, junto com o chapéo, no sofá proximo do leito, como

se estivesse em sua casa!

A presença d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida

domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e

prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma tão ardente e tão

antiga necessidade do coração d'aquelle homem, que esquecido quasi de

seus infortunios, reputava-se feliz.

Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animação

que lhe não era habitual.

--Mas, agora me lembra, Bertha--disse D. Luiz, como se de repente lhe

occorresse uma ideia--preciso de dar ordens para a tua accommodação.

Talvez o quarto de Gabriella...

--Não se incommode--atalhou Bertha.--A snr.ª baroneza parece que tinha

tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava já.

--Mas como sabia Gabriella?...

--Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a

necessidade de vir occupar o seu logar.

--Ah! agora entendo a carta d'ella. É uma boa rapariga a final.

E D. Luiz tinha nos labios, ao dizer isto, um sorriso de sympathia, que

lhe suavisava a dureza habitual das feições.

A agradavel doçura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando com

a presença e o conversar de Bertha foi interrompida por umas pancadas

timidas na porta do quarto, que elle escutou de má vontade.

--Quem está ahi?--perguntou quasi irritado.

--_Licet_?--murmurou a voz do padre fóra da porta.

--Entre quem é--respondeu D. Luiz, ainda mais irritado depois de

conhecer a voz.

O padre entrou subitamente, cortejou Bertha com olhos desconfiados e

avançou com passos vagarosos.

--Que é o que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz desabridamente.

O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente:

--Os filhos de v. exc.ª, os snrs. D. Jorge e D. Mauricio, pedem licença

para lhe fallarem.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 61 / 93 题