no serviço não afrôxava é porque só no trabalho achava algum consolo.
E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:
Babita, meu bem Babita,
Babita do coração,
Tem pena de minhas penas,
Senão morro de paixão.
Passarinho que tem aza
Depressa vôa ao seu bem.
Aza não tenho, nem tenho
Quem me possa querer bem.
Desgraçado do tropeiro,
Minha sina é só gemer:
Meu destino caminhar,
Caminhar até morrer.
Chaga viva em mim abrio
Teu olhar, mulher querida.
Mas de ti eu não me queixo,
Pois adoro essa ferida.
Tenhão os _rezes_ seus palacios
Ouro e mais prata infinita,
Eu só quero d’este mundo
Ser querido de Babita.
Mas, coitado, porque choro?
Quem m’ouvir póde n’este ermo?
Se o meu canto não tem écho,
Meu tormento não tem termo.
Ó rochedos, montes, valles
Ó campinas tão floridas,
Compaixão deveis sentir
D’essas mágoas tão crescidas!...
N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava o peito, de modo que
todos sabião por quem ficára preso o tropeiro modelo.
Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os seus males, e a viola
chorava nos dedos do namorado. Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir
o cantor, cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar.
Ventura me chamão todos,
Desgraça devem chamar.
Pois aquella a quem adoro
Não me quer _a mim_ amar.
Sou tropeiro, não sou rico
Casas não tenho, nem ouro;
Mas no peito tenho honra,
E não sou filho de mouro.
No braço tenho _talento_[23]
Na cara tenho vergonha,
Não vivo de comer bichos
No lôdo como cegonha.[24]
Ai! se apaga em mim a vida!
Sinto já que vou morrer.
Mas não sei se chóre ou não
Por agora perecer.
Pois embóra eu _seje_ moço,
Por effeito da paixão
Com certeza hei de findar
Nas funduras do sertão.
N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o brazeiro se apagára, e já
as barras do dia riscávão os lados do nascente, e elle ainda ficava de
vióla na mão, tocando e verseando.
Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou em Uberaba, foi logo
procurar vêr a quem lhe tinha inspirado tanta quadrinha bonita.
O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se a ronda com a
patrulha.
Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D. Cula com um ar muito
agradavel e cheio de riso.
Ventura quiz voltar, não poude e parou.
A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado com muito boas maneiras,
perguntando noticias da saude e da ultima viagem e mais outras cousas.
Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou passado de uma vez
quando, conversa puchando conversa, D. Cula o convidou para descansar em
sua casa.
O moço no acto de se sentar já não estava muito em si, mas quando vio
entrar na sala a rapariga por quem suspirava tanto, perdeu de todo a
cabeça.
Não soube mais dizer uma palavra.
Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria ficar calado,
vinha-lhe a comixão de fallar.
Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer pasmado. Foi que no fim
de sua visita, uma visita de medico, elle pedio a mão de Babita, que
Babita ficou muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita chorou
algumas lagrimas e que consentio e poz-se a fallar muito e a contar casos
e mais casos, dando de lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo,
quanto mais a um namorado!
Elle levantou-se cambaleando.
Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...
A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade chegada do Rio de
Janeiro. Uns approvarão muito, outros acharão a cousa má, outros emfim
nada disserão, no que fizerão melhor do que os que se mettião a abelhudos.
Os que approvavão, mostravão que as idades dos noivos estavão muito
combinadas e achavão direito que um pobre casasse com uma pobre e outras
cousas mais.
Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio de tropeiro era
baixo e por demais andejo, sendo assim o casal obrigado a viver sempre
separado. E a final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida? Nas
de um camarada de tropa...
Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se na vida e nos
interesses dos outros como melhor quizerem, mas por amor á verdade não
digão que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!
Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos, olhos rasgados, côr
morena, bigodes finos, boca bem feita, e barba sempre penteada? Não tinha
elle cabellos cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso era do
pó da estrada, e esse pó dava signal de que elle trabalhava para ganhar
honradamente o pão de cada dia.
Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua pobreza, mas não tivessem
susto de qualidade nenhuma. A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se
Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a ninguem. Graças aos
céos, braços não lhe faltavão para sustentar a sua gente, e, se até então
ainda não tinha ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava fóra
tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.
Agora o caso mudava de figura, e para prova é que elle tratou logo de
preparar um montesinho de prata já com vista nos gastos dos papeis de
casamento e tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella occasião.
Emfim quer os moradores quizessem, quer não, Babita e Ventura erão
noivos, tinhão já o sim de D. Cula, a unica que podia n’aquelle negocio
serrar de cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio do Brasil
que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes como se tivessem ganho o
reino do céo.
O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes, quando o tropeiro voltasse
de uma viagem que tinha de fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava
paga.
No momento da despedida os noivos chorarão como dous perdidos; mas no
coração lhes ficava a quentura da felicidade.
D’ahi a tres mezes!...
II
No tempo marcado voltou Ventura mais _amorudo_ do que quando partira e
com as mãos cheias de presentes. D. Cula ganhou um vestido de muito boa
seda e Babita uma joia de ouro verdadeiro.
Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que entendia de ourives o
disse, e o que sabia da boca d’elle era que nem palavra de Evangelho,
pelo menos ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras.
Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou de mãos abanando.
Tinha cozido todo o seu enxoval e arranjado com os dedinhos o vestido do
casamento, que a mulher do commandante superior da guarda nacional fez o
favor de cortar e acertar, porque era uma senhora muito estimavel. Tambem
a cousa parecia uma maravilha de feitio e assentada.
Mas o que é o destino da gente!
Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se n’uma dobadoura que
ninguem na terra se lembrava de cousa igual. Uberaba tão socegadinha!
Longe de tudo e de todos no meio de seus sertões!
Não se fallava senão em guerra!
Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar que o Imperio do
Brazil estava n’uma pendencia muito grossa com uma republica chamada
do Paraguay, que havia muito fogo de parte a parte, gente e mais gente
partia para fóra, que muitos ião por gosto, outros a páo e corda, que o
recrutamento roncava feio e forte e os rapazes andavão disparando para
os matos, mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e lhe perguntar
quantos annos tinha, seguio socegado o seu caminho do interior, sem se
occupar com as novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava
n’este mundo.
Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, o mesmo reboliço.
Parece que os negocios não ião bem. O governo da côrte tinha posto
nos jornaes que todos devião combater, que a guarda nacional havia
de marchar, que era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma
lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios.
Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados. Imaginem!
Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, mas onde é que se ia
buscar tanto povo de uma vez para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá
de cima que governão os outros ás vezes não pensão com juizo. Era uma
exigencia por demais.
Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de S. Paulo e de Ouro-Preto
duas forças grandes para se juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para
os lados de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á força e onde
estavão fazendo selvajarias sem conta nos brazileiros que cortava o
coração só de ouvir fallar.
Tudo isto não bastava.
Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se na cidade que os
guardas nacionaes ião ser reunidos, que muitos havião de seguir com a
expedição, que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de historias
capazes de assustar os mais valentes.
As familias andavão com o coração na mão e com toda a razão, porque não
tardou muito e ahi chegarão uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa
e ensinar o manejo de arma.
Então é que foi susto!
No meio de todo esse barulho, Babita não tinha um momento de descanço.
Juca Ventura era guarda nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos
annos e podia ser chamado.
—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se você tiver de marchar?
—Não marcho, não, respondia o tropeiro para lhe dar algum socego.
A mocinha perguntava abaixando a voz:
—Então você deserta?
—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de cousa nenhuma! Mas tenho
certeza de que não vou. Não me chamão. Você verá...
Esta certeza durou pouco tempo.
Um bello dia o commandante superior da guarda nacional mandou-lhe por um
cabo de esquadra aviso, ordenando que chegasse n’aquella mesma hora ao
palacio da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais quinze
companheiros fez uma falla meio gaguejada em que disse que era preciso
ir acabar com o inimigo, que os brazileiros nunca tinham sido vencidos,
que a gente de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam de
voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que o Brazil contava com os seus
filhos, etc., etc., e depois de toda essa perlenga acabou dando vivas ao
Imperador e á Constituição, no que foi acompanhado com muito barulho por
outros homens de casaca reunidos a um lado da sala.
