III

Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde

desejar-se.

«Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o

homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a

alegria.

Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.

Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia

com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes

laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo

superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade

toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou

outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição

dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o

Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.

Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos

contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua

aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em

certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em

familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a

lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os

desalentos.

Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos

trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.

Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas

o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se

familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;

sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo

ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.

Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas

eiras e quinteiros da Herdade.

E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo

a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e

da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta

mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,

sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais

crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.

--Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me

arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça... Ó meu maluco, não

reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo

isso, que eu não quero nada desperdiçado... Está quieto, João, vae para

casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,

menino! Ai que tu... Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles

homens.... Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por

causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje

não posso olhar por isso... Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu

fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle

milho que eu te disse; corre... O moleiro já veio? Pois as azenhas já

moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora... Ó Manoel, arreda

esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de

Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?

Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;

elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que

podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.

Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para

os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?

Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.

Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.

No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi

Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:

--Ai, ó Thomé, olha quem alli está!

O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do

quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo

espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.

Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo

ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A

granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma

lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu

orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.

Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a

familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia

e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em

casa do fidalgo.

Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações

com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina

em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre

indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de

seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que

houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com

elle.

Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os

trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não

voltarem lá.

Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas

possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do

fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a

mulher:

--Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de

morrer.

Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar

signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o

rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.

--Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas

emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.

Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar, é melhor entrar

lá para dentro.

--Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou

sentado.

--Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda

então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?

--Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta

lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli

de cima: por isso desci.

--Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles

meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.

E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com

grandes olhos para Jorge.

--São todos seus?--perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos

joelhos.

--E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.

--Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?

--Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu

vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e

nada mais.

--Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o

seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.

--Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia--acrescentou olhando para o

sol--d'aqui a nada vae esta gente jantar e... Para onde levas tu esse

carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos... Eu

attendo-o já.

E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e

encaminhou o carro na direcção conveniente.

--Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões

este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge--disse elle,

regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.

Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.

--Como está crescido e fero--dizia ella, olhando-o com curiosidade e

complacencia--e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na

ponte do Giestal. Pareceu-me bom.

--E como está seu pae, snr. Jorge?--perguntou Thomé gravemente.

Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos

criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia

recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.

Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando

o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos

fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro

suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma

curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos

presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:

--Venham jantar.

Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo

ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.

--São horas do seu jantar, Thomé--disse Jorge, levantando-se para sahir.

--Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde

attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe

offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar

uma volta por os campos emquanto elles jantam...

--Se lhe não causar incommodo...

--Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que

mandei abrir lá em baixo.

E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé

obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.

E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns

pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a

quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na

construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da

nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os

cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao

amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,

onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.

Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando

grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da

categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com

tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de

lavoura.

E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que

por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um

proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;

acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que

Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres

Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.

Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas

informações.

Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma

propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital

exigido para a elevar a esse grau de florescencia.

Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a

melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.

A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que

terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a

fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:

--E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de

ortigas e saramagos, Thomé?

Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar

penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia

até o fundo do pensamento de uma pessoa.

--Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?--perguntou elle logo depois,

com um tom de voz serio e quasi triste.

--Quero, sim.

--É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o

fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.

Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:

--É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e

porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de

Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde

que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o

menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de

serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua

que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o

suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem

confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi

está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás

terras--acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a

allusão, que não escapára a Jorge.

--Mas como se explica isto, Thomé?--continuou Jorge com a docilidade de

um discipulo--os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;

passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes

visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa

casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje...

--Isso lá... Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e

não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o

está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa

robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,

não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um

certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno

que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?

--Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de

que--proseguiu Jorge pensativo--n'aquelles tempos, as classes

privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de

dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os

desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado

as condições sociaes, e agora ao acordarem...

Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu

interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa

Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:

--E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?

Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.

--Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa

dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.

--Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas

arvores--observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado

solar e para os bosques seculares que o rodeavam.

--Talvez deitasse--disse Thomé--póde bem ser que o fizesse, porque lá

amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,

que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes

negras, porque alli passei um tempo... mau era elle de certo... mas

emfim... sempre tinha vinte annos..., eu, que me não atreveria a

deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que

esteve.

Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi

de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se

para a Casa Mourisca:

--Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos

teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para

vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim

Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não

destruir na reforma.

Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com

dignidade:

--Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,

que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios

olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?

--Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer

um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.

--Senhor Jorge--acudiu Thomé com um ar quasi solemne--resolva-se devéras

a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira

do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da

praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal

ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto

e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os

n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde

chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os

capitaes, chegará o credito.

--É uma esmola que me offerece, Thomé?--perguntou Jorge, mas sem o menor

signal de irritação.

--Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia

fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,

menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha

um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se

um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e

resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,

mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro

que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica

mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade

os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem

emprestado?

--Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o

emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.

--Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?...

Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois

se tenho razão no que digo.

E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a

nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:

--Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,

que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,

que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do

romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer

de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos

açudes e o palheirito que fica ao lado?

--Bem sei.

--Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo

casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,

mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na

tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe

falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor

Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.

--Ainda tenho uma ideia de o vêr.

--Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre

prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a

novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,

as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as

mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira

que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.

--Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.

--A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria

faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei

para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o

caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como

não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me

diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e

atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das

arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não

houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram

completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor

Menezes.

--E elle?

--Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as

pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então

o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª

sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora

se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro

virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o

dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a

vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e

disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E

você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para

elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É

celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro

que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma

coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,

ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do

seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me

deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da

sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu

proximo.»

--Bella alma!--exclamou Jorge commovido pela narração.

Thomé continuou:

--«Em todo o caso--disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor--você fez hoje

um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu

visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe

aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o

capital e hoje arranjou-o.

--Que queria elle dizer n'isso?

--Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,

porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,

mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que

tractar.»

--E que lhe queria elle?--perguntou Jorge, cada vez mais attento.

--No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle

tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,

sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a

sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto

de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o

menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das

Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de

arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:

«Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e

você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e

estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,

disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços

para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,

torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao

desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os

caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem

fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se

não esfomeassem a terra.

--Mas esse homem era um grande philosopho!--observou Jorge.

--«Vá você para lá--continuou elle--tracte-me bem d'aquillo, e os

capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas

obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia

apostar que ambos havemos de lucrar.

--E o Thomé foi?

--Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e

depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que

o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na

terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava

com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.

Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,

dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a

longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da

mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a

ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,

juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não

abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo

quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que

fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto

vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava

em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me

tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me

elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em

comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te

chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um

cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que

negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o

caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.

--Mas a final sempre comprou?

--Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era

ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.

doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra

todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a

propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que

nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,

emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a

isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como

continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de

gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e

remir a divida.

Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé

da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos

radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.

--Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!

Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação

no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma

criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como

um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava

quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá

dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra

coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!

Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,

que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e

cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu

abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses

tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas

arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final.... quer que lhe

diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!

beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito

trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,

em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de

cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim

na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e

que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma

coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu

soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um

cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim

causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento

era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as

arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo

nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus

ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.

Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu

pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.

Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:

--Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e

n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a

rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse

dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e

ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.

Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.

--Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda

a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu

futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o

menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer

missas, porque depois...

--Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque

meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu

pae...

Thomé da Povoa não o deixou concluir.

--Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da

casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle

ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto

que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do

que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,

eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não

gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os

serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.

Jorge disse finalmente com resolução:

--Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da

ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será

impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

--E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa

n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro

escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o

jantar esperava por elle.

Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,

que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter

com o pae.

Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e

realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar

voltou para a eira, cantando.

Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 9 / 93 题