--Não, nunca o accusei, Thomé, e creio que é um homem trabalhador e
honrado.
--Então para que ha de ter sómente para mim essa má vontade? Para que me
ha de desprezar como se eu fosse um vil? a mim, que o servi fielmente,
emquanto o servi, que então ganhei e conservei até hoje á sua familia um
amor cá de dentro, como se ella me pertencesse, que chorei a sua pobre
menina, aquelle anjo que Deus lhe levou, como choraria morta uma filha
minha? Para que ha de ter só para este homem, que apenas bens deseja á
sua casa, esses desprezes e essas afrontas? para este homem, que tem uma
filha que lhe chama padrinho? E não quer que eu me sinta? Pois julga que
não ha aqui dentro um coração? Ah! fidalgo, fidalgo, creia o que lhe
digo, em cada um d'esses jornaleiros que passam o dia vergados a
trabalhar nas propriedades de v. exc.ª, ha um coração de carne como o
dos nobres; e emquanto elles trabalham, elle não pára de bater.
--Está inventando aggravos para se dar por aggravado. Nunca tive tenção
de offendêl-o. N'estes ultimos tempos azedou-se-me um tanto o genio, e
confesso que não me é demasiado agradavel a convivencia dos homens. Eis
o motivo por que vivo retirado.
--Snr. D. Luiz, v. exc.ª não é franco. Não ha por essa aldeia quem não
saiba que os filhos de v. exc.ª, se alguma vez se atrevem a procurar a
Herdade em que eu vivo, correm o risco do desagrado do pae. Não sei quem
é que em minha casa os póde corromper. V. exc.ª porém acha menos
perigosa para elles a companhia dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha.
O snr. Jorge fez mal em arriscar-se a entrar n'aquella casa
excommungada; mais seguro andou o snr. Mauricio frequentando a dos
primos, apesar de..., perdoe-me a sua fidalguia, apesar de não serem
mais do que uns bebedos, uns devassos e uns calumniadores.
--Está fora de si, Thomé--observou o fidalgo, que córou ao ouvir estas
affrontas a uns parentes tão proximos, mas a quem não se sentia com
animo de desaggravar.--Terminemos esta desagradavel conferencia. Que
quer a final de mim?
--Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me não servem para
nada--respondeu Thomé, tirando do bolso o molho de chaves, que Bertha
recebêra do fidalgo.
D. Luiz com um gesto desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe
offerecia.
--É inutil insistir. A minha resolução está formada.
--Mas é uma resolução disparatada; perdoe-me dizer-lh'o, fidalgo, uma
resolução sem valor algum, sem significação perante a lei, sem effeito
senão o de affrontar-me.
--Eu já lhe disse que nós temos umas leis especiaes por que nos
regulamos.
--Então se v. exc.ª entende que deve pôr nas mãos dos seus credores as
chaves de sua casa, é preciso saber quem tem mais direito a ellas. Na
lista não está só escripto o meu nome. Deite v. exc.ª pregão para saber
quem deve ser o depositario d'isso, que eu por mim sou o menos
habilitado.
E Thomé da Povoa arrojou sobre a mesa as chaves, com irritação
crescente.
D. Luiz fitou-o por momentos com um olhar de cólera, que aquelle
movimento desafiára, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza:
--Leve comsigo as chaves, Thomé! A minha dignidade não me consente ficar
com ellas. Fiz um protesto, hei de cumpril-o. Se os meus credores são
muitos, seja o representante d'elles todos. Em poucos posso depositar
mais confiança.
--Muito agradecido pela confiança que mostra.... Olhe, fidalgo, quer que
lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o que penso d'este
maior rigor commigo? Pois ouça. Cada qual tem os seus defeitos; o meu é
o da franqueza. A razão de tudo isto está no grande orgulho de v. exc.ª.
É o que eu lhe digo.
--Póde ser; o orgulho é o defeito de certa classe....