Mas ahi é que cabia bem uma pergunta?
Porque é que aquelle commandante superior não marchava tambem para a
guerra? Então só lá devião ir os pobres soldados para chuchar bala como
terra em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas cheias a se
deixarem ficar muito a gosto e só enchendo as bochechas com patriotadas?
Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade, como diziam,
então que todos se sacrificassem.
O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos e mostrar boa
vontade, supporta tudo com cara alegre, não assim a empurrar-se gente
para obedecer ao governo e mettido na tóca caladinho!...
Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não disse patavina, e sem
demora foi mandado para o quartel, uma casa de paredes altas e vigiada
que parecia uma cadeia.
Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios assarapantados que
todos os dias ouviam fallas e mais fallas do commandante d’aquelle
deposito—um major de linha, mandado de proposito da côrte para ensinar
recrutas.
Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não havia influencia nenhuma.
Juca Ventura só viu caras muito _jururús_.
Quando Babita teve conhecimento do que succedêra ao noivo, cahiu n’um
desmaio que poz D. Cula tonta; depois as duas choraram juntas até não
terem mais lagrimas nos olhos.
Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres. Via-se bem que elle
queria se fazer de forte, mas que estava por seu lado desanimado.
Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi ao quartel para ver
se trocava alguma palavra com o rapaz, mas não pôde entrar, porque na
porta estava um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido que
passeava como um rei, de um lado para outro, segurando na mão uma espada
desembainhada. Quando a boa da velha foi se chegando para mais perto,
elle gritou—Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem.
Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira o cabo fallar
n’uma guerra que houve no tempo de dantes em que elle com mais dois
companheiros tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem de
brincadeira e que cortaria pelo meio todos aquelles que quizessem sahir
do quartel sem passe do senhor major.
Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava o bigode com
raiva e rangia os dentes como porco do matto.
Homens assim é que deviam ir para a guerra, já que gostavam tanto da
historia, e não uns pobres moços socegados que tinham suas familias
ou estavam em vesperas de formar casa. Fosse lá o _tres contra
quatorze_[25], mas não uns guardas nacionaes que nunca haviam feito mal a
ninguem.
Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que ella não passou a
ninguem, porque não gostava de metter o bedelho nos negocios geraes,
entendendo com razão que as mulheres, quando se atiram a discursar nestas
e n’outras cousas, dizem por força desacertos.
Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora podesse trocar lingua
com Juca o tropeiro. Elle estava socegado, e entretanto bastante murcho,
não que o dissesse, mas pela cara logo se via isso.
O recado que elle deu para Babita não acabava mais de comprido, mas em
duas palavras queria dizer _amor para sempre_.
Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e trancadinhos no que se
chamava quartel e que já continha uns centos de pessoas, receberam uma
bandeira novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim muito rica e
vistosa.
Houve muita pancadaria de musica, muito foguete do ar, estouros de
bombas, e fallatorios compridos e cheios de enthusiasmo.
O commandante superior tomou novamente a palavra e disse que com o
contingente mineiro a guerra havia por força de acabar, que Uberaba ia
dessa feita para a historia, que todos deviam marchar com a maior alegria
e que aquelles que desertassem haviam de receber castigo de Deos e dos
homens. Mas o espertalhão não prometteu dar o exemplo e tomar parte nos
perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.
Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião, ambos com muito
fogo, e no fim do seu palavreado, todos romperam em vivas ao Brazil, e
morras ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo.
O cabo _tres contra quatorze_ já com algumas garrafas de cerveja no
bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos e fazia com os dentes tal
barulho que semelhava não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos.
Elle pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e que estava
tremendo de susto, que fosse buscar oito ou dez castelhanos, armados de
lança e espada, para vêr como n’um instantinho os havia de cortar em
pedaços miudos.
Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado por uma lista de
nomes, veiu jurar por baixo da bandeira e com a mão aberta sobre os
Santos Evangelhos em como havia de defender até a morte o Imperador e a
Constitução e nunca desamparar o seu posto de honra.
Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a verdade, n’esse
momento o coração lhe tremeu dentro do peito. Os companheiros diziam
_sim, sim_, mas eram uns _sim_ muito chochinhos que em muitos parecia
mais um soluço do que uma promessa que só Deos podia quebrar.
Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação—meia duzia de
lanternas de papel—e o quartel ficou todo ás escuras, guardado por uma
sentinella que chorava baixinho e pelos roncos de _tres contra quatorze_.
O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos cópos deixou-se cahir
na porta estirado a fio comprido, como que para impedir com o seu corpo a
escapúla de algum medroso.
Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio e trevas.
Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados do fundo d’alma, pegou
a dormir e a sonhar com Babita.
De repente alguem o puxou por um braço.
—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda tonto de somno.
—Falle baixo, murmurou alguem.
—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a voz.
—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo tempo cinco ou seis mas tão
baixinho que parecia um sopro.
Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba.
—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar _vancê_ para abrir
campo. Parece que o negocio vai ficando sério e que chegou a hora de cada
um cuidar em si.
Ventura respondeu com um gemido abafado.
—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas agora...
—Agora, o que?
—Agora não posso.
—E porque?
—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no livro sagrado, e
decididamente hei de ir por estas terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê
coragem...
Houve silencio no grupo.
—Mas... então, disse com hesitação um d’elles, _vancê_... não vá... dar
parte de nós...
—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual tome o rumo que quizer. Eu
não jurei que havia de guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a
defender o Brasil.
E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro lado.
De manhã vio-se que havião desertado quinze guardas nacionaes e que a
sentinella do portão tinha tambem batido a linda plumagem.
Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol claro, umas machinas
exquisitas, canos feitos de bronze, assentes em grandes rodas e
acompanhados de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas de bois.
Essa machinada vinha com muito barulho e pôz em reboliço todos os
moradores.
—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque nunca tinhão visto
artilharias.
Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas janellas da casa
aquella procissão capaz de metter medo aos mais valentes e soube que
aquelles canudos ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos.
—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo as mãos de admirada, que
peccado atirar em christãos com bacamartes d’esses!
Na noute da chegada da artilharia desertárão de pancada quarenta guardas
nacionaes, e ninguem mais lhes poz o olho emcima.
_Tres contra quatorze_ andava damnado e gritava, no meio da praça da
matriz, que aquillo era uma pouca vergonha e que elle só com um cacete
curto era bastante para dar conta de todos os moradores de uma cidade tão
medrosa e—com perdão da palavra—safada, assim dizia o cabo de esquadra.
Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada mineira que foi acampar
no Cachimbo, a uma legua de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz
de influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão mais vinte
dos aquartelados.
Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros.
Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza do exemplo e
deixar-se estar quietinho quando os mais abrião pernas e ião cuidar da
vida! Quanta coragem para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos
lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, que ella não podia
mais viver assim e era noiva de um ingrato, e não sei o que mais, e mil
cousas e ditos de fazer sangrar o coração.
Mas elle tinha jurado!
Quando no quartel não restarão senão tres homens, o commandante superior,
não se fiando n’elles, mandou trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa.
Queria ao menos segurar bem esses ultimos.
Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.
Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e estava marcado o dia 4
de Julho de 1865 para a partida de toda a expedição que devia se internar
pelo sertão bravio á procura do inimigo.
Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se do noivo que
estava como um desgraçado galé encostado ás grades da cadêa.
—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe na mão, isto é que é ser
_desinfeliz_ de uma vez!...
—A culpa é de _vassuncê_, respondeu a moça soluçando.
—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!... Foi destino...
—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que _vassuncê_ faz mal...
entretanto...
—O que devemos fazer, disse o coitado depois de uma pausa em que todos os
tres choravam, é não perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade;
mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de voltar com toda a
certeza, e então seremos felizes para sempre... Tenho o meu amor para
me salvar. Agora, Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao seu
noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas de Nosso Senhor Jesus
Christo que, na batalha ou no descanço, não haverá uma só hora que eu
deixe de pensar em quem tanto quero.
