--Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu não
posso...
--Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o
procurador de v. exc.ª. Não foi elle quem me offendeu; não é a elle que
devo dirigir-me.
--Ah! então vem aqui pedir-me satisfações?!
--Venho, sim, senhor.
--Tem graça!--observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico
sarcasmo.
--Então v. exc.ª acha que um homem que é insultado, não tem o direito de
vir perguntar á pessoa que o insultou a razão por que o fez?
--E suppõe que eu já alguma vez me occupei a insultal-o?
--Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc.ª bem sabe
quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso não ter brios
para imaginar que um homem de bem não se offenderia com acções, como as
de v. exc.ª para commigo.
--Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando
desdenhosamente para a janella.
Thomé da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitação de que já
estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso
interlocutor.
O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.
--Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece.
A irritação de Thomé desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia
avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumára a obedecer-lhe e
a temêl-o quasi.
A reflexão venceu esta timidez de instincto, comtudo foi menos
aggressivo do que até ahi que elle respondeu:
--Não, snr. D. Luiz; venho aqui decidido a explicar-me. É preciso que
fiquemos ambos sabendo o que um e outro somos. Não posso por mais tempo
soffrer calado os desprezes e as desfeitas de v. exc.ª, sem perguntar
qual o motivo que dei para ellas. Palavra de honra, snr. D. Luiz, que,
por mais que me mate, não posso vêr em toda a minha vida uma só acção,
uma unica, que me merecesse da parte de v. exc.ª este procedimento para
commigo; não posso.
--Está sonhando, Thomé? Cuida que eu não tenho mais em que pensar do que
em desfeiteal-o? Que mania se lhe metteu na cabeça!
--E que foi senão uma desfeita o que v. exc.ª me fez no outro dia, indo
á porta da minha casa entregar nas mãos da minha propria filha as chaves
do seu palacio, que deixou só por que eu havia adiantado ao snr. Jorge
um pouco de dinheiro por um contracto honesto e leal? Que foi aquillo
senão uma desfeita?
--Se não comprehende os motivos que me levaram áquelle passo, não sei
que lhe faça. Nas familias, como a minha, ha certas regras tradicionaes
de conducta que talvez pareçam estranhas a outras, educadas em habitos
differentes, no que eu não tenho culpa....
--Entendo o que quer dizer, snr. D. Luiz. Foi acção de fidalgo a sua, e,
por ser tal, eu, que nasci em palhas, não posso entendêl-a bem. Mas
porque é que só commigo usa v. exc.ª das taes acções? Por acaso fui eu o
primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca? Quando o
padre procurador de v. exc.ª andava por ahi batendo de porta em porta a
levantar dinheiro, não para o empregar em melhoramentos que, mais anno
menos anno, podéssem remir a divida, mas para o desperdiçar sem tom nem
som, e obtinha esses capitaes a 10, 12 e 15 por cento; quando elle
lavrava hypothecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de má fé, que
faziam d'elle o que queriam, o orgulho de v. exc.ª nunca o obrigou a
sahir de sua casa, que se perdia n'esse andar, e a ir pôr as chaves
d'ella nas mãos d'esses usurarios, que viviam á custa das tolices e dos
desperdicios do padre; e agora então todo se espinhou por que eu,
honestamente e sem má tenção, antes pelo muito amor que ainda tenho a
esta familia e a estes meninos que trouxe ao collo, puz á disposição de
um d'elles, que é hoje um rapaz de juizo, o dinheiro de que precisava
para se ir livrando da usura, que o roía até os ossos, e emendar os
erros da administração do padre! Só agora é que v. exc.ª se sente ferido
na sua fidalguia e sahe da casa, em que vive ha tantos annos, clamando
que já não é sua. Isto é collocar-me abaixo d'esses miseraveis, a quem
me pejo de apertar a mão. O contracto feito entre mim e o filho de v.
exc.ª é um contracto que não envergonha nem a mim nem a elle. Póde
apparecer á luz do dia, e tenha a certeza de que não ha de haver muitos,
mais de cavalheiros do que elle. Não dei dinheiro sem garantias, nem
também o dei com usura. Nenhum de nós aceitou favor do outro. Então qual
é a razão dos escrupulos de v. exc.ª?
--Vejo que está mais informado dos negocios de minha casa, do que eu
proprio. Póde ser que eu devesse ha mais tempo fazer o que fiz. A culpa
é da minha ignorancia. Quando porém tão publica foi a confissão da nossa
baixeza, a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi.
--A dignidade... a dignidade... Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que lhe
falle a verdade, eu já não sei bem o que seja dignidade, quando vejo o
que por ahi se faz á conta d'ella. Dignidade acho eu que a tem tido seu
filho, trabalhando como um homem de bem, para desempenhar a sua casa, e
confessando diante de todos os seus actos, que não o envergonham;
dignidade teve elle, quando defendeu uma pobre rapariga das calumnias de
uns miseraveis, que tambem se dizem fidalgos, e que tambem fallam muito
na sua dignidade.
--Creio que é melhor não discutirmos. Os nossos principios são diversos,
não podemos entender-nos.
--Não ha tal. Os nossos principios, aquelles que me levam a fallar, são
os mesmos, são os de qualquer homem de bem. E eu prézo-me de o ser e v.
exc.ª tambem o é. Havemos de entender-nos por força. N'isto até o homem
e Deus se entendem, não é muito que v. exc.ª, por mais fidalgo que seja,
se entenda commigo.
--Mas que quer a final? Não terei eu a liberdade de deixar a minha casa
quando entender que me convem fazêl-o? Não serei o mais competente juiz
das minhas acções?
--V. exc.ª sahiu de sua casa, declarando a todos porque era que o fazia;
e já ahi o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos. Depois foi
affligir a minha pobre Bertha, que nada sabe d'estas coisas, obrigando-a
a aceitar as chaves da Casa Mourisca para m'as entregar, como se eu
fosse um miseravel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a
confiança que seu filho pôz em mim! As novidades correm depressa na
aldeia e não falta gente para denegrir o caracter de um homem. Depois do
passo que v. exc.ª deu, o que se não terá dito? Que eu andava sugando os
ultimos restos de sangue da sua familia e abusando da boa fé e da pouca
experiencia do seu filho, mas que o fidalgo me desmascarou a tempo! E se
se disser isto, não sentirá v. exc.ª remorsos por ter dado azo a uma
calumnia? Falle-me francamente, fidalgo, aqui diante de mim e de Deus
que nos ouve, em sua consciencia e sob a sua palavra de honra, que
sempre honrou, falle-me franco, snr. D. Luiz; em toda a minha vida,
desde os tempos em que servi a sua casa até hoje, no meio dos meus
trabalhos, das minhas felicidades e dos meus revezes, pratiquei já
alguma acção que obrigue v. exc.ª a desconfiar de mim? Falle-me franco,
snr. D. Luiz. Hoje mesmo, agora, n'este momento em que me vê e me
escuta, crê, na sua consciencia, que está na presença de um miseravel?