O vigario cahiu gravemente doente.
Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça
em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no
leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer
forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, de modo que supportou o
tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão
no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.
Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu
auxilio de nada valia para o enfermo.
O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias.
Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que
estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz.
Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o
cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo
que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no
azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.
N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.
De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto
de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a
todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios
havião tumultuado em seu espirito?
Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a
sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d’esses animaculos
ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que.
Mas não!
A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura
sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante
d’ella e guial-a pelos espaços do infinito.
Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se um clarão, cuja luz
apezar da distancia incommensuravel, não podia ser fitada.
Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, indefinido,
échoava uma musica suave, mas que abalava a coragem a mais indomita e
quebrava-lhe toda a força.
—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á morte.
O silencio é que respondia.
—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava elle ainda.
E sempre o silencio.
Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, acima, abaixo, por
todos os lados, almas e mais almas que subião, subião, umas rapidas e
velozes, como anciosas de chegarem e desferindo faiscas de luz, outras
pesada e penosamente, deixando após si um sulco escuro, quasi negro.
No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como que acordou de um sonno
profundo.
Estava salvo!
Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha que ella compuzéra com
hervas do campo e diariamente fazia quasi á força o doente tomar, mas
é de crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar a si a gloria
d’aquella resurreição.
Em todo o caso começou uma longa convalescença, durante a qual o padre
Monte—quem o disséra!—sentio o prazer ineffavel de voltar á vida.
Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações são sempre para
elevar-se. Assim, pois, quando vai-se despenhando o corpo pelo abysmo
do aniquilamento e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser doce
parar de repente e subir tudo quanto acabára de rolar, bem que aggravada
do peso do seu envoltorio terrestre.
O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e as mãos tremulas,
poude dizer missa, elle experimentou uma uncção nova, indizivel e como
sempre desejára ter sentido.
N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da China e India e os
Novissimos do homem de S. Francisco de Salles, livros, cuja leitura fôra
adiada para depois de esgotados os romances.
Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição de sacrificios
immensos, modestos, perdidos no meio das selvas e montanhas de paizes
desconhecidos! Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores que
deixavão todas as regalias de cidadãos, de homens, davão de mão a toda a
possibilidade de gozo, de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e
uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, cheios de ardor e
esperanças no resultado que todos os esforços reunidos havião de produzir
a final!...
O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.
Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito de populações
indifferentes, já que não podia avivar n’ellas a fé que havião recebido
dos antepassados, e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo
libertada de todas as superstições e quasi gentillismos com que no sertão
a cercão a ignorancia e as tradições oraes, ao menos devia procurar a
gente indigena, os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador,
abrir os seus corações ao influxo da religião.
Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria a massa bruta.
A outros mais valentes na palavra, mais felizes, mais inspirados, mais
energicos e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado que as cinzas
frias da indifferença havião quasi abafado.
Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util á sua consciencia e á
patria.
Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser
encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia.
A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu
vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e
indomaveis Canoeiros.
Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho, severo em seus
costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve
indifferentismo.
Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra,
mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões,
que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir
na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o
sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.
No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus
freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle.
Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros
a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o
dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas
antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no
correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro
umas notas do Thesouro.
* * * * *
O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar
e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum,
frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar.
Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia
do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o
intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus
inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas
mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d’aquelles que hoje
são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles,
brasileiros.
FIM DO VIGARIO DAS DÔRES
JUCA, O TROPEIRO
ADVERTENCIA
A autoria da presente narração pertence mais a um ex-sargento de
voluntarios de Minas, que nos disse haver conhecido de perto o personagem
que n’ella figura, do que á nossa penna.
O que fizémos foi desbastar o correr da historia de incidentes por demais
longos, de innumeros termos familiares, e sobretudo de locuções chulas e
sertanejas que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo comtudo
reconhecido a originalidade e força de colorido d’essa linguagem, e
desejando conservar ainda um que da ingenua, mas pitoresca expressão
do narrador, resultou uma cousa esquesita, nem como era quando contada
pelo ex-sargento, nem como devéra ser, sahida da mão de quem se atira a
escrever para o publico.
