Em uma das seguintes madrugadas foi Jorge sobresaltadamente acordado
pelo velho jardineiro, que depois das ultimas reformas estava empregado
no serviço interno da casa. O homem tinha uns ares de espantado, como se
viera a communicar a noticia de um incendio.
--Que temos?--perguntou Jorge, sentando-se inquieto no leito.
--É que não tarda ahi a snr.ª baroneza. Já estão lá em baixo umas
bagagens e uns criados, e... não está nada preparado.
--Cuidei que era outra coisa. E o que querias tu que estivesse
preparado?
--Ora pois então? Sempre é uma pessoa... Lá o padre já deu ordem para se
ir pedir a baixella aos...
--Não se pede coisa alguma. Ahi principia o frei Januario a fazer das
suas. Dize-lhe que deixe tudo ao meu cuidado. Que se não estafe, nem
afflija, que não é necessario.
--Mas... olhe lá, snr. Jorge! O fidalgo mesmo não ha de gostar...
--Faze o que eu te digo. Isso em ti, a fallar a verdade, até me admira.
Não parece franqueza de soldado. Para occultar aos olhos de minha prima
a nossa pobreza, que não é vergonha nenhuma, querias que fosse descobrir
ás familias que teem baixellas, a nossa vaidade, que essa, sim, seria
uma vergonha? Não estou resolvido a fazel-o.
O velho meneou a cabeça por algum tempo, e acabou por dizer:
--Parece-me que tem razão, snr. Jorge, como sempre. Ai, se n'esta casa
todos tivessem tido o seu juizo, ella não chegaria ao estado a que
chegou. Lembro-me agora de que quando o imperador...
--Deixa o caso para outra occasião. Vae arranjar, como puderes, essa
gente e essas coisas todas; emquanto eu me visto e preparo para ir
receber a prima...
O velho criado obedeceu com presteza militar.
Meia hora depois ouviam-se tilintar as campainhas dos machos da liteira,
em que vinha a baroneza.
Gabriella, a baronezinha viuva de Souto-Real, ainda não tinha trinta
annos, e mais nova parecia do que era. Alva, loira e delicadamente
formosa, realisava o typo da mulher elegante, creada na atmosphera dos
bailes e dos theatros, e mais á luz artificial que á luz do sol.
Apaixonada por perfumes e rendas, observadora fiel da moda, sujeitava-se
aos mais extravagantes caprichos d'ella, sabendo-os porém corrigir pela
influencia do seu gosto apuradissimo. Tinha a languidez e a particular
côr pallida das formosas de Lisboa, que não recebem do sol da provincia
a vigorosa encarnação de saude. Indole verdadeiramente feminina, exercia
mais imperio sobre as suas paixões, do que sobre os seus caprichos. Com
difficuldade sacrificaria o mais ligeiro d'estes; aquellas, porém,
subjugava-as com fortaleza varonil. Possuia um genio alegre e ás vezes
um tanto satyrico, mas sem malignidade. Não professava os principios
d'aquella moral intractavel, que se arma da severidade puritana contra
as paixões e defeitos dos outros; pelo contrario era tolerante e
latitudinaria, não se esquivando a apertar a mão aos maiores peccadores,
com quem se encontrava no mundo, sem que, sob essas apparencias de
leviana indifferença, deixasse de manter um descernimento seguro do bem
e do mal, e um grande fundo de moralidade e de justiça.
Além d'isto possuia um bom coração e uma alma generosa.
No tracto de mais illustrada sociedade lisbonense e nas viagens em que
acompanhára o barão, seu fallecido marido, adquirira uma variada cópia
de conhecimentos, de que o seu natural bom senso sabia usar, sem abuso.
Passava por uma das mais espirituosas damas de Lisboa, sem que se lhe
notasse a ostentação pedantesca, que é o escolho em que tanta vez
naufragam as que a tal nome aspiram. As primeiras capacidades
artisticas, litterarias e politicas frequentavam as salas da baroneza e
apreciavam a sua conversação.