--Pois não lh'o invejo, nem lh'o gabo. Orgulho entendo eu que se deve
ter de certa maneira; d'essa não, que não é nobre. V. exc.ª préza muito
o nome de sua familia, deve então trabalhar honestamente para o
conservar illustre. Mas não receie que lhe possa fazer sombra a casa do
seu antigo criado, ainda que em cada anno elle levante um sobrado e
metta mais um campo dentro dos muros da quinta. O valle que nos separa é
muito largo, fidalgo; e ainda quando o sol se esconde, a sombra da minha
chaminé não chega nem sequer ao principio dos dominios de v. exc.ª.
Deixe-me pois crescer, snr. D. Luiz, e não me leve a mal o trabalhar
para ganhar para meus filhos pão, que não lhes falte para o futuro.
D. Luiz, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se ellas o ferissem
no vivo; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tal a sua
perturbação que, sem tirar os olhos do fazendeiro, não pôde articular
uma palavra que lhe respondesse.
Thomé proseguiu mais exaltado:
--Deixe-me crescer e medrar, fidalgo, que as minhas plantações para
terem viço, não vão roubar o succo das suas terras. Não é por isso que
ellas estão maninhas, não. E se quizer offuscar-me, deixe seu filho
Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve a
Deus, em tornar a sua casa no que ella foi em outros tempos. Então sim,
então terá razão o orgulho de v. exc.ª, porque ninguem será mais para
louvar e admirar do que o moço que der um tal exemplo, a criança que se
fez homem para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a
sua casa, e que por isso não deixou de ser fidalgo, antes mais do que
nunca mostrou que o era. Este orgulho entende-se; mas ha um de má casta,
que se parece muito com a inveja.
A esta ultima palavra D. Luiz não conteve um movimento de violencia.
--Basta. Desde que principia a ser insolente, não devo escutal-o. Talvez
tenha feito mal em ouvil-o tanto tempo. Do motivo das minhas acções só
tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que não recebo essas
chaves, nem volto para a Casa Mourisca, emquanto não estiverem saldadas
as minhas contas comsigo.
--Commigo! E sempre commigo? Pois bem; teima em offender-me?... aceito
as chaves, levo-as para casa. Mas faço-lhe aqui, eu tambem, um protesto,
fidalgo. Juro que hei de, a seu pezar, fazer-lhe o bem que podér. Se os
meus soccorros o humilham e envergonham, ha de ter a paciencia de se
humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou
trabalhar como nunca na restauração da sua casa. Ah! cuida que é só
desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se.
Enganou-se. Apre! Eu também tenho vontade. Ha de vêr com quem se metteu.
Ainda que o fidalgo quizesse agora dar cabo do que lhe resta, eu lhe
juro que não o conseguiria. Fica por minha conta a empreza de pôr no pé
em que esteve a sua casa e a sua propriedade. Ora aqui está. Agora
queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me á vontade; ande, não tenha
escrupulos. A minha tenção está formada. Não quero saber se o seu
orgulho se offende, ou se se não offende. Se se offender, tanto melhor,
que d'elle tambem é que eu recebi offensa. Apre! Cuidam que nós não
temos brio nem pundonor? É só affrontar-nos como se não fossemos capazes
de sentir? Sim? Elle é isso? Pois nós veremos. Ora deixa estar que eu
lhes direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves,
não quer? Pois não, com muito gosto. Olhe, cá as levo. Vê? Passe muito
bem v. exc.ª, passe muito bem. Eu lhe prometto que ha de ter noticias
minhas. Ora é boa! A paciencia esgota-se. A gente tambem tem cá uma
medida de soffrer; cheia ella, acabou-se, vae tudo por ahi fóra. Adeus,
fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe hei de fazer todo o bem que
podér.
E Thomé da Povoa, inflammado n'aquelle ardente desejo de sancta e
honrada vingança, sahiu da sala, resmoneando ainda:
--Estes fidalgos que cuidam que a outra gente não sente! Ora deixa que
já que elle tanto se espinha com o bem que lhe faço, eu o flagellarei.
Vou tomar mais a peito a casa d'elle do que a minha, e se eu não
conseguir o que quero... Ora deixa estar! Apre! Que é demais!