Jorge, que ultimamente era menos assiduo em Casa de Thomé, sem que este
pudesse atinar com a razão do facto, recebeu, na tarde d'aquelle mesmo
dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo-lhe que o procurasse na Herdade
ás horas do costume. Jorge não faltou.
Thomé da Povoa recebeu-o com modos menos desenleiados do que os que lhe
eram habituaes, e com ares de mysteriosa preoccupação conduziu-o a um
gabinete mais retirado da casa, serrando a porta depois que entraram,
com excepcional cuidado.
Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos.
Thomé, com um gesto denunciador do esforço que n'aquelle movimento fazia
sobre si proprio, entrou no assumpto com visivel repugnancia:
--Snr. Jorge--principiou elle--sei que é meu amigo, e que tem o juizo e
a prudencia de um homem feito, apesar de novo como é; por isso vou
fallar-lhe com a franqueza de um homem de bem e de um amigo.
--Nem o Thomé sabe conversar de outra maneira. Diga.
--Pois bem. A coisa é esta... Eu antes queria não fallar n'isto, mas...
emfim... se o negocio ha de ir a mais... e succeder por ahi alguma
desgraça... emfim... a tempo é que é evitar o mal; quanto ao depois...
--Mas de que se tracta?
--Snr. Jorge. É um pae que lhe falla. Tenho uma filha e emfim preciso de
vigiar por ella, emquanto não tem marido que a zele e proteja... não é
verdade?
Jorge não pôde ouvir sem se perturbar estas palavras e, interiormente
inquieto, sem bem saber porque, murmurou:
--De certo, mas...
--Ora bem. O snr. Jorge é rapaz sisudo e pacato, mas emfim sempre ha de
saber o que são dezoito, dezenove ou vinte annos, hein? Pode-se ter o
juizo muito claro, vêr as coisas como ellas são, mas... isto de sangue
novo... parece que ferve e depois é como uma doença, e como uma febre, a
cabeça desarranja-se e não ha conselhos que a concertem. Pois não é
assim?
Jorge córou ouvindo estas considerações de Thomé, que lhe pareciam
dirigidas, olhou para elle com desconfiança e respondeu confusamente:
--Talvez seja; porém...
--Ora então segue-se que o melhor é livrar-se a gente de trabalhos e
fugir das occasiões, para que depois se não diga: «Ai, porque se eu
soubesse; ai, porque o que eu devia ter feito era...» Entende-me?
--Entendo, Thomé, mas, a final a que quer chegar?--interrogou Jorge,
cada vez mais sobresaltado.
--Ora eu lhe digo. A minha Bertha é uma rapariga de juizo.
A confusão de Jorge redobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em que
Thomé não reparou.
--É--proseguiu o fazendeiro--tenho a certeza d'isso, mas é rapariga, e
emfim teve uma educação bem bonitinha; e Deus me perdoe se fiz mal em
lh'a dar; ora eu, com quanto seja um rustico, sei o valor que teem
certas coisas, e que quem se costumar a ellas com ellas sonha. Isso é
que é verdade! E nem eu me admirava de que a pequena tivesse sua
inclinação para rapazes da cidade. Era natural, já digo. Mas aqui não
veem elles, os da terra são assim meios... meios... emfim rapazes de
lavoura, como eu fui; muito bons para raparigas como era a minha Luiza.
Ora agora o que por ahi ha, são, e perdoe-me dizer-lhe isto, uns
fidalguinhos que não teem que fazer, e que passam o seu tempo a
inquietar as raparigas da terra. D'esses é que eu tenho mêdo! E se quer
que lhe falle a verdade, cá em relação á minha pequena, ha um sobre
todos de que eu muito me receio.
--Quem é?--perguntou Jorge, ainda não senhor de si.
Thomé hesitou por algum tempo, mas a final, como tomando uma resolução,
respondeu:
--É seu irmão Mauricio.