Batemos de arrependido nos peitos.
JUCA, O TROPEIRO
I
Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas Geraes e tropeiro desde
em menino, era um companheirão, alegre e estimado, como nenhum outro nas
tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto Grosso e trabalhar
n’aquelles sertões brutos.
Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar uma boa prosa, no
que não havia quem lhe posesse o pé adiante.
Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um cururú, repinicar na
viola ou contar historias, umas gaiatas que fazião estourar de riso,
outras de bruxas e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada e
sem vontade mais de pregar olho.
Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava o serviço, mas isso era
tão raro que bem poucos poderião dizer tel-o visto calado e amofinado.
Não havia capataz que o não desejasse em sua tropa, porque não era só de
lingoa que elle fazia bichas.
Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho grosso, não se contava um,
por mais pintado que fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso
de atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar a sobrecarga,
acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os, remexer pastos, arrumar no
pouso as cargas, arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os ligaes
por causa da chuva e da humidade, era elle mestre e tudo n’um sopro.
Emquanto o diabo esfregava um olho, Juca Ventura já tinha feito muita
cousa.
E forte de saude que parecia de ferro. Zombava das maleitas e sezões,
cortando por todo o tempo rios cheios e cruzando _pantános_ sem o
menor medo de _maldades_. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas e
beberagens, e dizia com gabolice que chegaria ao fim da vida sem dar o
pulso a cirurgião nenhum, nem se quer para saber do que morria.
Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas, onze animaes gordos
de encher o olho, e que se derreava na sella com o chicóte de couro crú
apoiado na coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas estradas de
Christo, cantando alto e afinado, contente como um ricaço e cheio de si
como se tivesse o rei na barriga.
Debalde o vento levantava uma _polvadeira_ immensa que lhe avermelhava
a camisa e lhe grudava o cabello ao casco da cabeça, debalde a chuva o
molhava até os ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e
as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um nadinha, o seu genio
brincador, nem fazia parar a sua força de trabalho e expediente.
Chegado que fosse ao pouso e não havia um só n’esses fundões de Goyaz
e Matto Grosso que elle deixasse de conhecer como se em cada um
d’elles houvéra nascido e lá passado annos inteiros—chegado ao pouso e
acommodados os seus animaes, se havia matalotagem farta, comia que mettia
gosto, se não havia, lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um somno
gostoso como tudo.
Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer barulho, por menor que
fosse, o punha logo de pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e
podia até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural vigilante.
Tambem se era preciso, passava muito a gosto a noute em claro: e no dia
seguinte estava lépido e bem disposto, como se não houvéra novidade.
Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos a contar aos
camaradas historias do sertão ou a fazer gemer a viola em cantorias e
caterêtes?
Nem havia conta.
E com tal não padecia o serviço: nem capataz nenhum se gabava de o haver
pilhado a cochilar.
Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se ao respeito e se não
andava com os chefes e superiores a mostrar os dentes em risótas, nem por
isso era carrancudo e malcriado.
Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de sobresalente para não
parecer unhas de fome e mofino quando tinha de pagar a pinga aos
companheiros da carreira.
Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas de estouro; mas
ninguem o podia alcunhar de enjoado, porque nos dias de mareta era boa
perna para o pagode.
Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim que as raparigas dos
povoados, quando chegava alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca
Ventura, pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas fallas de pura
amisade.
É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa maldizente que quer botar
malicia em tudo, malicia que só existe no juizo enviezado e falso dos
falladores.
Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das villas e povoações,
algumas até bem bonitas; mas era negocio de simples palavreado, e nenhuma
d’ellas poderia com verdade dizer que o ouvira fallar de amor, ou fazer
alguma promessa.
Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como um perdido.
Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas novinhas que lhe
mostravão agrado e sympathias; as velhas tambem lhe querião bem e quando
elle cruzava por diante de qualquer casa da estrada, não havia quem
deixasse de o saudar com boas maneiras e franqueza.