Gabriella casára por conveniencia, que não por inclinação, com um homem
mais velho do que ella, sem fóros de nobreza, mas pertencendo á classe
argentaria, que é a verdadeira aristocracia moderna.
Apesar d'isso soube ser esposa fiel e dedicada d'aquelle homem que a
livrára da precaria condição em que a decadencia da sua casa a
collocára. Viuvando, Gabriella não deu indicios de se alistar nas
diminutas phalanges das viuvas inconsolaveis, mas não se precipitou na
escolha de esposo. A sua belleza, o seu espirito e os rendimentos que
herdára attrahiram uma nuvem de adoradores, que ella ia deixando viver
de illusões, sem se dar para isso ao trabalho de fabricar, á imitação de
Penelope, uma interminavel teia. Esta vida e estes galanteios
enfadavam-n'a, e, para distrahir-se, emprehendia pequenas viagens. Foi
ao voltar de uma que fizera pela Hespanha, que recebeu a carta do tio, e
resolveu desenfadar-se por algum tempo da vida das capitaes, visitando a
sua provincia e os logares onde passára a infancia.
Tal era a baronezinha de Souto-Real, que acabára de apeiar-se no pateo
lageado da Casa Mourisca.
Jorge ajudou-a cortezãmente a descer.
--Agradecida, Jorge--disse ella, apertando-lhe a mão.--Fazes as honras
do teu castello com a galhardia de um perfeito cavalleiro.
--A prima não repare na modestia com que a recebemos, mas pareceu-me que
seria mais digno da nossa amizade e do seu caracter apresentarmo-nos
taes quaes somos, do que encher o pateo de criados e jornaleiros a quem
vestissemos á pressa fardas...
E completou a meia voz:
--... Emprestadas.
--Oh! por certo; e eu reconheço melhor a tua fidalguia, Jorge, na
franqueza d'esta recepção, do que na libré dos teus criados e nos
brazões dos reposteiros.
E conversando familiarmente com o primo, a quem tomára o braço, a
baroneza subiu os degraus da escadaria, que subia para a sala nobre.
Á porta encontraram-se com frei Januario, que voltava azafamado da
cozinha, aonde tinha ido dar ordens accommodadas á solemnidade do caso e
ás impaciencias e appetite do proprio estomago.
O padre limpava ainda os labios ao lenço, para fazer desapparecer os
vestigios de uma libação extra-official que de passagem fizera.
--Queira v. exc.ª perdoar, snr.ª baroneza, o apparecer-lhe ainda agora,
mas as obrigações do meu cargo...
--Ó snr. frei Januario, por quem é, lembre-se de que somos conhecidos
antigos, e que até por vezes lhe dei motivos para me abjurar como
jacobina. Tinha que vêr se me preparava a honra de uma felicitação em
fórma. Onde está meu tio?
--O fidalgo não estava prevenido de que v. exc.ª chegava tão cedo, e por
isso ainda está recolhido no seu quarto, mas eu vou...
--Ai, não, não; por amor de Deus não o acorde!
--Não; elle está já a pé; mas emfim fazer a barba e tal... sempre leva
alguns minutos.
--Que se não apresse por minha causa. Eu illudirei a grande vontade que
tenho de lhe beijar a mão, conversando com o primo Jorge.
--Então, se v. exc.ª me dá licença...
--Até logo, frei Januario.
E quando este ia longe, acrescentou:
--Ó snr. frei Januario, aquelle grande dia que estava já para chegar na
ultima vez que nos vimos, aquelle dia de redempção, ao que parece não
chegou ainda?
O ex-frade encolheu os hombros, e respondeu com ar de mysterio:
--Ainda não é tarde, minha senhora. Pouco viverá quem não o vir.
Gabriella entrou rindo com Jorge para a sala.
--E Mauricio--inquiriu ella--tambem já tem barba para fazer?
--Parece-me que sahiu, ainda com estrellas, para uma partida de caça.
--Bom; esse, pelo que vejo, conserva puros os tradicionaes habitos de
familia.
