O commandante de sua companhia, o Sr. capitão Juca Duarte, que morreo,

coitado, em Miranda todo inchado, moço tão bom que até os soldados

choravão quando o ião carregando no caixão, queria muito ao furriel,

assim como o Sr. major Juca Borges, que depois veio a commandar o

batalhão e era muito valente e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no

Araguaya de Goyaz.

Era um homem muito alegre esse major e tratava bem os soldados, e tambem

um capitão, quasi criança, chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr.

Tenente Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos.

Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O commandante Enéas era

homem sério e meio carrancudo, mas não deixava perecer a sua gente de

máos tratos e injustiças.

A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda onde soffreo muito de

molestias exquisitas que levarão uma _machina_ de officiaes e soldados

ao cemiterio; depois foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar

bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda; desceo ainda para o Apa

e ahi entrou no Paraguay, assim com ares de quem queria engulir aquella

terra toda.

Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de Uberaba! Mais de dous

annos...

E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava uma ou outra, isso mesmo

para a gente lá de cima, e sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que

valem alguma cousa.

Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade, já não escrevia mais.

Que é de papel para no fundo de sertões brutos estar riscando finezas,

quando muitas centenas de legoas separão os namorados?

Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa, quando ella se vio sem

gado nem mantimentos e teve que recuar de um lugar chamado Invernada da

Laguna, parece que tudo quanto é desgraça se juntou para fazer a gente

ter saudades dos tempos de dantes.

Que calamidades, meu Deos!

Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar caro a muito castelhano de

blusa vermelha o incommodo de vir os procurar tão longe, mas o cholera,

mas a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, os aguaceiros, o

sol de rachar, os rios todos cheios, a falta de caminhos, cruz! era de

quebrantar a coragem de um Roldão.

Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma vez em cem annos, e quem

escapou d’aquella feita póde dizer que tomou passagem para a eternidade,

mas não embarcou por ser afilhado da sorte.

Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda achava occasião de dizer

a sua gaitadasinha, mais já a sua prosa não alegrava a ninguem: tudo

andava muito jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar voando

por cima da cabeça da gente, matando este, matando aquelle, aquelle outro

e assombrando a todos.

D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão deixar jogados no meio do

campo como carniça mais de duzentos companheiros a morrerem de cholera e

de ferimentos.

E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem surdos, e o coração

batia, mas parecia pedra ou páo porque nada sentia.

É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só tratava de salvar o

vulto.

Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição vinha rolando as

suas miserias, caminhando quanto podia.

Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava aquella tropa toda, lá se

foi o Sr. tenente-coronel Juvencio, e de nada lhes valêrão as divisas de

ouro bem grossas que tinhão no braço.

Era mesmo um _despotismo_ de morte, e nem se livrou quem estava já

affeito a aquelles lugares malvados e de pestes e forão batendo a bota

o pratico Francisco Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando

os brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem tinha ainda cruzado,

e d’onde não havia de escapar um só ao menos para vir contar onde é que

paravão os ossos dos outros.

Mas Deos foi servido mandar que morressem, um no dia, o outro na hora em

que a columna pisou terreno conhecido. Olhe que foi um milagre!

Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre d’aqui, morre d’acolá,

chegou-se a salvamento, tudo muito porco, muito magro e esfarrapado,

mas emfim ainda com vida e vontade de saber o que era passar um pouco

melhorzinho do que naquella desgraça.

Foi no Canuto.

Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão lá para as suas tócas:

nós então, fizemos acampamento perto de um rio grande, o Aquidauana, que

só uma força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade que todos,

soldados e officiaes, trazião no corpo e na roupa.

Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando, disse n’uma ordem

do dia que os inimigos estavão _anarchisados_[26] com a nossa retirada,

que os batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia de fallar

nos soldados de Matto-Grosso e um bando mais de cousas.

Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia estar lendo toda

aquella escripta, disse para os outros:

—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal chegou.

E os outros se rirão, porque já estava passado o perigo, mas devéras o

furriel tinha razão. Mais de mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios

de vida e _talento_[27] e, em menos de mez e meio, de lá voltarão só uns

setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados que parecia uma tropa de

ladrões do mato.

Não, aquillo foi de mais!

Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o batalhão para Cuyabá,

d’ahi desceu para o Paraguay, ainda entrou em fogo, e foi acampar no

Humaytá, que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era então uma

barranca de rio.

Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira de Uberaba, e, ha

mais de quatro, não recebêra uma cartinha de Babita, uma noticia se quer.

Mas _porém_ o rapaz era de palavra e não houve, neste tempo todo, um só

dia, uma só hora, em que o seu pensamento não fizesse viagem até a cidade

em que morava a namorada.

Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a guerra acabou.

O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro: houve muita festa;

discursos como terra, gritaria, e, o que valia mais, cada voluntario

recebeu uma boa bolada de cobres na pagadoria da Côrte.

Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados e certas differenças de

soldo, de uma assentada metteu no bolso trezentos mil réis do premio de

voluntario da patria e setecentos e picos do resto.

Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas da caixa do

governo!

Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz de Fóra, e, por toda a

parte onde passava havia muito discurso, havia festa a valer e tudo o

mais.

Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar o rumo de sua casa.

Foi um dia grande aquelle!...

Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba, assim com modos de

passarinho que achou a porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra,

tonto de alegria e cantando como um maluco. A saude do tropeiro era

sempre a mesma: pouca differença fazia no rosto, mas nas maneiras era

mais compassado e orgulhoso.

Tambem estava com o peito cheio de medalhas de campanha e ganhara até o

habito da Rosa.

Tinha honras de capitão!

Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não perguntou noticias a

ninguem.

O coração lhe batia socegado e só o que queria era chegar, chegar

depressa...

Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba, a 15 de Julho de 1870 e

frechou direitinho para a casa da noiva.

Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha no collo.

Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um grito forte, levantou-se

e correu para dentro como uma douda.

Era Babita!

IV

Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.

Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros.

Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não

estava:

—Ó de casa, ó minha gente!

Ninguem lhe respondeu.

Elle então entrou na sala.

Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma

imagem do Menino Jesus entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco

annos passados.

Ventura bateu palmas.

Ninguem lhe respondeu ainda.

Oh! Era caso de pensar.

O nosso homem assarampatado empurrou a porta do interior... nem viv’alma

na varanda: correu a casa toda, nada.

Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado gente que havia fugido ás

carreiras.

Decididamente succedêra alguma novidade graúda.

Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia que nem um condemnado á

forca, mas como não era precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar

em mal.

—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou elle, e tomasse um susto.

N’estas idéas sahio da casa.

Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava rente com as casas para

apanhar um pouco de sombra.

Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.

—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não a

conheço, mas sei que a filha d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.

Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito que lhe deu aquella

noticia, ou como não cahio no chão morto para todo o sempre, é o que elle

mesmo não sabe.

Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do que todos os de

Mato-Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como

se fosse uma fogueira.

Tudo estava perdido!

Tudo!

Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella mulher, elle que

vinha cheio de amor, limpo de miserias, depois de ter dado conta de sua

obrigação, elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas para

enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia

já tomado, e em vez de um coração para o affagar e estimar, a traição e o

pouco caso?!

Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para

ser degollado pelos paraguayos?

De que lhe servia a vida?

A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia

de furacão.

Que restava fazer?

Nada... nada mais!

E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de

tirar despique do desprezo de uma mulher?

Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo e o coração a quem

quizesse; mas elle o bravo de 17º. de voluntarios de Minas precisava se

desaffrontar.

Tremessem os desalmados que havião brincado com a honra do tropeiro!

Com isso tudo a lhe ferver no sangue, _amontou_ Juca a cavallo e foi

_sestear_ n’um rancho fóra da cidade.

Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, senão é de crer que

se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o commandante superior da

guarda nacional o viesse abraçar á vista de todos.

Mas para abraços não estava elle.

Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.

Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, com o queixo encostado

na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão.

Na cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada e um facão-punhal.

Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, Juca sahio do rancho, mas

as pernas lhe tremião.

Queria pisar firme e não podia.

É que nunca fôra assassino e agora ia matar!

Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar á beira da

estrada pela affrontação em que vinha.

O coração quasi que lhe saltava pela boca.

Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle homem para você o tratar

assim? Pois não póde haver uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?

E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de matador, quando podia

entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o

peito em que estava escripta a sua historia de soldado! E todos o havião

de festejar e até adular!...

Mas não... O destino assim não quiz.

Apparecião as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se

n’um matacão de barro duro a um lado da estrada, á espera que a noute

fechasse.

Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no

nascente umas nuvens côr de chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de

quando em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.

Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava que assim estava o seu

coração, faiscando, faiscando, mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio

havia de ferir a quem menos cuidava.

Um barulho de passos lhe chamou a attenção.

Era um homem branco, de meia idade e bem _limpo_[28], que tinha um ar

sério e muita composição no andar.

Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, como que virou-se em pedra.

Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a

pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada.

A sua boca deu um uivo.

—O emboaba!

Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço,

era um homem morto.

E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Juca

Ventura com olhos de engolir um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de

si e de sangue frio.

—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe

quem eu sou?

—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um

matador.

O modo por que estas palavras cahirão da boca de Chico Luiz e o seu

proposito fizerão um abalo tão forte no voluntario que elle ficou branco

como cêra.

—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas agora vou ser...

—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim...

—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspirão

na minha cara.

—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a

mais ninguem, ouvio? O unico culpado sou eu.

A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro como que sentia o coração

ficar frio. Quiz puchar pelo braço, mas a mão do portuguez se não

apertava com força, segurava com firmeza.

—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e com os olhos prégados

nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um páo

sequer, e lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada

ninguem mais póde ser acusado... Agora...

E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito:

—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança!

O modo era de quem estava preparado para morrer n’aquelle instante mesmo.

Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e

murmurando:

—Eu nunca matei ninguem assim...

—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita muito depressa, eu quero

defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa

como N. S. da Conceição...

E como Ventura fizesse um gesto de raiva:

—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita

é innocente; Babita resistio quanto poude a este casamento, Babita não

se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lagrimas do seu

coração; foi fiel quanto poude á sua promessa.

O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas fallava como quem

diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito

de Ventura.

—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?

—Não, respondeu com energia Chico Luiz.

—Que aconteceu pois?

—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare

já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir

dia em que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: Sua mão deu

cabo de gente innocente!

E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo uma cousa muito grande.

—Você me ouve? perguntou elle ainda.

Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle homem estava se

decidindo.

—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido e pondo ao cinto a

garrucha depois de ter abaixado de vagarinho o cão.

—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partio para

Mato-Grosso e só houve noticia certa de sua pessoa por uns seis mezes.

Depois passarão-se annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o

seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia

muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noute que era uma

cousa por demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, a

Uberaba um soldado do 17º de voluntarios que disse que conhecia muito

a você, que você tinha morrido ha mais de um anno e até elle tinha

carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua

alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mez inteiro. Correu

muito tempo. N’isso chegou outro soldado que tambem deu a você por morto

e enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que eu, apezar de ter

levado de táboa já uma vez, me apresentei de novo para casar com ella.

N’esse tempo D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse;

ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias ia lá; fiz muitos

quartos quando a minha sogra ficou a sahir d’este mundo. Então Babita,

para obedecer, eu sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se

commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.

E acrescentou:

—Agora estou ás suas ordens.

Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no tempo em que um gato passa

por cima de um brazeiro, estava calado e mais sombrio do que a noute que

vinha chegando.

As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que formavão uma só linha na

testa.

Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria poder não acreditar.

—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, vocês todos enganárão a

Babita. Foi você quem inventou a _embromação_ da minha morte.

—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! Caia ella no inferno se eu

estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aquelles soldados... E depois

olhe para mim, e veja se sou capaz disso...

Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou o portuguez.

O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do

coração do tropeiro: mas elle ficou mudo com a cabeça cahida sobre o

peito...

Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de todo é que no céo

havia umas nuvensinhas vermelhas que aos poucos ião perdendo as côres.

Os dous homens estavão calados.

De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:

—Você me perdôa?

Juca Ventura estremeceu todo.

—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de amargura, não bastou a você,

portuga de desgraças, me tomar a _minha_ noiva, me arrancar o coração,

pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha

alegria, quer tambem o meu perdão?...

—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem de honra, é homem

de bem, eu tambem sou. Da conversa de hoje é que vai sahir o futuro da

mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas

que me pertence _a mim_. Eu fallo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de

joelhos...

—Não, não!

—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu

perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher,

tem pena de meu filho!...

E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Juca

Ventura, mas com tanta dignidade que ninguem havia de vêr n’aquelle acto,

não uma baixeza ou medo, mas uma _menagem_ á desgraça do tropeiro.

—Levante-se, homem, disse em fim com muita pausa Ventura... Eu... vou

pensar.

E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.