E, voltando-se para D. Cula, acrescentou:
—Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece bem me vêrem chorar
como se fosse um fracalhão. Tenham fé no que digo: eu hei de voltar...
Babita soluçava como uma criança.
No dia seguinte, as forças da expedição abalaram do acampamento do
Cachimbo.
Foi uma cousa bonita.
Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos bem fardados; o bronze
das peças de artilharia faiscava aos raios do sol; as musicas tocavam o
hymno nacional, e as cornetas faziam uma charamellada de pôr surda uma
pessoa.
D. Cula e sua filha tinham ido dizer adeus a Juca Ventura e para isso
caminharam a pé e de madrugadinha, ainda escurão, legua e meia, distancia
da cidade ao acampamento.
O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, já estava
mettido n’uma grande blusa militar e ás costas trazia uma mochila que
havia de ter bom peso, além da espingarda e do mais.
Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos braços, disse-lhe a modo
de consolo.
—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me no batalhão mineiro:
estou rodeado de patricios e conheço bem o sertão. Não é isto que me
assusta.
E, com um suspiro, concluiu baixinho:
—Ah! se eu não tivesse jurado!
O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu de arma ao hombro e com
passo dobrado.
III
Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de Matto-Grosso, fôra
contar o que todos, desde o commandante das forças até o ultimo soldado,
soffreram, e é cousa de encher livros e livros.
Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se a padecer de fome,
que desde então acompanhou sempre e sempre toda aquella gente, como se
fizesse parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora apertando
devéras, ora menos forte, mas ali prompta á toda a hora para apparecer,
quando menos se cuidasse.
Agora fallando com o coração na mão, foi preciso muita paciencia, muita
confiança em Deos para não se desanimar de uma vez e querer antes
morrer do que aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17 de
Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao resto da expedição. Era uma
rapaziada toda limpa; officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e
commandante meio zangado mas justiceiro e cheio de disciplina. Devéras
fazia gosto servir n’esse corpo.
Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa; foi excellente soldado,
porque, antes de tudo, era um homem que queria sempre cumprir com a sua
obrigação Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra e como
sabia ler e escrever corrente, no Coxim, passou a furriel.
Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além delle ser pouco
_imbicioneiro_, não se ageitava em riscar mappas do dia e relações de
mostra.
No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir os outros, do que
por gosto de galhofa. Na verdade não se esquecia um minuto de sua bonita
noiva: escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto houve correio,
recebia, lá de vez em vez, respostas muito amorudas do punho de D. Cula,
mas do coração de Babita.
Depressa, porém, desse gostinho devia se _desmamar_, porque não houve
mais estafetas e até officiaes de posto graúdo ficárão seis e mais mezes
sem poder receber uma só letra de suas familias, todas moradoras na Côrte
do Rio de Janeiro, de muita consideração e apatacadas.
Lá nos _pantános_ de Miranda, quando a expedição foi se metter no tijuco
até o pescoço é que houve dias da gente duvidar da bondade de Deus.
Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no lodo que de lá nunca
mais sahiram.
Morria _goyanada_ aos punhados, não que sejam mofinos de animo, pelo
contrario no fogo são bons devéras, mas, fanadinhos de corpo, sahiam da
fartura para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza.
Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas de alagadiços e
tremedaes, que era mesmo um Mar de Hespanha, basta dizer que do Coxim
sahiram mais de 3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco mais de
dois mil, quasi todos agorentados.
Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que se poupasse ao
trabalho, mas porque era de seu natural resistir ás epidemias. Isso para
o serviço foi sempre dos melhores e de machado em punho para derrubar
arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina era um grande.
Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e nos acampamentos só
se ouvia gritar: «Furriel Ventura, vai fazer isto. Furriel Ventura, vai
fazer aquillo.» E elle de boa vontade sempre, quando os companheiros
estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, não só do seu
corpo, como de outros batalhões.