Jorge sorriu.
--Tu é que degeneraste. Deu-me que scismar a novidade. Estou tão
costumada a vêr a deterioração progressiva na linha dos representantes
das familias que tomam a peito não caldearem o sangue de primeira
qualidade que lhes corre nas veias, que ao vêr sahir d'esta velha casa
um rapaz de juizo, fiquei espantada.
--É pouco lisongeiro para a nobreza, mas muito lisongeira para mim a sua
opinião.
--Digo-t'o com franqueza; e já agora deixa-me aproveitar este tempo, em
que estamos sós, para fallar n'isto e assentar as bases do meu proceder.
Vamos direitos á questão. As finanças não correm bem cá por casa, ao que
entendi.
--Correm muito mal.
--Não admira; é doença da época. E tu tomas a peito endireital-as?
--Tentei-o.
--E conseguel-o. Consegues, porque o teu genio é o de uns certos homens
que eu tenho conhecido, que conseguem tudo quanto querem, só a querer e
sem fazer barulho. Ai, Jorge, lá por Lisboa ouço dizer que ha tanta
falta de financeiros, que estou tentada a exportar-te. E Mauricio?
--Mauricio...
--Percebo; é mais difficil de accommodar esse. Era facil, se não fossem
as pieguices de teu pae, que ha de morrer assim. Dize-me uma coisa, ó
Jorge, tu és absolutista tambem?
--Eu quasi que não tenho ideias fixas em politica.
--Bom, bom, já entendo. Não queres declarar-te por contemplação para com
as tradições de familia. Estás como eu; eu sou, sem duvida alguma,
liberal; porque emfim deves concordar que para se ficar toda a vida a
ser absolutista é preciso viver, assim como teu pae, em uma aldeia como
esta e com um padre procurador a dizer-nos ha vinte annos a mesma coisa;
porém, como meu pae foi militar no exercito realista, não tenho remedio
senão obrigar a guardar certas conveniencias ao meu liberalismo. Ora tu
estás no mesmo caso.
--Talvez. É certo que do que está feito, acho muita coisa boa.
--Então estás como eu. Mas como dizia, Mauricio podia encontrar muita
carreira aberta, mas era necessario que o papá o deixasse partir sem
levar o topete vermelho e azul muito á vista, ou a vera effigie ao
pescoço; salvar as apparencias, porque das ideias ninguem quer saber. Á
sombra da Carta engorda muito absolutista encapotado.
--Meu pae está hoje em um estado de tão facil irritação, que duvido que
chegue a consentir.
--Então o remedio é procurar por ahi alguma descendente de Egas Moniz ou
de Martim de Freitas, que por milagre não tenha a casa ainda em ruinas,
e enxertar esse garfo illustre na vossa arvore genealogica.
--Mau remedio para finanças. Deu o arejo nas arvores genealogicas,
Gabriella; estão por aqui todas muito enfesadas.
--Então, então...
N'este momento ouviram-se passos ligeiros nas escadas, como de quem as
subia duas a duas.
--Ahi vem Mauricio--disse Jorge, escutando-os.
Foi de facto Mauricio que appareceu á porta da sala.
A baroneza correu-lhe ao encontro, estendendo-lhe as mãos, que Mauricio
galanteadoramente levou aos labios, curvando-se.
--Bravo! Já vejo que observas irreprehensivelmente as tradições dos bons
tempos em que se era cortez com as damas. A provincia mantem-se mais
delicada do que a côrte. Se soubesses como a moda hoje capricha por lá
em um á vontade com senhoras, que até ás vezes chega a ser grosseria!
--Devéras, prima? Felizmente com certas bellezas femininas sente-se a
necessidade de ser delicado, independente de proposito ou dos preceitos
da moda.
--E se eu te deixasse completar a phrase, far-me-ias o favor de me
incluir no numero das taes. Que requinte de lisonja! E isto a perder-se
nas selvas!
--Não zombe da minha sinceridade provinciana.
