_Gabriella_.»
O fidalgo leu e releu a carta em silencio, suspirou, e voltando-se para
o padre, disse-lhe simplesmente:
--Tem a bondade de me deixar só por um pouco, snr. frei Januario?
O padre sahiu do quarto, encolhendo os hombros.
D. Luiz tornou a lêr a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza
o semblante, e deixou-se cahir desalentado nos travesseiros.
E ninguem lhe ouvia aquella manhã tocar a campainha a chamar um criado
para que lhe prestasse qualquer serviço que o seu estado de saude
exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente se apresentava
a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recahindo elle na
especie de somnolencia em que depois da leitura da carta havia ficado.
Ao meio dia, porém, hora em que a baroneza costumava por suas proprias
mãos servir-lhe algumas colhéres de gelêa e um calix de vinho do Porto,
sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com a mesma cautela,
com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriella.
Deu-lhe rebate o coração, e no meio dos tristes pensamentos que o
acabrunhavam, fez-se um clarão de esperanças. Voltado com as costas para
a porta, D. Luiz não pôde conhecer logo a pessoa que entrava, por isso
perguntou com uma voz, era que se denunciava o intimo sobresalto que
estava sentindo:
--Quem vem ahi?
Ninguem lhe respondeu; mas percebeu claramente o som de uns passos
leves, que não podiam deixar de ser de mulher.
--Quem está ahi?--repetiu D. Luiz, fazendo um esforço para voltar-se.
Mas n'este momento parava defronte d'elle Bertha, com um sorriso nos
labios, e segurando nas mãos a bandeja com o calix de vinho e a gelêa,
que a baroneza costumava servir-lhe.
D. Luiz olhou para a afilhada com a expressão da maior surpreza e
espanto.
--Bertha!--exclamou elle, solevantando o corpo--Bertha aqui?!
--E ha mais tempo seria este o meu logar, se não soubesse que até hoje
lhe não faltavam os cuidados de que a sua doença precisa.
--E vens... vens para ficar?--perguntou o doente com uma inflexão de
alegria quasi infantil.
--Se me der licença que fique...
--Se te der licença, filha!...
De subito reprimiu a sua expansão de alegria, e emendou em tom mais
grave:
--Não, Bertha; não é aqui o teu logar. Eu não sou teu pae.
--Mas é meu padrinho e está doente. E á cabeceira de um doente uma
mulher está sempre no seu logar. É o nosso posto de honra--respondeu
Bertha, com aquella entonação carinhosa com que as raparigas sabem
enfeitiçar o coração e enleiar a vontade dos seus velhos paes e avós.
O fidalgo sorriu com brandura e, passando a mão tremula pelos fartos
cabellos de Bertha, disse-lhe, olhando-a com sympathia:
--Mas que dirá teu pae?
A estas palavras Bertha dirigiu para a porta do quarto um olhar
indiscreto, olhar que despertou suspeitas no espirito de D. Luiz e o
obrigou a seguir com a vista a mesma direcção.
Atravez da porta meio aberta descobriu a figura de Thomé, que ficára no
corredor. Uma rapida contracção atravessou como o effeito de um choque
electrico a fronte de D. Luiz; em breve porém dissipou-se este signal de
desgosto, e com voz serena e sem aspereza interrogou:
--Estava ahi, Thomé da Povoa?
O fazendeiro deu alguns passos no quarto, ainda timidamente, e respondeu
volteando o chapéo entre as mãos:
--Estava, sim, fidalgo; fui eu mesmo que acompanhei a rapariga, e se v.
exc.ª me quizer fazer o favor de aceitar a companhia d'ella, com muito
gosto lh'a deixo ficar. Porque emfim, snr. D. Luiz, isto de mulheres
sempre é outra coisa para lidar comnosco. Teem lá umas maneiras de
enfeitiçar um homem, que quem uma vez foi tractado por ellas em doença,
já se não entende com outros enfermeiros. Lá sabem temperar os remedios,
arrefecer os caldos, ageitar a roupa da cama e os travesseiros, que
parece que uma pessoa come, bebe e dorme ainda que não tenha vontade,
desde que ellas queiram. Por isso, como a rapariga é afilhada de v.
exc.ª e a snr.ª baroneza foi para Lisboa e v. exc.ª ficou só, e ella não
nos faz falta, porque, graças a Deus, a minha Luiza ainda basta só para
o trafego da casa, lembrou-me trazêl-a, por me parecer que podia prestar
alguns serviços a v. exc.ª.
--Então sabe agora, meu padrinho, o que dirá meu pae?--perguntou Bertha,
occupada já a accommodar a cama que o doente tinha desordenada.
--Mas... Thomé--dizia D. Luiz descontente por ter de aceitar um favor do
fazendeiro, porém sem coragem de recusal-o. Eu não quero prival-o da
companhia de Bertha... Sei quanto se quer a uma filha e não posso
aceitar o sacrificio.
--Ora adeus, fidalgo! Eu quero bem á rapariga, isso lá é verdade; mas
não me faltam por casa filhos com que me entretenha. E depois isto de
filhas, mais tarde ou mais cedo é contar que batem as azas para fugirem
do ninho. É bom costumarmo-nos a passar sem ellas. Por isso, se v. exc.ª
não tem duvida em aceitar a companhia da pequena... é fazer de conta que
ella nada tem commigo...
D. Luiz sentiu que ia ser vencido pela generosidade de Thomé. Resistir
por mais tempo era revelar inutilmente repugnancia em aceitar o
beneficio, e tornar evidente a sua fraqueza quando finalmente o
aceitasse.
Cedeu pois a tempo, e emquanto o podia fazer, salvando a dignidade
aristocratica, que sobre tudo prezava.
--Dividas d'essa natureza não hesito em contrahil-as, apesar de saber
que as deixarei em aberto. Aceito, Thomé, aceito a companhia d'esta
menina, que me fallará de minha filha e m'a recordará. Não é verdade,
Bertha?
--De certo que havemos de fallar muito de Beatriz.
--Muito bem--exclamou Thomé da Povoa--pois então ahi lh'a deixo,
fidalgo, e vou á minha vida.
Gomprehendeu D. Luiz que não devia ficar inferior em generosidade ao seu
antigo criado.
Assim que Thomé, fazendo-lhe uma cortezia, se dispunha a transpôr a
porta para sahir, o fidalgo reteve-o estendendo-lhe-a mão, e disse-lhe
n'aquelle tom solemne que lhe era habitual:
--Thomé da Povoa, não se retire sem que eu lhe aperte a mão. Bem vê que
é a maneira que tenho de remir dividas d'estas.
--Com todo o gosto, fidalgo.
E o honrado lavrador aproximou-se do leito e apertou nas suas mãos
robustas a mão magra e aristocratica do senhor da Casa Mourisca,
dizendo, com a expansão de enthusiastica sympathia que tinha em excesso
na alma:
--Póde acreditar, fidalgo, que aperta a mão de um amigo.