--Mauricio!--repetiu Jorge, contrahindo a fronte.--Pois acaso tem elle
dado já motivos para suspeitar?...
--Poucos; isto em mim é mais mêdo do que outra coisa. Hoje porém já me
não agradou o que elle fez.
E Thomé narrou a Jorge a scena da manhã, acrescentando:
--Ora dos do Cruzeiro não tenho eu mêdo. Bertha conhece-os e é o que
basta para ficar livre de perigo; mas com o snr. Mauricio já não é
assim. Apesar das suas doidices, não se póde deixar de se gostar do
rapaz, porque o fundo é bom e generoso, e depois... conhecem-se ha
muito... e elle é estouvado e um rapaz bonito... e ella... ella tem
dezoito annos... Emfim, snr. Jorge, isto anda-me cá a pezar, e por isso
pedia-lhe que visse se obrigava seu irmão a deixar-me em paz a rapariga,
porque nada de bom póde resultar d'aqui.
Jorge sentia apertar-se-lhe o coração ao ouvir aquella confidencia. Era
pois certo que Bertha amava já Mauricio!
--Thomé--respondeu elle, sem trahir a sua agitação--socegue. Eu fallarei
a Mauricio. Não creio que elle fizesse com intenção o que me diz; mas em
todo o caso concordo em que é preciso evitar a tempo peores
occorrencias. Faço justiça a Bertha; mas quero que meu irmão seja o
primeiro a respeital-a. Eu lhe fallarei, creia.
--Muito bem--respondeu Thomé, apertando-lhe a mão.--Eu estava certo de
que me daria essa mesma resposta.
Jorge acrescentou:
--Demais, Mauricio pouco se demorará aqui. Espero que em breve parta
para Lisboa.
--Bom será. Talento tem elle para o poder aproveitar na vida, e aqui o
que ha de elle fazer? Depois a companhia d'aquelles primos!...
Jorge separou-se de Thomé, sem que se occupasse n'aquella noite do
assumpto habitual das suas conferencias.
Ao sahir, mais cêdo do que o costume, atravessou uma sala aonde Bertha
costurava á luz de um candieiro.
Ao vêl-o passar, Bertha estendeu-lhe familiarmente a mão, dizendo com um
sorriso affectuoso:
--Retira-se muito cêdo hoje; durou pouco a lição.
--Ás vezes é quando mais se aprende--respondeu-lhe Jorge, com mal
disfarçada ironia.
--E até quando?--proseguiu Bertha, parecendo não attentar no sentido da
resposta.--Ha já bastante tempo que não o viamos.
--Até... até cêdo.
--O snr. Mauricio vejo-o mais vezes... ainda hontem ahi passou.
--Sim--disse Jorge com um malicioso sorriso--Mauricio tem essa
habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da terra.
Bertha olhou admirada para Jorge; feriam-n'a aquellas respostas sêcas e
sarcasticas, que não esperava ouvir-lhe.
--Então dá-se ao trabalho de se mostrar a todas?--perguntou ella sem
desviar os olhos.
--Sim, provavelmente--tornou Jorge no mesmo tom--e parece que todas se
dão ao trabalho de lhe apparecer.
--Ah!
E Bertha calou-se; fixou os olhos na costura e pareceu até esquecer-se
da presença de Jorge na sala.
Este finalmente despediu-se, estendendo a mão a Bertha.
--Boa noite, Bertha.
Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao
gesto de despedida, Bertha respondeu:
--Boa noite, snr. Jorge.
--Offendeu-se--pensava Jorge ao retirar-se--então ha fundamentos para as
apprehensões de Thomé. Juizo de rapariga a final! Cabeça doida, que não
espera que o coração se declare e alimenta paixões com reminiscencias de
romances. Pobre Thomé! É o que elle a final colhe dos seus sacrificios
para a educar. Eu logo o suppuz...
As reflexões de Jorge succederam-se e encadearam-se n'este teor. Crescia
n'elle mais do que nunca a sua irritação contra Bertha.
