D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.

--Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella

tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me

dirá v. exc.ª?

--Todos hoje teem aspirações a subir--reflectiu D. Luiz com ironia.--A

maré sóbe.

--Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da

barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido

e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas

parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje

todos por lá tem excellencia!

N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar

os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as

instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a

ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,

cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus

desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente

para ir vêr se o jantar estava servido.

Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.

Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca

aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e

esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o

capellão.

Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com

quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia

presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais

melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao

sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos

conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.

D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,

apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.

--Então os senhores não ouviram a sineta?

--Os senhores ainda não vieram.

--Nem Jorge?--perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de

Mauricio.

--Nem um, nem outro.

--O snr. D. Mauricio--observou o padre, que temia um adiamento do

jantar--sahiu para a caça; quando virá elle agora?

E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.

--E Jorge?--insistiu o pae.

--O snr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja ahi por alguma parte.

O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que

ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar

a jantar sem elles.

O jantar correu em silencio.

O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo

ao dialogo.

Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o

competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 11 / 93 题