D. Luiz abanou a cabeça, mais triste e sombrio do que antes.

--Na sua idade, Gabriella, cicatrizam depressa as feridas. Quando se

chega aos meus annos, golpe que se receba, é ferida com que se morre.

--Diga o snr. D. Luiz--interveio o padre--que o que tem é muita

resignação christã, que n'estes tempos que vão correndo não é coisa

vulgar.

E assuou-se.

--Mas para isso vale a meu tio o seu exemplo, snr. frei Januario--acudiu

Gabriella.--Resignação ahi! Eu sou testemunha da heroicidade com que

arrosta as vigilias e os jejuns.

Os presentes, incluindo o proprio D. Luiz, não puderam ouvir sem um

sorriso a allusão da baroneza.

O padre córou, assuou-se com mais força e resmoneou com azedume:

--Bem sei que não é quanta Deus manda, nem quanta a alma precisa... e

por peccador me tenho.

--Deve vir cansada, Gabriella--lembrou D. Luiz--Eu julgo que terão tido

o cuidado de...

--Tudo está prompto. Logo que a prima queira descançar...--respondeu

Jorge.

--Não sinto grande necessidade de descanço. Descançarei depois do

almoço, se me fizerem o favor de dar alguma bebida quente, porque tenho

frio.

Em virtude d'esta reclamação, sahiram successivamente da sala Jorge, o

procurador e Mauricio, ficando Gabriella só com o fidalgo.

Este parecia hesitar em alludir ao principal motivo da visita da

baroneza.

Foi ella quem rompeu o gelo da entrevista.

--Recebeu a minha carta, tio?

--Recebi, sim, e agradeço.

--Diga que perdoa. Se quer que lhe falle a verdade, julgo que não lhe

escrevi em estylo muito apropriado, mas tão desacostumada ando de

escrever-lhe, e a gente com quem de costume me correspondo permitte-me

tal familiaridade, que me descuidei.

--A carta nada tinha de censuravel. O que por ella vi foi que deveremos

renunciar aos projectos que formei a respeito de Mauricio.

--Perdão; mas como viu por ella isso?

--Desde o principio ao fim. Não me diz que para que Mauricio abra

carreira no mundo, é necessario condescender com certas coisas?...

--Ai, sim, mas quem é que não tem de condescender n'esta vida?

--Gabriella--tornou D. Luiz com certa aspereza--já ha pouco lh'o disse;

as nossas idades differem. Quando se possue a sua juventude ha

movimentos faceis, a que se não prestam as fibras inflexiveis dos meus

sessenta annos.

--Sim, mas quando se é joven como Mauricio e se está nas circumstancias

d'elle, das quaes estou informada pela sua obsequiosa confidencia, é

menos prudente não ceder um pouco no tempo em que se póde ainda ceder

com dignidade; porque depois... a vida para elle é longa, e quem sabe a

que provações e sacrificios o sujeitará? O tio está em uma idade

avançada, não espera numerosos annos de vida, não ama demasiadamente o

mundo, e para a lucta conta com a inflexibilidade das suas fibras de

sessenta annos. Mas elles, seus filhos, são novos, teem futuro, amor á

vida e não possuem ainda a tal inflexibilidade para sustentarem o pêso

de uma instituição morta sem vergar ou quebrar debaixo d'ella. Veja bem.

--De uma instituição morta!--repetiu o fidalgo, accentuando as syllabas

e levantando os olhos para o tecto.

--Morta, sim, meu tio, desengane-se. Deus me livre de fallar agora em

politica com o tio. Mas a verdade é que quem vive em certa sociedade, e

ouve certas coisas, e estuda certos homens, acaba por convencer-se,

mesmo sem pensar muito n'isso, de que um sonho como o de meu tio é...

é... é um sonho.

--Seu pae morreu por um sonho assim, Gabriella.

--E eu venero a memoria de meu pae, não o duvide; assim como venero o

caracter e as opiniões de meu tio; porque venero todas as convicções

sinceras. Mas o que eu não queria é que se sacrificasse mais do que

deve. A sua vida, a sua felicidade tem o direito de dar esse sacrificio.

Mas a vida, o futuro, a honra e a felicidade de seus filhos, isso não.

--A honra?! A honra é que eu quero salvar-lhes.

--E quem lhe diz que elles teem as suas convicções?

Os olhos de D. Luiz fuzilaram ao ouvir esta insinuação.

--Se meus filhos...

--Sei o que vae dizer--atalhou Gabriella--mas não diga, porque contradiz

os seus proprios actos. Esmerou-se em dar educação a seus filhos, em

desenvolver-lhes a intelligencia, e agora quer que elles não usem d'esse

instrumento que possuem, e que para pensar lhe venham pedir licença? Não

valia ensinar-lhes a raciocinar n'esse caso.

--A razão deve-lhes ter mostrado a verdade.

--A verdade... a verdade... Ora valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe

onde ella está? Pois todas estas mudanças que succedem no mundo de que

procedem, senão de se julgar a cada passo ter-se descoberto que a

verdade não está onde se suppunha?

--Vejo que a convivencia social lhe tem dado uma boa dóse de philosophia

para bem viver no mundo. Mas que quer? Eu regulo-me ainda por as

cartilhas velhas.

--E o que lhe ensinam a fazer as cartilhas velhas a favor de seus

filhos? O que é que, em harmonia com ellas, tem tentado e tenciona

executar?

--Dar-lhes o exemplo de como se soffre a adversidade, quando se tem

brios, e um nome que respeitar.

--A nobreza não está em soffrer de braços cruzados a adversidade, quando

elles se podem empregar nobremente em repellil-a; Jorge bem o

comprehendeu. Esse illustrará devéras o seu nome da unica maneira por

que n'estas circumstancias elle póde ser illustrado. O que é preciso é

que a ociosidade de Mauricio lhe não annulle os esforços.

D. Luiz ia a replicar quando o padre procurador entrou a annunciar que o

almoço estava na mesa.

O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o dialogo que

evidentemente o incommodou.

Cedo estava a familia da Casa Mourisca reunida á mesa na sala do almoço,

da qual d'esta vez a voz alegre e a jovial presença da baroneza parecia

afugentar parte das sombras que de ordinario pesavam sobre ella.

E na noite d'esse dia Gabriella escreveu uma longa carta a uma das

amigas da capital, em que lhe narrava por miudo os episodios da sua

jornada, a sua recepção na Casa Mourisca e as impressões que recebera.

Esta carta terminava por as seguintes palavras:

«Do que te tenho dito parece-me que podes concluir que se

desvaneceram aquelles projectos de sacrificio que trouxe d'ahi e com

os quaes não te conformavas. O meu primo Jorge é um rapaz mais serio

ainda do que eu o suppunha. Não fazes ideia. Affirmo-te que é

incapaz de casar por interesse, e como o espirito d'elle anda muito

occupado por calculos e combinações economicas, não é tambem

provavel que se deixe tomar por o amor, e portanto não casa. Assim

fico dispensada de sacrificar os meus queridos habitos de vida de

Lisboa, ao que vinha devéras decidida para salvar esta familia com

os meus capitaes, que mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que não é

provavel, ha de ser de alguma maneira extravagante, inesperada.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 25 / 93 题