--Mas que tenho eu com Bertha?--reconsiderava elle--para me importar com
isto? A final são pequenas fraquezas de rapariga e... Mas a amizade que
consagro ao pae obriga-me a intervir. Mauricio é um louco, e ella já
vejo que não tem mais prudencia do que outra qualquer rapariga da sua
idade.
E esta ideia de Bertha ser sensivel aos galanteios de Mauricio era o que
mais que tudo o incommodava.
E Bertha? Que ficou pensando, com a cabeça inclinada sobre a costura,
mas com a mão parada e o olhar pensativamente fixo?
--Porque é esta severidade de Jorge para commigo?--pensava ella--Não
posso já duvidar. Ha n'elle não sei que prevenção contra mim. Ou não me
falla, ou falla-me d'este modo. Um motivo leve não póde ser, porque
Jorge é, ao que dizem, um rapaz de tão bom senso, que de certo por uma
insignificancia não me tractaria assim. Mas que faria eu? Nada; se em
mim ha loucuras, ficam-me no pensamento e ahi quem as vae devassar?... E
que fossem?... E que as achassem?... Eu podia dizer-lhes: Sim, estão
ahi, mas eu bem sei que estão, e ahi mesmo as suffoco e venço. Não sou
responsavel perante ninguem do que se passa em mim só. Entre mim e Deus
é que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trahir, que
me peçam contas então. A que vem estas severidades? Que fiz eu a este
generoso rapaz? Imaginará elle que o galanteio de Mauricio me terá
fascinado? É um caracter tão serio, que talvez por isso me condemne.
Fascinar-me! Mauricio!!... Ao principio talvez; agora porém vejo que se
vão desvanecendo essas phantasias de criança, nascidas e robustecidas
nas minhas horas de solidão no collegio, e que senti alvoroçarem-se ao
chegar aqui, e ao vêl-o. Mauricio não é o caracter de que eu me posso
receiar. E ainda bem. Mas Jorge por que me quererá mal? Lembra-me que
meu pae me disse que, se elle não fosse meu amigo, não me dizia que o
era... E elle ainda m'o não disse.
Estas reflexões foram interrompidas pela entrada de Thomé, que,
satisfeito pela promessa de Jorge, já não sentia nuvens a escurecer-lhe
o pensamento.
Jorge chegou a casa antes do irmão.
Era noite de luar, tepida noite de outomno, languida e serena, como a
podem desejar os mais exaltados devaneiadores. Havia uma limpidez no
céo, uma quietação nos bosques tão completa, que parecia que a natureza
toda parára em suspensão a contemplar o solemne progresso da lua pelo
firmamento, que inundava de luz.
Era uma d'estas noites em que só a custo se troca o ar livre dos campos
pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janellas
aos raios da lua que invadem a sala, para os substituir pela luz
vacillante da lampada, que alumia as vigilias do estudo.
O proprio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu ás seducções
d'aquella noite e deixou-se ficar sob as arvores da quinta. O peito
precisava de ar livre que o desopprimisse.
Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da lua,
coando-a atravez da folhagem, de que o inverno os não despira ainda. Uma
luz mysteriosamente discreta penetrava no bosque; raros sons
interrompiam aquelle silencio, além do rumor longinquo e monotono das
fontes e cascatas.
O pensamento de Jorge perdêra a placidez habitual; como que despertavam
n'elle os instinctos de juventude, povoando-lhe de visões o campo da
phantasia, de ordinario occupado por mais severas imagens.
