Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
silencioso.
Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:
--Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
que viu por esses campos?
--Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural--respondeu Jorge.
--Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.
--Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
vejo o movimento dos outros?
A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.
--Causou-me sensação isto hoje--proseguiu Jorge.--Quem subir ao alto do
outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
--Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois
que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
mudaram. Quem não está por o que elles querem...
--Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?
--O que os outros fazem, diz elle! Os outros... os outros... e quem são
os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.
--Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.
--Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
é muito boa!
--E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?
--Á miseria... á miseria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e...
As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
energia e irritação:
--Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
responda, snr. frei Januario.
--Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?
--E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
por ahi se arruinam?
--Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
certa gente!
--O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
diz que eram uns miseraveis?
--Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.
--Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
nos enleia e que nos ha de afogar a todos.
--Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!
--Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
administração?
--Os meus planos?!... Ora essa!... Então que planos quer que sejam os
meus? Systema de administração!... isso é phrase de côrtes... Humh!
tenho entendido... É o que eu digo... Ó snr. Jorge, ora falle-me a
verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
ora diga.
--Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
grandeza do mal que nos opprime.
--E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?
--Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
pelo trabalho honrado.
--Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!
--Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.
--Que vae fazer, snr. Jorge?
--O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.
--Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora... ora... ora... ora
esta não está má!
--Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
que ainda temos, para comprar dois bois.
--Mas...
--Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.
--Mas...
Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
assustado, o chamou.
--Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
que os liberaes...
--Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!... Os liberaes o
que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.
--Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
casa devia ser muito bem servida com ellas?
--Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
administrada não póde pois perder com ellas.
--Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
de gostar--argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
apanhava em falso o seu adversario.
Jorge respondeu serenamente:
--E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
politico.
--Ai... ai... ai... O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!...
Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
illustres do reino... Ai, como elle está!...
--Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
saberá das consequencias d'elle.
E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.
--Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho... já estou de
pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
uma coisa muito appetitosa... Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
deixar de trabalhar... Ah! ah! ah.
Aqui bocejava o egresso.
--Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
estou. Como elle fallou nos morgados!... Provará que é tão pateta que,
sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae... Não
declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
deixem... O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
quem puder deixar de trabalhar...
Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.
Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
angulos da Casa Mourisca.
V
Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.
A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
applicação pratica qualquer.
Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.
Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
consultava.
A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
ao fechar da tarde.
Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.
Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
irmão, interrogou-o:
--Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?
--Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de
raiva?
--Contra quem?
--Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!
--Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.
--É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
sangue nas veias e pundonor no coração.
--E sangue tambem no coração--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem
é lá preciso.
--Não rias, Jorge! Por quem és!--tornou o irmão despeitado.--Bem vês que
fallo seriamente.
--Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.
--Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
de fallar nas dividas da nossa casa?
--Quem as contrahiu e não procura pagal-as--respondeu, triste mas
placidamente, Jorge.
E logo depois acrescentou:
--Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.
--O que foi?
--Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.
--Inevitaveis?! Eu te juro...
--Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
que me fez pensar.
--Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?
--Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.
--Sim, mas de que maneira?
--Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.
--Queres então fazer-te lavrador?
--Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
genealogicas; desengana-te.
--Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?
--Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
desprezar do que nós a elles.
--Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio.
--Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?
--Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que...
--Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
salvar, se quizermos ser homens.
--E como?
--Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.
--Mas...
--D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
certa.
--Mas que entendes tu de administração?
--Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.
Mauricio ficou pensativo.
A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
duração.
Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
uma impetuosidade juvenil:
--Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.
Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
habitual serenidade:
--Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
ficar a montear por estas aldeias.
Mauricio sorriu, objectando ao irmão:
--És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando
trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas
devezas, valles e ribeiras.
--Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que
não a vias lá.
--Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?
--Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados;
vi-a eu que estava de fóra.
--E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?
--A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro
ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem
presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos
namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos,
impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até
certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle
suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.
Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução
de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter,
e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo
momento a D. Luiz.
A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto
o fidalgo devia estar só no seu quarto.
Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á
Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul
pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua
nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas
sombras da quinta.
Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A
fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da
perspectiva, e o pensamento... ai, quem sabe porque melancolicas
paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias,
festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida
n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a
pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao
desapparecer lh'a deixou escura e desencantada... que outras podiam ser
as visões presentes áquelle espirito sombrio?
Pobre velho!
Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos.