Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
de que já fallamos.
Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.
Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.
O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.
E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.
Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
latidos e cabriolas.
Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:
--Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
desespero de te vêr um dia fazer versos.
Jorge respondeu, encolhendo os hombros:
--Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então...
--Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?
Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
Monté sur la montagne en presence des cieux?
E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
cuidados seus.
Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
monte.
Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:
--Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.
E acrescentou, suspirando:
--Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!
Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.
Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:
--Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.
--Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.
--Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.
--Qual era então?
--Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!
--Ora adeus!--exclamou Mauricio--é justamente o que me não roubaria um
momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.
Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:
--Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.
--Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
muito longe.
--Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
prejudica a belleza d'esta paisagem?
--Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
fundo que lhe fazem os castanheiros!
--Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
realidades--observou Jorge, suspirando.
Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
fitou, Jorge correspondeu, dizendo:
--Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
Mauricio?
--Pobreza?!
--Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.
Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.
Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:
--Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia... oh! essa
deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
da opulencia.
--Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
enthusiasmo e de fé no futuro.
Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
erguendo-se e com affectado estouvamento:
--Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é...
é... é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!
--No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!--acudiu Jorge--Mas
antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.
--Não o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.
--O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.
--Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
bom para dissipar visões.
--Não estou hoje para caçar.
--Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?
--Não, vou reatal-o acolá.
--Vaes á Herdade?!
--Vou.
--Fazer o quê?
--Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.
--Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?
--Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.
--Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
vêr-te ao jantar de melhor aspecto.
--Adeus, Mauricio.
E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
Herdade.