Os seus calculos, os seus projectos de futuro, os problemas de
administração, que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o logar a
ideias menos positivas, a meditações vagas, a quasi devaneios, em que
raras vezes a sua razão se deixava arrebatar. Primeiro dominou-o a magia
do passado; evocou do silencio dos tumulos aquelles dos seus
antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era
seu, os que mais alto elevaram o ennegrecido brazão que honrava ainda a
frontaria d'aquelle solar em ruinas. Depois, saudades mais pungentes,
d'essas que ainda trazem vestigios de lagrimas, como restos da sua
natureza de dôr, de que só o tempo as vae privando, occuparam-lhe o
coração e o pensamento. A sombra da pallida e estremecida irmã, que a
morte arrebatára quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de
Beatriz, que era a mais querida e mais dolorosa recordação d'aquelles
rapazes e d'aquelle velho, parecia surgir ao mysterioso apello da noite,
e vaguear, como uma apparição phantastica, por entre essas arvores que
menina a viram e menina a protegeram do sol abrazador dos campos.
Jorge ainda não esgotára as lagrimas consagradas á memoria da irmã.
Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento a ella.
Pouco e pouco, por uma insensivel transição, a imagem de Bertha
substituiu a de Beatriz.
Differentes eram as impressões que esta nova imagem lhe produzia,
differentes e indecifraveis quasi.
Já vimos que antagonismo de sentimentos havia no coração de Jorge em
relação á filha de Thomé da Povoa.
Como luctavam a involuntaria attracção que por ella sentia, com a
reflectida resistencia que lhe oppunha. Lidava por levantar obstaculos
ao progresso do violento affecto que lhe ia tomando o coração, e a seu
pezar via que esses obstaculos eram inuteis. Inventava defeitos que lhe
desprestigiassem o caracter de Bertha, accusava-a de vicios de educação
que ainda lhe não reconhecêra, fingia-se convencido da leviandade
d'aquella pobre rapariga, e com toda a austeridade do seu caracter
sisudo lavrava contra ella a sentença condemnatoria; mas no fim de tudo
isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe debalde a
consciencia contra esta fraqueza, em vão revelava com maneiras rudes e
quasi hostis para com Bertha este desgosto de si mesmo que estava
experimentando... o effeito era cada vez mais pronunciado.
O que tinha acabado de ouvir a Thomé augmentára-lhe aquella inquieta
lucta de espirito.
A ideia de inclinação reciproca de Bertha e de Mauricio irritava-o e
affligia-o.
Não eram as consequencias do facto que o assustavam. Jorge não
acreditava na sinceridade das affeições de Mauricio; sabia quanto ellas
eram fugazes e estava convencido de que a proxima partida do irmão
bastaria para desvanecer essa paixão nascente.
E comtudo não lhe sahia do pensamento aquillo. Torturava-o aquella
ideia, não lhe permittia repouso.
A consciencia de Jorge aventurava, muito a mêdo, a vaga explicação
d'este enigma psychologico que se estava passando n'elle, mas Jorge
recusava dar attenção áquella voz.
Ha casos assim, em que nem comnosco somos sinceros, em que se faz mais
evidente do que nunca esta especie de dualidade unificada em todo o
individuo, porque guardamos discretamente de nós um segredo nosso, e
luctamos comnosco em opposição declarada.
A dominios tão intimos da consciencia seria porém irreverente levar a
luz da analyse; aguardemos que a ulterior evolução de affectos melhor
nos revele o segredo que ia no coração de Jorge.
Era já noite avançada quando chegou aos ouvidos do pensativo rapaz o
ruido de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio pela
extrema do bosque, cantando distrahidamente:
Além, n'aquella avenida
De platanos e salgueiros,
Foi que em teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.
A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e não o deixou passar
incognito.
Jorge, reconhecendo-o, chamou-o em alta voz.
Mauricio parou surprendido.
--Quem me chama?
--Sou eu.
--Tu?! Jorge!
--Sim, pois quem havia de ser?
Mauricio caminhou ao encontro do irmão.
--Transportas-me de surpreza em surpreza! uns dias a seguir da janella
do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar á meia noite por
entre as sombras dos bosques! Em que havia de dar a arithmetica!
--Cheguei ha pouco. Abafava lá dentro. Vim para aqui esperar-te, porque
desejava conversar comtigo.
--O tom é grave e serio; é de crer que o assumpto corresponda.