—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... é signal que...

para mim... o passado, passado. Se... eu não fôr lá... é que parti para

nunca... mais ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui mora.

E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, na escuridão da

noite...

No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua entrada na cidade de

Uberaba.

Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que todos olhavão para elle,

conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito.

Parecião encarar alguem que sahia da cova para fazer cousas do arco da

velha.

Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já

fazião cruzes pelo que ia succeder sem falta, e alguns que muito a tôa

tinhão raiva do portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá no

coração sentião certa alegria, apezar de estarem a dizer por toda a parte

que o delegado de policia devia estar alerta se não quizesse vêr uma

desgraça feia.

Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de queixo cabido. Começou a

fallar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não

se admirava disso, porque tinha corrido a _rodella_ de sua morte, e mais

isto e mais aquillo e tanta cousa com socego tão grande que não se sabia

o que pensar se era disfarce ou não.

Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel ter-se

apresentado, como militar, ás autoridades que o receberão muito bem, o

abraçárão e o fizerão sentar, foi elle com sol alto parar á porta do

emboaba.

Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, e nem de

proposito, a casa estava cheia de freguezia que nada lhe comprava, é

preciso notar.

Juca Ventura _desapeou_ meio branco. O outro ficou um tanto amarello, mas

se adiantou a encontrar quem vinha entrando.

—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o traz a esta casa, disse o

portuga estendendo a mão.

O tropeiro mal a tocou.

—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito serio.

E accrescentou.

—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha della.

Houve um silencio grande.

Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para dentro:

—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e mulher hão

de vêr com gosto um conhecido antigo e amigo.

E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.

Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado Babita, a bella e

chorada Babita, com o filhinho no collo, como se fosse bandeira de

misericordia.

Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas mulheres, que de tudo

sabião, tinhão os olhos pregados no chão e choravão sem fazer barulho.

—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada

palavra.

Ninguem lhe respondeu.

—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a vocês todos... No meu

coração só guardo uma cousa: é tristeza para sempre.

Babita deu um soluço de desespero.

Ventura chegou-se para ella.

Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:

—E você é feliz?

—Chico... Luiz... é... o... pae de meu filho.

—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal...

Adeos, adeos!

As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até não poder mais.

Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do portuguez, lhe apertou

uma outra vez a mão.

* * * * *

Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro

tempo, mas já não era o mesmo _de dantes_. Calado sempre, só achava gosto

no trabalho.

A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia festas e mostrava

amizade. Não se mettia com pessoa alguma, nem queria que se mettessem com

a vida d’elle.

Uma vez, porém, sahio do sério.

Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado,

e que se lembrou de fallar da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta

pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo.

Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher com Juca Ventura.

Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando

o seu lóte de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a

gente vê bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando por

dentro.

_Longes_ terras viajei

Padeci muito na vida.

E o Deus de compaixão

Não me quer findar a lida.

Faço força para ter

Paciencia, meu senhor:

Mas debalde aperto o peito

Atravez rompe-me a dôr.

Coração, meu coração,

Á razão porque não cedes?

Se não ha poder no mundo

Que te dê o que tu pedes...

Porque, pois, tanto affligir?

Palpitar com violencia?

O destino já fallou

E foi falla sem clemencia.

Golpes duros contra mim

Desfechou sorte perjura,

Mas, cruel, deixou-me o nome,

Por chacóta, de Ventura.

Sim, ventura hei de emfim ter

Quando a morte apparecer.

Sim, ventura sentirei,

Quando me sentir morrer.

FIM DE JUCA, O TROPEIRO.

NOTAS

[1] Como em geral todas as denominações de lugares do districto de

Miranda, é este nome de origem guaycurú e significa—_bando de trairas_.

[2] Agaxi é corrupção da palavra _Euagaxigo_, que quer dizer—_bando de

capivaras_.

[3] Está muito bom?

[4] Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro tribus em

que se divide a nação chané: terenos, laianos kinikináos e guanás.

[5] Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil.

[6] Coitado! Está doente de febres!

[7] Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro.

[8] Estrella, em dialecto guaná.

[9] Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era kinikináo.

[10] Taquaral.

[11] Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados portuguezes.

[12] Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar as pessoas de

importancia. Ás vezes dizem simplesmente: ó senhoria!

[13] O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore que annualmente se

cobre de flores grandes e amarellas. Os indios contão os annos pela época

da florescencia.

[14] Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento de muito respeito.

[15] —Adeos.

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