Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
capellão-procurador frei Januario dos Anjos.
Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.
Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
para se devassar de prompto.
D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas--a liberdade de
imprensa--; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.
De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
pelo governo, que nunca tinha razão.
Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
que eram fulminados os homens da época.
Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
Os intervallos das refeições eram para elle seculos!
--Humh!--disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
com o que lêra--Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
de estrada de Valle-escuro!
--Fartos sejam elles de estradas!--acudiu logo frei Januario--Para esta
gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.
Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
elle não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom,
acrescentou:
--Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.
E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
jantar.
D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
padre, que entrou indignado.
--Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
errado... Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
não...
D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.
D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
abatêra, resultando muitas victimas.
A indignação do padre exaltou-se.
--Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
os homens da Carta! Isto é bonito!
E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
subsidios e de lhe dar importancia demasiada.
A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.
D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
contrahida synthese:
--Isto vae cada vez melhor, frei Januario.
--Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma--secundou o padre.
--O peior é o futuro--tornou o fidalgo, assombrado.
--Ai, o futuro ha de ser fresco!--repetiu o procurador, fungando uma
pitada.
--Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
torrente.
--E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
por que vão as coisas...
--Ai, pobre Portugal!--exclamou melancolicamente D. Luiz.
--Que vaes á vela--concluiu o padre.--Desde que puzeram a cabeça á roda
a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos
mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
governe... Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
servidos!
O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.
--O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
aos pobres rapazes!--disse o fidalgo, suspirando com escuras
apprehensões sobre a posição precaria da familia.
--Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
homens!--exclamou com vehemencia o padre--É não fazer como a sobrinha de
v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.
--É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
em parte preparado por nós--insistia o fidalgo.--Tambem peccamos.
--Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
dinheiro.
--O Thomé da Herdade!--repetiu D. Luiz com amargura--Esse é que
prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!
--Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
alguem?
--A Bertha?
--Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
para algum dos seus filhos.