E a razão era uma.
É que não se passava uma viagem ou do sertão para o mar ou de lá para
cá, em que elle viesse de mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança
para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e houve até occasião
em que deu de presente uns córtes de fazenda fina e algumas jardas de
fita muito vistosa e larga.
E depois não querião que fosse estimado!
Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos conforme os seus
merecimentos. Mas por estes mundos afóra não falta quem metta a catana
nos mais sem ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas até igual.
E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos a arrastar a aza
e a fazer pé de alferes pelos pousos, como se fôra algum rufião mal
intencionado que botasse a perder as coitadinhas sem experiencia?
Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á uma pessoa; e quando
um homem de vergonha estima devéras uma mulher, esse amor não consente
outro: é o unico na vida.
Nem havia mais segredo.
Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é que morava aquella moça,
que se chamava Balbina do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já
fallecido, havia morado n’uma esquina de becco, que ella era rapariga
de truz, morena, mas corada, de muito proposito e composição e de quem
lingoa nenhuma tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena cousa.
Quem é que não sabia d’isso?...
Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula[21], senhora capaz de
revirar com um peteléco o patife que quizesse vir se engraçar com a filha?
Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabellos pretos como aza
da graúna e tão compridos que passavão alem do quadril talvez um palmo,
olhos que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha
como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de
maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da côrte,
e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava
para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites.
E querem vêr?
Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma janella e D. Cula cozendo
perto de outra, por detraz da rotula fechada, porque a casa tinha duas
janellas e uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão para
um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda
nacional e, tirando-se de seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um
beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado a carinha da moça.
Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma çuçuarana foi D. Cula.
Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo de vassoura, escancarou
a porta e cahio de pauladas no costado do engraçado que não foi um
brinquedo. Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a sóva
quando o páo se quebrou e por cima levou elle com os pedaços na cara.
E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia rota, acompanhado de uma
vaia de conta que lhe passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas
de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.
Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou de dizer graçolas a Babita,
bem que todos os dias ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de
pôr agoa na boca.
Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de tábua a tres pessoas de
consideração.
D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, mostrando que era
preciso tomar estado, que ella nem sempre havia de estar n’este mundo
para dar-lhe amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada do que
bem requestada.
Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que estava já arranjado
em seus negocios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinôco, de quem
a principio fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura,
procedêra sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e
confiança.
—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba.
—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa gente sahem bons maridos.
Depois ha tanto tempo que está na terra, que nem parece filho da outra
banda.
—Não quero este, murmurava a rapariga.
—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz este por ser portuga. Mas
porque disse não ao João Grande, lá da Casa Branca?
—Ora, um socó... e depois zarôlho...
—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica e ninguem dirá que seja
moço feio de todo. Outras mais pintadas do que você, Babita, não hão de
torcer o nariz, quando elle as procurar para casamento. Agora me diga o
Mané Quetano, tambem é zarôlho? Rapaz tão bom, tão socegado e de familia
limpa! O pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando ella não
passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto como elle só...
—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó.
D. Cula costumava então abanar a cabeça.
—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta Deus Nosso Senhor
Jesus Christo, que você não tire de tudo isso motivos de se arrepender.
Querer fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para comer,
são cousas que não vão juntas. Cada um deve pedir a Deus aquillo que
basta para a sua posição. Não vá depois lhe acontecer como á Maria do
Frajado, a coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada e,
afinal, quando quiz casar, já não achou com quem. Morreu velha e levou
palma e capella em cima do caixão. E não foi das mais infelizes, porque
tem se visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga de sangue
nas veias, só em pensar n’ellas.
Babita rematava taes conversas que muito se repetião com este estrebilho:
—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar.
Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento na casa, D. Cula se
mostrou meio carrancuda. O rapaz tinha modos direitos e a sua fama era
boa; mas ella não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos
outros.
Fez cara de poucos amigos e observou de parte a filha.
Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo aceiado e faceiro,
passava por diante da janella e comprimentava com muito respeito as
pessoas que lá estivessem: vio que elle cruzava por demais n’aquellas
paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro, mas por poderem
as suas passadas dar na vista dos outros e trazer fallatorios.
Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios de casorio, e a
menina parecia estar se inclinando muito por elle.
D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos o tropeiro por entre
as frestas da rótula, chamou-a a contas, mas com toda a prudencia,
porque era pessoa de experiencia e bem sabia que com mulheres
_enrabichadas_[22], não se deve apertar muito.
—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta rua anda muito um sugeito
que quer se engraçar com você.
—Eu não sei, respondeu Babita com susto que pareceu de máo agouro á mãe.
—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando
um moço gosta sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de mulher
diante de Deus e dos homens, sem ter que se _avexar_ de ninguem, deve
vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos
outros....
—Mas ninguem me anda _desinquietando_, interrompeu Babita meio arrufuda.
—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está mordida...
E alto continuou:
—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já que estou com a mão
na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são
muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do socego das
mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, revirão o coração de uma
probresinha e, quando não a atirão de uma vez no caminho da perdição,
mettem na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei mais o que.
A cousa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal:
acha graça no namôro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se
cá dentro no peito uma afflicção, um tormento que não pára nem de dia
nem de noute. Então se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha
de fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, menos a vista do
tentador. E elle a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com
a boca aberta, que a rãsinha se chegue por si mesma...
Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma historia
do que outr’ora se havia dado com ella, estava sem saber onde pôr os
olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de
aroeira.
A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um pranto de chôro, atirou-se
ao collo da mãe, escondendo a cara com as mãos.
D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario beijou com muito
carinho a testa da filha.
—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era como dantes. Mas não se
afflija. Aquelle moço tem bom nome, e eu vou me entender com elle. O
peior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado.
—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguem
desconfia.
—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente está desprevenida e da
noute para o dia fica-se outra e presa para toda a vida. O tal rapaz
é tropeiro: não digo que seja bom officio, mas tambem não é de fazer
vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado
não somos filhos de capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos
desejar é que seja de familia limpa, porque graças á Nossa Senhora
Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pae,
que Deus lhe dê a gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá
n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, tudo assentado
nos livros do Revm. Vigario; d’ahi para cima não posso dizer mais, mas
emfim nem todos podem dizer tanto...
Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de palavreado, d’onde só
sahio quando lhe faltou a respiração.
Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sahir,
uma manta côr de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na
altura dos hombros umas especies de dragonas de retroz preto, fincou um
pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de
pouso a tropa de Juca Ventura.
Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lóte de bestas
para esperar os companheiros d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.
—E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cula.
—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, respondeu um outro tropeiro.
Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no seu espirito
cousas bem tristes. Havia sido o que ella suppunha: o tal sujeito era
como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada,
não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que
mais?
Malditos homens que vem bolir por maldade com as mocinhas e pôr as casas
de familia em dobadoura!
D. Cula não disse á filha a verdade.
Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito, mas não sem que ella
lhe dissesse duas palavrinhas.
—E então? perguntou a moça com receio.
—Então elle ficou muito admirado e meio corrido, quando vio que eu estava
corrente com as suas passadas, mas, fallando com franqueza, não pude
saber se elle quer bem ou não a você.
—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando logo fogo. Tenho toda certeza.
—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de voltar, e saberemos então se
é o que você julga d’elle, ou se não passa de um marióla que hei de pôr a
tinir como aquelle filho do capitãosinho.
N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas semanas não se fallou
n’aquella casa em Juca Ventura.
A mocinha estava um pouco macambuzia: não chegava á janella e não queria
sahir, mas comia com vontade e não parecia começar a ficar magra.
Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu caminho, jururú e
abatido. Se cantava, era com uma vóz abafada que fazia ainda mais triste
a solidão.
Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula e o rosto da namorada
não lhe sahião da memoria.