--Não te enganas. É bastante serio o que tenho para dizer-te.
--Penetremos então na sombra druidica d'este bosque, para augmentar a
solemnidade da scena.
--Peço-te que deixes para outra occasião as tuas observações joviaes;
repito-te que é serio o que tenho a dizer-te.
--Pois aqui me tens serio como o assumpto. Falla.
Jorge guardou ainda por instantes silencio. Sob os passos dos dois
irmãos ouvia-se estalar as folhas sêcas que alastravam o chão.
--Mauricio--principiou Jorge a final--Thomé procurou-me hoje para
fazer-me um pedido.
--Hum!--atalhou Mauricio com meio riso--não me enganei, previ logo que
se tractava d'isso.
--De quê?
--Fizeram-te queixa de mim, não é verdade? Pintaram-me como um lobo
voraz rondando e assaltando o curral da tenra ovelhinha, creada com
tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente imaginação de rapaz
serio, viste logo um drama pavoroso em tudo isso e distribuiste-me
n'elle o papel de tyranno. Confessa que tudo isto é verdade.
--E estimaria bem que não fosse.
--É o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu, mas, vivendo
mais da vida commum da sociedade, não estou tão sujeito a vêr as coisas
sob o colorido particular do prisma, atravez do qual as vêem os que,
como tu, trazem quasi sempre o pensamento tomado por altas e abstractas
especulações. Com a maior franqueza te confesso que Bertha me agrada,
que todos os dias procuro vêl-a, que, se lhe fallo, não perco tempo a
dizer-lhe que o anno vae bom para as colheitas ou que hontem esteve mais
calor do que hoje; não tenho razões para suppôr que as minhas visitas a
importunem. Esta é que é a verdade; mas d'aqui a realisar o typo de
Lovelace ou D. Juan Tenorio, incumbindo a ella a parte de Clarisse ou de
Elvira, vae muita distancia. Estas coisas, se tu não andasses tão
alheado dos negocios terrenos, devias saber que são da pratica commum,
em qualquer parte, onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que
se preza de saber apreciar o bello. Ora agora vê lá se ha motivo para o
terror tragico que te infundiram.
--Não é terror tragico, é desgosto. Eu bem sei que são usuaes esses
galanteios que dizes, essas falsas ostentações de amor, com as quaes se
profana e desprestigia tudo quanto ha de mais sancto e respeitavel no
coração do homem. Ás vezes succede, é verdade, que uma das partes
interessadas, talvez por andar alheada dos negocios terrenos, como
dizes, entra com a alma n'essas comedias sociaes, e quando a scena
finda, muito a bel-prazer do outro actor e sob os applausos dos
espectadores que riem, essa alma sente-se ferida de um golpe mortal. As
illusões da mocidade, o suave perfume de um affecto virginal, as
primicias de um amor casto, tudo se desvanece n'estas profanações, e não
sei que haja espirito tão leviano que ouse tentar a representação
d'estas comedias ridiculas e ao mesmo tempo perversas com uma pessoa a
quem se devem affeições leaes e respeitos.
--Mas...
--Em uma palavra, Bertha é a filha de um homem honrado; Bertha era a
amiga e a companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou comnosco á
mesa, a que presidia nossa mãe, que a abençoava, quando nos abençoava a
nós. Não te lembras d'isso?
--Lembro, e por isso mesmo a amo. Não te disse que havia entre nós
recordações de infancia?
--Amas!--exclamou Jorge com uma impaciencia, a que era pouco
sujeito.--Que amor! Um amor de que fazes confidentes os primos do
Cruzeiro, que sabes tractarem irreverentemente todos os amores, um amor
que ostentas sem recato, chegando a sujeitar á apreciação cynica d'esses
doidos a mulher que dizes objecto d'elle, um amor que não procuras
occultar com aquelle casto e natural pudor de uma alma devéras
apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escrupulos nem reservas
diante de quem quer que seja!