--Não calumnies tu a provincia, dando esse epitheto á tua sinceridade.
Nada, nada, o tio que tenha paciencia. Conservar em casa um cortezão
d'esta força é quasi uma usurpação feita aos direitos da corôa.
--Bem; deixe-me fallar-lhe com seriedade. Como se sente da jornada?
--Hei de sentir-me cansada, quando tiver satisfeito toda a minha
curiosidade, que por emquanto não me deixa sentir coisa alguma. Por
exemplo, quaes são os teus projectos, os teus calculos sobre o futuro?
--Ó prima Gabriella, sempre cuidei que só na provincia se perdia tempo a
calcular futuros. Uma pessoa de bom senso não calcula o futuro, que em
um momento se transtorna.
--Bem, entendo o subterfugio. O priminho Mauricio ainda não tem planos
definidos sobre a sua carreira na vida. Mas é preciso que saibas que vim
aqui principalmente por tua causa. Tracta-se de te arranjar uma
collocação qualquer, um assento nas camaras, um emprego na alfandega,
seja o que fôr, com que tu possas transigir; foi a condição unica
imposta por teu pae. Por isso vê lá.
--Olhe, prima, já que a sorte me levou á dura impertinencia de me vêr
obrigado a adoptar um modo de vida, não quero tornar a impertinencia
dupla, encarregando-me eu proprio de o escolher. Subscrevo ao accordo a
que chegarem; decidam por mim, que ou me façam general ou tabellião, a
tudo me resignarei.
--Desconfio de tanta condescendencia. Quer-me parecer que havemos de
encontrar difficuldades mais serias do que as intransigencias sonhadas
por o tio Luiz. Dar-se-ha que haja aqui por estes bosques scenas de
Romeu e de Julieta?
--Ai, não falle n'isso a Mauricio--disse Jorge com um sorriso não de
todo despido de ironia--por quem é, prima! É a sua corda sensivel, e tem
de o aturar por muitas horas!
--Ah! então existe a Julieta?
--As Julietas, as Desdemonas, as Ophelias e todos os typos imaginaveis.
É um enxame que elle traz constantemente poisado no coração.
--Ah! ah! pois tu és dos que declinam o amor sempre no plural? Não
sabia!
--Deixe-o fallar, prima Gabriella. O Jorge bem sabe que n'esta mesma
occasião tão absorvido ando por uma só imagem, que é sem fundamento a
accusação de inconstante que me dirige.
Jorge contrahiu a fronte, ao perceber a allusão, e disse sêcamente:
--Julguei que havias resolvido devéras ter juizo.
--Não é tempo agora de examinar esta questão--acudiu Gabriella--porque
me parece que vem ahi o tio Luiz.
De facto o fidalgo apparecia á porta da sala e um pouco atraz d'elle o
padre procurador.
O velho D. Luiz vestira-se quasi elegantemente para receber a sobrinha.
Elegancia severa, accommodada á sua grave figura de ancião, mas
elegancia inquestionavel. D. Luiz tinha uma presença magestosa e um todo
de diplomata que impunha respeito.
O vestuario preto de que usava, sobre o qual sobresahia a gravata
cuidadosamente lavada e engommada, augmentava o effeito natural dos seus
dotes physicos.
O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando
por cima dos oculos, com o lenço constantemente empunhado para acudir ás
instantes reclamações de um defluxo chronico, parecia dominado por uma
infantil timidez, mas não perdia um só gesto dos outros, que
manhosamente observava.
A baroneza inclinou-se para beijar a mão do tio, que a acolheu nos
braços.
--O tio Luiz!--dizia a gentil viuva, olhando-o--sempre o mesmo! Não o
acho mudado.
--Não?!--disse o fidalgo com leve ironia na intonação e no sorriso.
--Olhe que não. E é natural. Bem vê que se golpes dolorosos o teem feito
padecer, tambem lhe servem de conforto o socego d'estes sitios, a pureza
d'estes ares, a tranquillidade d'esta vida e o affecto dos filhos que
ainda lhe restam.