--Mas... como imaginas tu então que se ama, quando se ama devéras? O
systema da publicidade applicado ás paixões não será antes uma garantia
da boa natureza d'ellas?
Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto
a rapidez dos seus passos, proseguiu com exaltação crescente:
--Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma d'estas paixões unicas,
dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas ás vezes tenho
pensado n'isto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o
sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de
todos os olhos essa paixão; desejaria que ninguem m'a suspeitasse nem
por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos
fallar sequer na mulher que eu amasse, ferir-me-ia como uma profanação.
Não escolheria confidentes, a ninguem revelaria esse segredo da minha
alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este
amor seria o poder dizer, quando estivesse só, ninguem no mundo sabe,
ninguem suspeita este mysterio do meu coração, senão ella. Para ella só,
para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestações
dos meus sentimentos, as mais serias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e
permittir que outros as percebessem era profanar o culto. Só com ella,
sim, todas as reservas acabavam; então no gesto, na palavra, no olhar
revelaria inteira a minha alma, sem mysterio nem discrição. Aspiraria
assim n'esses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o
mundo, ao vêr-me frio e concentrado, pensasse: «Ahi está um homem de
gêlo, este não sabe amar», e que ella só pudesse dizer: «Oh! eu é que
sei de que extremos é capaz aquelle amor que ninguem suspeita.»
Mauricio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado por uma
excitação nervosa, ao fallar assim, mais para si do que para o irmão.
Taes expansões eram raras em Jorge e esta era a mais vehemente e
completa que o irmão presenciára.
--É singular!--notou Mauricio--N'esta vida tropeça-se a cada passo em
uma maravilha. Quem te ouvisse agora não acreditaria que és aquelle
rapaz serio, para quem as raparigas nem se atrevem a lançar um olhar
furtivo, porque nunca uma phrase de galanteio ou um sorriso as animou a
tanto. Estou admirado! e quasi me convenço de que a final sou apenas um
simples curioso na arte de amar, cuja metaphysica transcendente tu
professas como verdadeiro mestre. A minha sensibilidade é menos
exigente, mas por essa mesma razão admiro a suprema delicadeza da tua!
Jorge como que voltou a si e estranhou a exaltação de que se deixára
possuir. Rindo e fallando já em tom natural tentou attenuar a impressão
produzida, e disse para o irmão:
--A lua tem decididamente uma influencia poderosa até nos animos mais
fleugmaticos. Ahi está que querendo eu fallar-te de coisas serias,
esqueci-me em uma divagação sentimental, que Deus sabe até onde me
levaria. Deixemos isto. Vaes prometter-me, Mauricio, que desestirás de
inquietar Bertha e tranquillisarás o espirito a Thomé!
--Ora que ridicula promessa exiges tu de mim! Deixa-me vêr de quando em
quando aquella rapariga, que eu te afianço que não corre perigo algum
com isso. Quanto mais que eu não posso assegurar que ella de facto me
corresponda.
--Não anticipes juizos sobre o effeito incalculavel que póde produzir no
espirito d'aquella rapariga a assiduidade das tuas attenções. Bertha é
muito nova, tem habitos e gostos de cidade, e não é de crêr que possas
ter na aldeia concorrentes que te offusquem. Por isso o melhor é acabar
com esse galanteio perigoso para ella. Lembra-te das consequencias que
póde ter um tal capricho da tua parte. Além do que parece que já te
esqueceste da gravidade da nossa posição e das resoluções que ha dias
tomamos.
--Não, não me esqueci; estou prompto para a primeira voz; mas, emquanto
espero, desejo dar um adeus á vida de rapaz.
--Mas evita sahir d'ella, semeando remorsos que fructifiquem na tua vida
de homem.
--Mas...
--Terminemos. Peço-te, em nome de Beatriz, que não continues galanteando
Bertha. Promettes?
Mauricio acabou por prometter.
E horas depois voltavam a casa os dois irmãos.
A lua declinava já no arco esplendido que descrevia no céo.